Sunday, June 6, 2010

Comentário no Jornal Público (06/06/2010)

Os governos portugueses, de hoje e de amanhã, não vão criar condições nenhumas que impeçam a fuga de cérebros. Por uma simples razão: quantos menos os esclarecidos a cá ficar, menos reclamações e menos probabilidade de perder eleições. Vejam o exemplo da ciência: onde haveria maior possibilidade de fizar cérebros? O Estado é quem atribui maioritariamente bolsas de investigação, e que cria condições para a fixação de gente em Portugal. E o que faz? Congela carreiras nas universidade públicas, fomentando a mediocridade, o compadrio, o imbreeding, o pagamento de favores - no fundo, a total ordinarice da apropriação da coisa pública por um conjunto de pessoas, mais ou menos organizado, no sentido de retirar o maior proveito para si e para os seus. E o Ministro sabe? Claro que sabe, e compactua com isto. Então se esta é a atitude vigente, acham que irá mudar quando tanto alguns ganharam e ganham? Em comissões, em vencimentos, em ajudas de custo, em participações, em pareceres, em estatuto, em promoções?

Notícia completa em http://www.publico.pt/Sociedade/observatorio-emigracao-aconselha-governo-a-criar-condicoes-para-evitar-fuga-de-cerebros_1440738

Monday, May 31, 2010

A lata da falta de modelos

Não há dia nenhum em que não seja confrontado com charlatões. Parece uma epidemia. São tantos que já nem os conto. Fazem tanto e tão pouco que metade deste país é constituída de charlatões e a outra metade vive, de bancada, a vê-los. Um case study que justifica que sejamos investigados pelas nações Unidas.

Em terra fértil, basta a semente. Em Portugal, basta um chico esperto para fazer vingar a ideia de que a chico-espertice é um bom lema de vida. E eles multiplicam-se, ao arrepia do bom senso, da educação que os nossos pais nos deram, do que o sociedade convencionou ser o certo e o errado, do que a Igreja Católica papagueou. Enfim, hoje há gente que parece que só vive para o estrelato efémero de dizer baboseiras, e ascender a cargos de poder por isso.

A mim, ensinaram-me que os modelos devem ser impolutos, quase imateriais, e inumanos, intangíveis e inalcançaveis no seu desempenho, abnegação, dedicação, desinteresse e conduta moral inatacável. Portanto, ser modelo nunca estaria ao meu alcance, mas seria bom que perseguisse essa via, que seria garantia de um dia vindouro não ser recordado pelos meus filhos como um escroque. Seria sempre melhor viver e morrer a tentar, do que conseguir o que não me poderia estar atribuído, talvez por eu não ser suficientemente bom ou que, simplesmente, não tivesse mérito para tal. Mas deveria tentar, tentar sempre, e mesmo que fracassasse, nada me satisfaria mais do que um joelho esfolado, a tentar ser melhor. Ir mais além, superar-me, vencer com lealdade, tanto os outros, como a Natureza, e acima de tudo, vencer-me a mim mesmo.

Cresci a pensar assim, mas já com um olho na conta bancária. No entanto, honestidade é um conceito tão sólido como o ar que se respira. E mesmo que houvesse dúvidas, num momento ou noutro, bastar-me-ia cheirar o odor do modelo, do seu suor, do seu sofrimento, e a direcção do norte da justiça moral e ética foi-me sendo, sempre, revelado. E assim fui, e vou andando.

O que eu acho estranho é que haja tamanha falta de modelos em tanta gente. Alguns até conheço os pais, e fico por vezes a pensar no que ali terá falhado. Filhos de gente trabalhadora, humilde, sem ensejo de grandes vôos ou vigarices, criaram (sem educar) um filho que mais não é do que um estupor. Um maquiavélico ser de egoísmo puro, que vende a alma dos seus pais para prolongar um momento breve de fama pequena. Gente para quem a vergonha, o pudor, ou o temor de fazer fraca figura não existe. Não existe também a noção de que mentir é feio ("pimenta na língua"., onde estás tu?), de que a soberba não se usa, que a superioridade em qualquer assunto demonstra-se sem se apregoar, que a justiça deve estar a impregnar os nossos discursos. Gente oportunista, hipócrita, falsa e mentirosa, intelectualmente diminuta, capaz das maiores vilanias para se sobrepor ou para aparecer nas passerelles. gente sem qualquer réstia de moralidade, sem conhecimentos para abrir o bico - mas contudo, fazem-no. Gente pobre, estúpida e mesquinha, vaidosa, que corre a esconder as suas infinitas fragilidades, que se adapta, qual camaleão, a todos os ambientes, sem demonstrar enfado. Que forma mais sibilina de estar. Que topete. Que descaramento têm alguns destes travestis.

Tuesday, May 25, 2010

Como se regula a ditadura?

Desculpem lá, mas eu dou voltas e mais voltas e não consigo encontrar uma resposta plausível para uma questão que me atormenta. Quem elege (ou nomeia) os directores dos laboratórios (ou departamentos ou serviços) que constituem os Laboratórios Associados? Porque esta posição de chefia deve ser o órgão menos democrático, menos transparente e mais sujeito a compadrios em toda a função pública. Parece que teremos de arcar, qual karma, com estas vacas sagradas que se instalaram alguns há décadas, e que secam tudo em seu redor. Que eucaliptos científicos. Mesmo velhos, carcomidos pelo tempo, ou até loucos (conheço alguns e desenvolvi uma certa desconfiança intelectual por eles), será que se podem eternizar para além de um qualquer limite do razoável? Se gerem a coisa pública, como decerto fazem, deveriam estar sujeitos a um qualquer tipo de escrutínio. No mínimo, dos pares em eleições. Uma vez director, eternamente director? Sendo cargos de elevado desempenho (supostamente...) será que não deveria haver competição com base em competitividade para os desempenhar?

Alguém sabe como se regula esta aparente monarquia inconstitucional?

Monday, May 24, 2010

Contentes estamos nós todos...

Anda o Sr. Ministro contente, e nós também deveríamos ficar contentes: quando o Ministro dos cientistas se alegra, deve ter razão bastante para tal. Pois, mas isso seria num país à séria, não aqui nesta enxovia intelectual.

Então não é que publicámos logo aos 7 mil papers de cada vez? Campeoníssimos, é o que somos todos, uns verdadeiros exemplos de como do quase nada fazer muito. Então não é que um país que não investe nos seus jovens cientistas consegue ter aumentos explosivos (Ministro dixit) do número de publicações? Isto até parece um contrasenso sindical: "Ministro, daí-nos fome e nós trabalharemos ainda mais". Se o raio da moda pega...

Pois bem, veneno aqui vem ele. Este é o País das idiotices, e é deste pressuposto que parto para mais esta análise crítica. Os bolseiros, justiça lhes seja feita (palavra de ex-bolseiro, que aqui me confesso), são os grande obreiros deste trabalho. Eu cá escrevo projectos e artigos, e partilho de forma pouco equitativa o trabalho prático com os meus colegas assalariados da FCT. Fico triste, mas cada vez menos ponho a mão na massa... Talvez até dissesse "servos da gleba" da FCT, caso não achasse que feriria susceptibilidades. E são estes obreiros que andam desde 2002 a ganhar o mesmo, que por manifesta paixão e abnegação (pelo menos a maioria, os da "família" de um post anterior não contam para estas estatísticas) ainda se dedicam às lides do laboratório. Paixão assolapada, pois é impossível fazer isto por outro motivo que seja. Dinheiro? Nunca, nunca se ganhou tão mal na Ciência como hoje; segurança? Não, essa é para as cátedras, ou, vá lá, de associado para cima; Vaidade? Também não creio, quem é vaidoso quando passa fome? Então algo vai profundamente mal neste pequeno reino, quando um Ministro publicamente assume que está a ministeriar uma horda de competentíssimos profissionais, que pouco mais recebem no fim do mês do que pipocas. Tanto fogacho, mas tão pouco cacau. E não é com foguetório, Sr. Professor do Técnico, que se pagam as contas da luz. Mas o Senhor sabe, aliás não saberemos todos?

Portanto, não consegue esta notícia da suposta felicidade do Sr. Ministro arrancar-me mais do que um leve sorriso cínico. De quem continua a ver uma caravana de perfeito feudalismo a avançar por rotas neoliberais, e a navegar num mar instável que se encapela a cada sopro. Isto está a chegar ao escolho, e quando um dia o casco bater no fundo, teremos sempre os mesmos usurários da desgraça alheia a vociferar que o País é pequeno, inculto, pobre, atrasado, que nunca cimentou um verdadeiro sistema científico, que as empresas não têm dimensão para investir em Ciência, que temos de aproveitar é o Sol e o Mar... já quase parece conversa de Zézé Camarinha, mas a esse não lhe pagam para mandar no País, pois não? Mais vale fecharmos a tasquinha para balanço, despedir todos os cientistas de vez, saldar as dívidas para com fornecedores, e de uma vez por todas assumir que isto de fazer ciência em Portugal foi uma miragem, ou um sonho de uma noite de Verão. Efémero e leve. Mas que
ao menos não sirva para engalanar as naus, ou para fazer boas figuras. Todos sabemos quão desagradável é a realidade.

Ainda vamos a tempo, honestamente acredito, mas não é com solidariedade bacoca e da treta que ganhamos a confiança das pessoas, cientistas e bolseiros incluídos. As pessoas precisam de reconhecimento "cifrónico". E de outras coisas, que falarei na próxima oportunidade. Não acha, Sr. Ministro?

Thursday, May 20, 2010

As manadas, o seguidismo e as novas religiões

Sempre fui contra grupos acríticos, que seguem os seus Messias sem questionar, hipotecando os seus futuros de forma cega e sem acautelar a queda. E sem rede, o chão duro do cimento da vida magoa - e bem.

Na Ciência há muito que constatei a existência de rebanhos, de manadas, de seguidismos, de cães de guarda, de seitas semi-religiosas, em que pastores mais ou menos habilitados na antiga arte da pastorícia apacestam os mais frágeis, ou mais idiotas. Um dado neófito cresce, alimenta-se da massa cinzenta de uns poucos alunos, e está o guru criado, o mito eternizado, e a estupidez emoldurada em talha dourada. Criam-se assim as religiões dos tempos modernos, em que os fiéis e devotos contemplam de perto o idolatrado, o Cientista chefe, e se apaixonam pela sabedoria e cultura, qual tigre de papel, que frequentemente povoam órgãos de comunicação social e cátedras. E depois de criar a religião, faltam os apóstolos, as visões apócrifas, os livros sagrados, o conceito de pecado e de sacrilégio, e de sacramento, cria-se toda uma parafernália de pequenos nadas que servem o propósito de agradar e louvar ao Deus recém criado.

Que nojo. Muitos destes supostos mártires, daqueles que têm lugar cativo nas mais variadas conferências, seriam de facto reconhecidos com base única e exclusivamente no mérito? Quantos são uns ignorantes, bem falantes, televisionáveis, universitários do arroz de quinze, que nunca tiveram concorrência à altura, e que se instalaram porque não havia sombra e o solo era fértil? Quantos, caso tivessem hoje de provar o que valem, estariam sentados na poltrona desse Vaticano em que teimam em colocá-los? É de desconfiar quando vemos alguém que fale de tudo. Não sendo um papagaio, será decerto um charlatão, e para ver artes circenses, prefiro de longe o circo. Ao menos não sou enganado, sei ao que vou, e ainda posso ver mulheres com barba.

Mas é difícl de abalar os pedestais, principalmente quando quem os cria nem tem perfeita consciência de que está a alimentar egos, e a acariciar a vaidade destes verdadeiros mercadores de ilusões que constituem a nossa praça - com a agravante de os verdadeiros peritos ficarem na sombra, com vergonha de particpar em embustes e feiras de vaidades, ou no backstage, à espera de uma oportunidade que nunca surgirá enquanto o guru presidir à missa, ou ao festim de ignorância em que tanto gostam de participar. Algumas conferências fazem-me lembrar autos de fé: queimam-se oportunidades, para gáudio de ignorantes amedrontados de ver mais além.

Criaram monstros? Agora amanhem-se.

Sunday, May 9, 2010

Comentário no Jornal Público (09/05/2010)

(http://www.publico.pt/Ciências/mariano-gago-no-mundo-da-investigacao-cientifica-nao-ha-certezas-para-o-futuro_1436173)

Mas que tremenda hipocrisia. Isto é o total desplante. Então de quem tem um acordo vitalício com o IST podem vir este tipo de afirmações? Isto evidentemente pode ter várias leituras entre as quais se destaca a seguinte: o Ministro não publica, logo não é cientista, logo faz sentido ele poder ter um contrato sem termo. Mas há aqui algo estranho: um Ministro que há poucas semanas anunciava publicamente o fim da precariedade dos pós-docs, e que quer criar vínculos contratuais, vem agora dizer que nunca haverá estabilidade? Em que ficamos? Aliás, a premissa de que é necessaria instabilidade para produzir ciência é uma falácia. Eu acredito honestamente no contrário: alguém com um vínculo precário não está interessado em criar, mas sim em cumprir os objectivos inscritos no seu projecto particular. Se pensarmos um pouco, poderíamos estender esta lógica viciada a qualquer actividade, e passaríamos a ter uma sociedade de precários. Depois, a criação das posições de investigadores auxiliares, previstos nos esatutos das Universidade de cariz fundacional, não visam também a estabilidade? Mais uma vez, vamos sem rumo aparente, e só o Ministro sabe que lógica é esta. Visitem o blog Scientias...

A família

A família ainda é o que era... e pela família fazemos todos os sacríficios, incluindo continuar a ver a família dos outros a orientar-se à conta do dinheiro de todos e a todos prejudicando.

Mais um caso paradigmático, que me chegou aos ouvidos. Uma dada senhora, que por linhas travessas (assuntos de alcova, entenda-se) passou a fazer parte de uma dada família de supostos iluminados, docentes de uma dada universidade pública portuguesa. Como estava numa de ciência, e até nem era burra, concluiu a sua tese de doutoramento, como aliás, 99% das pessoas que se propõem fazê-lo. Esta ciência é a tal mesma ciência-chique que alguns gostam de apregoar que fazem, quando têm muito dinheiro e não precisam de contribuir para o bem estar da sociedade. Mas fazem-no, para demonstrar o quão bons católicos que são, que dedicados, que esforçados, que inteligentes, e que cidadãos exemplares, e porque se correr mal e a bolsa acabar, hélas!!, o paizinho, a empresa da família, o status social, ou a família do marido hão de vir em nosso auxílio, e resolver tudo. Bendito pára-quedas genético. E ainda dizem que o dinheiro não traz felicidade. É que neste Portugalzinho das cunhas e dos favores ainda há gente hipócrita ao ponto de se achar no mesmo barco dos que fazem certas coisas por pura necessidade ou por vocação: "vejam, eu estou ao vosso nível, eu também sou pobrezinho. Eu podia estar a receber 10000€/mês na empresa do meu pai, mas não, quero fazer ciência e estou a receber uma bolsa de 980€ mensais, mas só durante 4 anos, porque a seguir tenho mesmo de ir receber os tais 100000€/mês. Que bom que foi conviver com os pobrezinhos, tanto que aprendi a pôr a mão na massa e a trabalhar a sério, uma vez que fosse. Mas vamos lá acabar com isto, que me estão a rebocar o Aston Martin que deixei estacionado em cima do passeio."

E então, pôs-se as influências a funcionar. Nessa universidade, não há contratações há alguns anos, mas curiosamente vão entrando alguns. E recebem por isso. E esta criatura de que tenho conhecimento já lá está, sem concurso, sem reunir condições para lá leccionar, pois era uma recém doutorado sem qualquer experiência docente no momento do "convite". Mas está lá, de pedra e cal, enquanto que os sem sangue azul estão cá fora. Uns com bolsas, outros sem, uns desterrados, outros desempregados, e a maioria frustrados. Digam-me lá se não vivemos no obscurantismo.

Friday, May 7, 2010

Ciência perdida

O MCTES faz de forma recorrente anúncios de mais bolsas, mais incentivos, mais planos e projectos, mais aberturas de iniciativas, em suma, maior disponibilização de verbas para que se faça mais investigação em Portugal. Faz estes anúncios dando sempre a entender de que mais é melhor, e que agora sim, estaremos no bom caminho para o desenvolvimento científico nacional. Traçam-se objectivos e definem-se metas, sem que se avaliem conveniente e publicamente o sucesso de iniciativas anteriores. Confesso que a mim me faz alguma confusão, já para nem dizer que me repugna, o facto de se fazerem anúncios avulsos, sem uma ulterior definição de uma política para o sector, e sem se fazer um esforço apurado dos resultados dos programas anteriormente anunciados e implementados. Parece que tudo se faz aos solavancos, de forma desgarrada, sem nunca se conseguir exactamente acertar no cerne da questão. E estes anúncios vão surgindo, de forma consistente e sistemática, sem que haja um aumento nem da qualidade, nem tão pouco do impacto da Ciência no bem-estar dos cidadãos e das empresas. Inutilmente, portanto.

Eu creio que este problema da desustruturação da política científica nacional decorre de um erro que se comete de forma contínua. Não se fala com quem se deve, nem nunca se define uma série de parceiros com quem se discuta. Quando a questão é a definição de vencimentos, salários e bolsas, tão pouco há discussões com parceiros sociais. Não há uma organização que de uma forma concreta represente os bolseiros, por exemplo, e as discussões com sindicatos do ensino superior não abarcam os cientistas. Em relação à definição das políticas científicas, as discussões com o Conselho dos Laboratórios Associados está inquinada à nascença. As direcções dos LAs são tudo menos 100% democráticas, e representam na maioria das vezes as ambições pessoais dos seus constituintes, não resultando portanto da vontade expressa dos membros dos próprios LAs. Assim, e quando as necessidades destes são criadas, são automaticamente transformadas em "necessidades reais da ciência nacional e de resolução premente", e são resolvidas. São necessiudades-umbigo travestidas de de "interesse nacional". Não há nenhum forum de discussão, objectivo, crítico e válido, sem estar inquinado pelos egoísmos mesquinhos e habitado por quintas e quintais da maioria das vacas sagradas que compõem a entourage científica do Ministério. É fácil ver quem é "considerado": quem surge em programas de televisão de forma sistemática (4XCiência é um excelente exemplo, pela RTP, pago por todos nós, e em que habitam as mais estranhas e incompetentes criaturas da nossa praça), os júris, as comissões de honra, os mandatários para a Ciência das mais variadas candidaturas, os supostos peritos que vendem as baboseiras nos noticários, os vaidosos dos eventos científico-sociais, os colunáveis dos prémios da ciência, enfim, toda este conjunto de gente para quem a actividade científica é um trampolim de ascensão social. A ciência-chique. E no meio disto tudo, anda a verdadeira Ciência perdida, anda o dinheiro a ser gasto e as oportunidades a se perderem.

Por mais que se anuncie dinheiro, como investimento ou como despesa, não será nunca possível manter um rumo com mão segura, se não se sabe para onde dirigir a nau. E não serão as paredes dos gabinetes ministeriais interlocutores à altura de qualquer ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Criem-se plataformas de investigadores desalinhados, independentes, criteriosos e honestos, e logo a direcção será clara. Mas investigadores sem pedigree, porque os puro-sangues preferem os ares condicionados dos salões de baile pagos pelo erário público. Gaste-se menos em caviar e marketing, e mais em equipamentos, bolsas, químicos e estágios e ganharemos todos. Sem qualquer dúvida.

Tuesday, May 4, 2010

As portas do cavalo do ensino superior público

Isto da função pública e da docência universitária em Portugal tem muito que se lhe diga. Tapa-se o sol com a peneira para ocultar a realidade do eleitor/contribuinte, inventam-se chavões que se repetem à exaustão, tão vazios de significado que chegam a roçar a idiotice. Como aquele que diz que só se contrata 1 funcionário público no advento da reforma de 2. Pois.

Quando se fala de Ensino Universitário, parece por vezes que não se fala de Função Pública. Mas fala. São todos pagos pelo Orçamento de Estado, que a todos nos custa, e invariavelmente somos confrontados com situações de corrupção, mais ou menos ecandalosa e sistemática, que fazem com que nos lembremos que estamos em Portugal. Se ainda algum de nós tivesse dúvidas.

E onde quero eu chegar? À porta da cavalo da carreira docente universitária, pública, moderna e espertalhoca. Então não é que, em virtude dos constrangimentos de contratações, ditados pelos espartilhos dos défices, os nossos Doutores lá descobriram uma engenhoca administrativa (vulgo "um esquema") para continuar a autoperpetuar a sua influência por bons e longos anos, nos corredores das Universidade e Politécnicos portugueses? Senão, vejamos.

Hoje em dia, temos as contratações congeladas, ou perto disso. E como os critérios das contratações são tendencialmente cada vez mais claros, "fica mal" metermos os familiares de calçadeira. Como metíamos há 20 ou 30 anos, à má fila... "Que chatice, isto de se ser transparente levanta problemas, eu que queria meter o meu afilhado, rapaz cordato e pouco competente, espevitado q.b. só para manter os cães de fila dos outros candidatos à distância, não vai poder entrar neste meu pequeno feudo? Era só o que faltava" - assim pensa o catedrático nacional. Assim, pensa, e pensando, assim criou as "bolsas de interessados". E estas "bolsas de interessados" são hoje em dia aquilo que designo como a porta do cavalo do ensino superior público nacional. Porque nem são concursos, nem nomeações de docentes convidados, nem obedecem a critérios transparentes, nem tão pouco envolvem formalismos processuais que garantam equidade de oportunidades a todos os candidatos "a concurso". Pois nem concursos são!!! As instituições de ensino lançam pedidos, por intermédio de correio electrónico (cuspindo ostensivamente no Diário da Républica), de supostos interessados. Definem perfis mais ou menos abstractos, com algumas indicações das funções a desempenhar, com as características que pretendem em supostos candidatos (como se nós não soubéssemos a quem aquele perfil corresponde), e definem um prazo, findo o qual entronizam o predilecto. E é de predilecto de que se fala, pois não há direito a recurso, reclamação, impugnação ou qualquer outra figura jurídica. Porque quem o faz, fá-lo inteligentemente: no fim desses pedidos que por vezes circulam nas nossas caixas de correio electrónico, o texto de abertura da "bolsa de interessados" é claro - esta abertura não configura qualquer processo de selecção ou concurso, e da decisão não decorre nenhum recurso. Toma lá que já almoçaste.

Depois do predilecto lá estar, é meio (ou mais...) caminho andado para entrar na brilhante carreira académica pública portuguesa. Fecha-se o círculo.

Se isto não é uma legitimação da cunha, então o que é? Se isto não é enganar as pessoas, então o que é? Se isto não é do conhecimento do MCTES, então de quem é? Como é possível chegar-se ao ponto do desplante de inventar tais expedientes para se contratar (leia-se, pagar favores) desta forma? Como é possível que fechemos os olhos? Como é possível que ainda consigamos dar crédito a estes figurões, na rua, na televisão, nos livros, em qualquer lado que seja um espaço de cidadania? Por mim, acho que seria preferível amontoar gravetos e troncos, e queimá-los a todos. Fazer um auto-de-fé com os colunáveis da ciência com letra pequena, em nome da decência, com sardinha assada e arroz doce no fim, mas só para os justos.

Sunday, March 1, 2009

Comentário no Jornal Público, 1 de Março de 2009 (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367196&idCanal=58#Commente)

Para além de uma questão de avaliação e caracterização do cenário, que não será assim tão estranho, pelo que a investigadora garantiu cientificidade em algo que a todos nós que somos docentes do Superior já sentimos há muitos anos, eu gostaria de ver um estudo em que fosse estabelecida uma relação causal entre esta situação e os danos para o País que dela advêm. O Estado, por intermédio do Orçamento de Estado, paga o Ensino Superior Público. E depois este mesmo Ensino Superior Público, funciona como mais um factor de diferenciação social, eternizando espirais de pobreza, ou pelo contrário, conferindo títulos nobiliárquicos sempre às mesmas famílias? HÁ aqui uma enorme reflexão a fazer, há que repensar este modelo de acção social escolar, há que equacionar alternativas, há que combater as fraudes no ensino secundário privado, há que combater a influência. Porque tudo isto se repercute depois a vários níveis: eternização de classes dominantes (como a médica), frustração nos candidatos, afastando-os de carreiras para as quais até poderiam ser talhados, e um prejuízo técnico-científico gigantesco, que representa talvez a maior desgraça do nosso País. Mais em scientias.blogspot.com.

Monday, February 23, 2009

As tropelias de um investigador auxiliar

"... e é assim que o Governo quer alavancar o emprego científico. Viveram felizes para sempre."

Podia começar assim o presente post. Eu que até gosto de cascar na pseudo-esquerda que se constitui governo, essa mesma do gestapiano Santos Silva, sem que muitos eleitores se tenham apercebido em tempo útil, i.e., à boca das urnas. De aldrabice em aldrabice, de bem estruturada campanha de marketing em bem elaborada tomada de posição televisionada, cá vamos nós, sem pre a fazer um esforço por engolir a já costumeira posta de bacalhau envolta em paprika de corrupção, que isto de cá passarmos sem levarmos o que de bom tem a vida, não é viver. E de facto o nosso país é naturalmente pródigo em casos de non-sense que fariam qualquer outro cidadão do Mundo rolar de tanto rir, e desistir de trabalhar por tempo indeterminado. Talvez até seja essa a intenção de quem nos dirige, aparvalhar-nos progressivamente até à exaustão intelectual, tanto por intermédio de um discurso ora kafkiano, ora simplesmente esquizofrénico, mas que nos leva a duvidar se ouvimos bem o que pivot dos telejornais acaba sempre de anunciar.

Tenho amigos que são investigadores auxiliares, com os quais privo de forma regular. Na semana passada, estava em amena cavaqueira com um deles, quando casualmente lhe perguntei qual a sua situação. Respondeu-me que iria assinar brevemente o seu 3º contrato consecutivo como investigador auxiliar, e que depois disso, mais uma vez e invariavelmente, não sabia o que o futuro lhe reservava. Chamo a vossa atenção para a reconhecida qualidade deste investigador, que até nem é Português. Começou depois a desfiar o rosário dos disparates habituais a que o nosso Ministériozinho já nos habituou. Todos sabesmos que estes contratos são assinados a 3 + 1 + 1 (anos, leia-se). Enquanto que a ideia original teria sido umae xtensão de um contrato por 10 anos, a realidade foi de tal forma distorcida que temos esta modalidade estranha, mas que tem justificação tanto na falta de inteligência do Governo, como na sua cobardia. Toda gente sabe que contratos a prazo só se podem renovar até um máximo de 3 vezes, excepto se vier lá explícito o contrário. No entanto, e como o Governo receia ter de arcar com mais algumas centenas de funcionários públicos, e relativamente bem pagos (embora o benefício para a Nação seja largamente superior ao que se retira da maioria dos 230 deputados do Hemiciclo, que até recebem mais... e reformas por inteiro após 8 anos, tanta porcaria, doce porcaria) então engendram-se aqui uns contratos de tal maneira sui generis que não se enquadram na lei geral do País no que toca ao regime laboral. Já bastava de termos só investigadores precários, agora até temos tratamento de excepção para os nossos investigadores!! Aberrante, mas de facto de notória excepção.

Nesta coisa de contratar investigadores, houve até alguns laivos de manifestações típicas dos efeitos de alucinogéneos: por incompetência manifesta, houve pagamentos realizados a alguns investigadores auxiliares em LAs deste país que estavam manifestamente errados, para cima!!! E estes investigadores, quando se aperceberam que tinham ganho alguns (muitos) milhares de euros a mais, não fossem eles portugueses, ficaram com o dinheiro. Se calhar, apoiaram-se na jurisprudência de que "ladrão que rouba ladrão...", e ultrapassaram o sentimento de culpa que lhes assolou decerto os seus corações impolutos. Que circo... mas isto não fica por aqui. Como alguns receberam muito a mais, outros houve que não receberem nada, nem sequer o subsídio de férias a que tinham contratualmente direito. Resultado: "será tudo pago no ano vindouro", palavra de gestor da coisa pública. Pois, e foi. Mas quem paga esquece-se do mundo real, aquele a quem temos de prestar contas do que ganhamos e que se chama IRS. Pois bem, estes senhores a quem se pagou indevidamente o subsídio de férias no ano seguinte, viram o rendimento bruto aumentado, pelo que passaram a estar abrangidos por um escalão superior em sede de IRS, pelo que descontaram mais.

Mais: esses investigadores, outrora bandeiras da modernidade do Sistema Científico Nacional, são hoje encarados como indesejáveis, à luz no novo regime jurídico, fundacional, que baliza o panorama universitário público nacional. Centros que os contrataram, e que com eles assinaram contratos, passarão num horizonte próximo a ser unidades orgânicas das Universidades, e casos há em que algumas destas não querem assumir qualquer responsabilidade em manter esta gente. É claro que podemos aqui especular porquê: excesso de qualidade dos investigadores, impossibilidade de estarem sob a alçada do feudalismo vigente (não pertencendo à carreira docente, não estão sujeitos aos caprichos e chantagens das cátedras), independência científica, salários que serão mais um encargo, alguma dose de irreverência saudável. Enfim, são hoje olhados de soslaio por serem aquilo que se pretendia que fossem: bons.

Que circo.

Friday, February 20, 2009

Voltei de lá

Voltei de lá, que é como quem diz, voltei de um longo período de ausência em que simplesmente achei não ter suficiente inspiração para continuar na senda da denúncia. Não porque houvesse falta de motivos (essses são sempre bastantes e assaz interessantes - onde já se viu que a porcaria pudesse acabar?), mas cheguei a um ponto de equacionar o porquê da coisa. Neste caso, o porquê desta "coisa" de chamar os bois pelos nomes. Como todos, sem excepção, somos acometidos por uma imenso cansaço e vontade de parar, principalmente quando achamos que corremos sozinho, fiz esta licença sabática exactamente no sentido de re-avaliar o cenário que me fizera empreender a viagem. Reflecti, vi, apreendi, aprendi, e eis-me chegado novamente ao ponto de partida. E porquê? Exactamente pelo facto de que nunca estivemos tão mal. Ou seja, voltei de lá. De onde estive. Do atoleiro em que a Ciência tarda em erguer-se.

Para além de todas as situações embaraçosas, hilariantes, dramáticas, trágico-cómicas, absurdas, enternecedoras que vivi e que descrevi, nada ultrapassa as mais recentes revelações. Então não é que andam aí investigadores que ganharam posições no âmbito do programa Ciência 2008 que se doutoram no dia em que saem os resultados das contratções desse mesmo programa? Então não é que hoje até há doutorados sem licenciatura? Mas o que se passa no reino da macacada? Vamos por partes...

Licenciatura era, no meu tempo, condição sine qua non, para candidatura a um doutoramento. Aliás, era necessário compilar um gigantesco dossier de quase 2 kg de papel, fazendo prova das nossas alegadas habilitações literárias para que os Conselhos Científicos das instituições de ensino superior acreditassem que éramos quem reclamávamos ser. Legitimamente, diga-se de passagem. Não é por querer ser astronauta que o posso ser. Então, criaram-se regulamentos de acesso ao grau de Doutor que impediam o cançonetismo nacional (para não dizer "os verdadeiros artistas") de lá chegar. Pois bem, é que há artistas e "artistas", e há artistas mais dotados do que outras para algumas artes. Há artistas tão bons que chegam ao ponto de não concluirem licenciaturas, e conseguir uma aprovação (vá lá saber-se como, talvez depois do almoço...) de algumas pessoas que deviam estar mais atentas, ou menos sujeitas a cunhas, e que permitem que sejam aceites como alunos de doutoramento. E como em Portugal a exigência é muitas das vezes letra morta, quando se inicia um doutoramento e se tem resistência para aturar a parvoíce da burocracia das instituições públicas, e os maus humores de chefes e azedumes de funcionários admisnitrativos, é quase meio caminho andado para se chegar ao fim. E o fim é apoteótico: grau de Doutor. Por extenso, como convém, para enganar a populaça.De capa e espada.

Depois, a outra metade da alarvidade. Cuidado que nós andamos atentos, parece é que as autoridades não. Senão vejamos: o Compromisso com a Ciência prevê a contratação de doutorados prevê a contratação de gente para suprir as necessidades do sistema científico nacional. O Programa Ciência 2008, apontado como a panaceia por parte do Governo no que diz respeito ao emprego científico, foi apresentado publicamente por um Sr. Sentieiro. Nessas apresentações feirantes foi divulgado como a golden opportunity para doutorados que o fossem há mais de 3 (três, por extenso, para não acharem que me equivoquei a teclar), e a malta acreditou; abriram-se vagas, e a malta concorreu; criaram-se expectativas, e a malta acreditou; foram-se os prazos, e a malta desesperou; saíram os resultados, e malta caiu nela, de que de facto a vida em Portugal não sai do trilho do costume. E com ares de escândalo. Não é que os mesmos pseudo-licenciados concorrem, ganham as vagas, e defendem o doutoramento, e exactamente nesta cronologia??? Não andemos a enganar o povo, e lembrem-se de Guy Fawkes: há-de haver sempre pólvora, para mandar pelos ares a trampa que alguns insistem ser. É só uma questão de tempo.

Friday, May 30, 2008

E agora, o reverso da medalha

Como não tenho qualquer comprometimento moral ou intelectual, excepto com a minha consciência, tenho por hábito cortar a direito, e estebelecer considerações tanto sobre os chefes como sobre os subordinados. Também já referi por mais do que uma vez que, neste país de espertalhões de espírito rural e de vigaristas de bairro e saltimbancos intelectuais de meia tigela, não existem heróis, porque esses estão reservados aos multiplex dos centros comerciais, que é o mesmo que dizer que só no cinema. Então o caso que aqui hoje trago vem como consequência de mais uma conversa informal com um amigo de um Laboratório Associado sobre uma temática que me cheira a escândalo.

Vejamos: criou-se uma carreira de investigação que, bem ou mal, permitiu a contratação ao abrigo do Programa Ciência 2007 de umas largas centenas de doutorados pelas instituições de investigação nacionais. Como qualquer situação contratual, esta contempla um alegado regime de exclusividade, pelo que, teoricamente, os investigadores auxiliares estão impedidos de exercer qualquer outra actividade que colida com o desempenho da investigação. Aceito-o e apoio-o: eu sou docente universitário de carreira, e compreendo estar sob a alçada de um contrato de trabalho, bem como de um regulamento disciplinar que em caso de incumprimento das condições definidas no primeiro me obrigará a por a cabeça no cepo e aceitar as decisões que possam ser tomadas pelo órgão universitário que tutela a minha actividade. Posso ser sancionado até com o despedimento, caso seja provado que desempenho actividades que extravasem as minhas funções docentes e que colidam com esta actividade. Mais uma vez, sei-o, aceito-o e compreendo-o.

Pois é, mas parece que alguns investigadores auxiliares não o sabem, ou não o aceitam, ou não o compreendem. Parece ser mais ou menos recorrente que (soube hoje), com total beneplácito, alto patrocínio, benção ou conhecimento das direcções dos LAs, investigadores auxiliares andam a dar aulas!!! E de uma maneira sistemática, não fazem biscates para os quais sejam honrosamente convidados na qualidade de especialistas... Então cria-se uma profissão, regulamenta-se a mesma e depois anda a chico-esperteza nacional a usar as artimanhas do costume, tão caras às cátedras (os culpados do costume...) a ganhar pelos dois lados??? Mas o que é isto???

É por estas e por outras que eu digo que não há heróis. Parece só haver vilões.

Vejamos atentamente: o desempenho de excelência só está ao alcance de quem se ocupe de uma actividade com profunda dedicação. E a área da Ciência, para mal dos nossos pecados, ainda é pior, pois vive como consequência de uma desejável (mas por vezes inexistente) paixão pelo saber, pelo trabalho, pela geração e divulgação do conhecimento. O que se passa nestas instituições, de alegado elevadíssimo desempenho (cujos expoentes máximos são os LAs), é que se continua a viver à portuguesa, com a pequena mafia, a cunha, a amizade, o compadrio e toda a parafernália de estratagemas que possam servir o propósito da decadência de um conceito e com o usufruto de benesses ilegítimas. Depois, também não aceito que gente tão bem paga como os investigadores auxiliares mantenha tachos no exterior dos muros da instituição à qual estão vinculados. Assim como eu vivo em função de um regulamento, não aceito que os outros vivam simultaneamente dentro e fora da lei. Até posso compreender (embora não aceite) que os investigadores auxiliares, em virtude da falta de consistência destes programas de contratação de doutorados, não saibam muito bem o que lhes vai acontecer daqui a uns anos e queiram manter um pézinho numa fonte de rendimento alternativa, como a docência universitária. Mas, meus caros amigos, aqui não há meios termos, nem pode haver: se se assume ser docente, é-se docente; se se pretende ser investigador, é-se investigador. Agora ficarmos na tentação de usufruirmos do melhor dos dois mundos, para além de ser imoral, é ilegal, e constitui mais uma das trafulhices que no mundo da Ciência são comuns. E tanto mais comuns quanto mais próximos das direcções dos LAs forem os trafulhas/docentes universitários de ocasião.

Wednesday, May 21, 2008

Estratégia indefinida

Aina em relação ao meu penúltimo post, relativamente à criação da figura do bolseiro em licenciatura, durante o 1º ciclo. Mas que sinais são estes que o MCTES está a querer dar, quando incentiva um elevado número de jovens e desejar uma bolsa, quando depois bolsas, nem de mestrado, nem de doutoramento, nem tão pouco de pós-doc? Que estratégia errática será esta? Não será eleitoralismo, porque não se compram votos com 140€ por mês e a prazo!

Thursday, May 15, 2008

Debate

Meus caros amigos, o que eu acho é que não vai haver empregos se não houver carreiras. Veja-se o caso dos professores do ensino secundário. o Estado forma gente para o desemprego. Como não é isso que eu defendo, acho que este assunto merece debate.

Vejamos: a estratégia é "doutore-se o maior número possível de indivíduos", mesmos nas condições mais precárias, sem que haja verdadeiros interfaces entre ciência e indústria, ou ciência e sociedade civil, ou ciência e tecido produtivo ou agentes económicos (já para não falar de um elo verdadeiro e franco entre ciência e universidade), e depois tenta forçar-se esta gente toda, caríssima ao Orçamento Geral do Estado e aos sucessivos programas (FEDER, POCTI, POCI), a emigrar ou a criar a sua própria empresa. Isto é completamente absurdo, porque não há uma política de efectivação deste desígnio do Estado. A AdI, por muitos esforços que teça, não consegue de modo algum incluir tantos doutores nas empresas, por culpa tanto das universidades e centros (que nunca deram um verdadeiro exemplo de trabalho, porque foram durante décadas meros praticantes do funcionarismo público mais primário), como também das próprias empresas, que querem é subsídios e benesses, e isenções fiscais, e baixos salários, e pouca qualificação - modelo estafadíssimo de desenvolvimento económico, que começou há cerca de 3 a 4 anos a mostrar as suas enormes fragilidades.

Um país pobre, com défices culturais gigantescos, em que o emprego se rege por regras ainda de feudalismo puro, saído de 50 anos de ditadura fascista, que tudo castrou e nada formou, sem bases tecnológicas e científicas sólidas, em que o carreirismo universitário público foi símbolo de status, será que é possível mudar por decreto e por formar longas listas de doutores? Um país com uma indústria incipiente, sem espírito empreendedor, com devaneios de império adiado e faduncho, com tendências para alucinações futebolísticas colectivas, como se transforma isto num lar para cientistas? Sem que se resvale para a sacanice, para o esquema mafioso de bairro, sem permitirmos benefícios ilegítimos e abusos de todo o tipo? Este país não está preparado para a Ciência, e a comprová-lo temos os números do desemprego por sobrequalificação. Por isso acho que não podemos, num prazo de 10 a 20 anos, regermo-nos por ditames meramente comparativos e estatísticos, utilizando como termo a União Europeia, onde pontificam colossos como o Reuno Unido, a França, Holanda, Alemanha e Países Nórdicos. Ambição, sim; cegueira, nem pensar. E muito menos esta tentativa absurda de nos colocarmos em bicos de pés para podermos aceder a bailes que não são nossos. Isso é viver acima das possibilidades.

Eu não estou preocupado com o meu emprego daqui a 5 anos, mas se eu não tiver perspectivas de o ter, porque ele tem tendência a desaparecer (como no caso dos investigadores auxiliares - até já tenho conhecimento de directores de LAs que pensam em demitir-se porque não conseguem cumprir com os compromissos salariais já assumidos... circulam mails azedos entre directores desses LAs pelo facto de a FCT não desbloquear verbas para pagar aos funcionários... esta é que é a realidade), não acham que devo ficar preocupado? É exactamente essa perspectiva do horizonte temporal limitado que eu condeno, a preocupação imediatista com o meu umbigo, que "pelo menos durante os próximos 48 meses está garantido". Esta é a conversa que costumo ouvir aos bolseiros, mas os na casa dos 20, porque os na casa dos 30, com verdadeiras responsabilidades (familiares, por exemplo) já falam de forma diferente.

Ninguém daqui sai ileso, porque há culpas de todos os lados, e parece que existe muito pouca vontade de tanto ministério e ministro, como bolseiros, como docentes, como empresas, as quererem assumir. Sem fatalismos, sem dramas, sem culpas a serem arremessadas de parte a parte, hoje urge resolver esta situação. Não é deitando preocupações para trás das costas que se resolvem os problemas, deliberadamente evitando pensar o que vai acontecer daqui a 5 anos, esperando que o mercado regule a empregabilidade (essa é a maior falácia de todas, porque num sistema corrupto como este, a qualidade será sempre o menor dos argumentos para dar emprego seja a quem for). Eu também já tive a ilusão de que os bons seriam recompensados, mas isso para mim é fé, é do domínio do divino. E como eu não sou homem de fé, bem pelo contrário, acho que é pelo debate e pela construção das coisas que lá chegaremos.

E havemos de chegar a algum lado, isso vos garanto. Nem que seja pelo simples facto de que é impossível estarmos pior.

Wednesday, May 14, 2008

Finalmente, a luz

Ao fim de quase 1 mês de insistência, a FCT acabou de me enviar uma listagem de nomes de avaliadores de recursos em concursos para financiamento de projectos científicos. Mais um passo decisivo para a transparência do sistema. Fiquei moderadamente feliz, porque já não consigo ficar imensamente feliz.

Continuamos atentos. E não esmorecemos.

Iniciativa Ciência 2008

Eu devia achar estranho que se façam anúncios numa Universidade deserta... Quando se agendam apresentações de iniciativas verdadeiramente importantes, é conveniente ver se não estamos a meio de um feriado. E foi tão bom ver o deserto que a Universidade de Aveiro foi, na passada 2ª feida (12 de Maio de 2008), em plena Sta Joana, para a apresentação da designada Iniciativa Ciência 2008. Nada foi augurado, e parece que desta vez se ultrapassaram alguns limites que a decência mande que não se ultrapassem.

Vamos por partes.

a) Cátedras Convidadas
Nada contra, excepto os moldes de selecção das propostas, que não foram devidamente clarificados. Parece-me ser uma iniciativa que, a ser subvertida (como as são quase todas) poderá servir mais o propósito de pagamentos de favores e de amiguismo institucional do que trazer de facto gente boa. Parece-me é que o período de permanência de cientistas, como foi definido, é demasiado curto para desenvolver um trabalho de qualidade. Apesar das críticas, aceito.

b) Bolsas de Integração na Investigação
Anedota. Só pode ser anedota. Hilariante. Insano. Desconheço esta meta estatística que tenhamos de cumprir, obrigados pela UE. Será que o Ministro quer dar ares de inusitada inteligência, competência e clarividência, ao contemplar uma medida tão inútil que nem os restantes europeus inventaram já? Eu não sei se já sabem quanto vale cada bolsa destas... Mas eu digo-vos: 140€. Por mês. Para pagar a alunos de licenciatura que deveriam estar é mais preocupados a estudar para as frequências e para o "paradigma de Bolonha". E depois, urge perguntar o que se espera destes bolseiros, coisa que não me parece que esteja muito clara. A acreditar no que é prática corrente na praça, vamos ter técnicos a ganhar 140€ por mês, e a lavar frascos, preparar soluções, enfim, a fazer o que mais ninguém quer fazer. Vão passar a ser os empregados do alunos de doutoramento. E sem que o MCTES controle ou evite estas práticas. E depois, é a massificação da coisa: 5000? Já era péssimo ter alguém a trabalhar por 140€/mês, mas ter 5000 é uma calamidade, uma catástrofe, um holocausto. E a FCT paga o SSV, indexado a este vencimento ou ao salário mínimo nacional? Excelente modo de fomentar a investigação e combater a precariedade na Ciência.

c) Contratação de Doutorados
Isto já começa a ser uma obsessão doentia. Em vez de se definir de uma vez por todas o que se vai fazer com a carreira científica, faz-se exactamente o contrário: massificam-se as contratações, sem saber o que se vai fazer a toda esta gente daqui a 5 anos. O Sr. Ministro tem de pensar muito bem, e muito para além dos limites temporais do seu consulado, o que se espera da Ciência nacional. E tem de fazer uma escolha: manter este proteccionismo retrógrado que permite a que sejam os docentes de carreira a mandar (literalmente) nos Laboratórios Associados ou outros do Sistema Científico Nacional, ou, pelo contrário, dar garantias de manutenção dos cargos de investigador auxiliar (e devidas contrapartidas em termos de organização interna destes espaços, que permitam a assumpção de responsabilidades, direitos e regalias, até mesmo organizacionais). Assim como estamos é que não faz sentido.

d)Concursos de Bolsas Individuais de Doutoramento e Pós-Doutoramento 2008
Teço aqui as mesmas considerações que no ponto imediatamente acima. Não faz sentido aumentar o número de doutores quando não se resolve nada sobre o que se pretende da carreira científica. Poque corremos o risco de ter problemas muito mais pronunciados no futuro. Quanto mais não seja, por uma questão de número.

Pois é...

Tuesday, May 6, 2008

Novos tópicos de discussão

Tenho tido um pequeno desaguizado com a FCT, pelo simples facto deste sistema insistir em ser desonesto. Vamos começar exactamente por aqui. Não sei se algum dos leitores já o fez, mas se tiverem a vontade de verificar quais os júris de 1ª instância dos projectos científicos submetidos a apreciação para financiamento pela FCT, conseguem facilmente chegar aos seus nomes. Estranhamente, os nomes dos avaliadores em recurso são Segredo de Estado. Instada a pronunciar-se sobre esta questão, a FCT remete-se ao total silêncio, alegadamente por não existirem directivas que definam a divulgação (ou não) dos nomes dos avaliadores. E porquê a minha curiosidade? Nos sabemos que, pelo facto de os páineis serem mais ou menos sempre os mesmos, existem tendências de avaliação e de aprovação. É inegável, e qualquer cientista que saiba o que se passa na sua área sabe a priori que uns projectos, com aqueles avaliadores, têm mais possibilidade de ser aprovados do que outros. Por outro lado, e sabendo que os avaliadores de recurso são nacionais, querem campo mais fértil para a manutenção de situações bizarras? Não somos propriamente parvos, e a bem da transparência, o nome de todos os avaliadores, mesmo os de concursos passados, devem ser divulgados.

Outro assunto: ontem, em conversa com uma colega e amiga, tive o desprazer de saber que ela tinha concorrido para uma bolsa de pós-doc, que foi liminarmente recusada. Naturalmente, pediu recurso, não sem antes fazer uma "visita" às instalações centrais da FCT em Lisboa. Lá, teve a oportunidade de se inteirar dos alegados critérios que foram utilizados neste concurso em particular. Como a homogeneidade de critérios nunca se verificou, de candidato para candidato, ela formalizou o recurso, e voltou ao laboratório. Como um dos directores do laboratório é avaliador, questionou-o sobre qual o modus operandi adoptado neste concurso em particular, visto haver uma gritante disparidade de critérios adoptados de candidato para candidato. Por fim, o director assumiu que, ele, no início da reunião, propôs uma homogeneização dos critérios entre todos os avaliadores; essa proposta foi imediatamente recusada pelos seus pares, restantes avaliadores, com o argumento de que "cada um avalia como entende". Pois bem, o resultado esteve naturalmente à vista: para além de haver candidaturas a concurso que estavam formalmente fora da elegibilidade (nomeadamente um candidato que nem doutor era, nem havia feito entrega de tese definitiva aos serviços académicos da universidade onde se estava a doutorar), houve uma conclusão caricata, em que alguns cientistas ligados à coordenadora do júri tiveram naturalmente bolsa atribuída.

E assim continuamos.

Resposta a Filipe

Caro colega de blogosfera

Tomei a decisão de não responder a comentários, mas para si abro uma excepção. Principalmente pelo facto de me encontrar exactamente nessa faixa etária e de ter um PhD... E como já tive oportunidade de escrever, eu não condeno os bolseiros, condeno é todo um sistema que não oferece qualquer alternativa credível. Mas convenhamos que há demasiados bolseiros que gostam demasiado de o ser, para arriscarem uma outra ocupação que não a de bolseiro. Eu sei que é difícil, mas eu sou um anacronismo: sem padrinhos, sou professor universitário. Naturalmente que já fui bolseiro, pelo que falo com total conhecimento de causa. Mas também lhe confesso que tomei a decisão de, quando acabasse o meu período de bolsa, me dedicar a qualquer outra actividade que não dependesse de bolsas, por uma questão de brio pessoal e profissional. Fiz outras coisas, trabalhei em laboratórios privados, montei uma start-up e depois candidatei-me a uma vaga na docência para a qual aparentemente não havia destinatário, e numa universidade onde não conhecia ninguém. Como pode ver, corri um sério risco, o de ficar sem rendimento. Poderia ter ficado calma e placidamente sentado, a comer da mesma gamela do meu ex-chefe, e a engolir sapos, sempre na expectativa de que ele me estendesse uma migalha, pela qual teria de lhe ficar eternamente agradecido. Como isso não é decerto para mim, tomei uma decisão.

É claro que a horda dos invejosos pode dizer que eu tive sorte. Concordo parcialmente, pois a vida também é feita de sorte, mas não só. E isto tem muito pouco de heroísmo, tem a ver com vergonha na cara.

Como vê, existem possibilidades, desde que as pessoas estejam dispostas a correr riscos e a sacrificar-se pelas coisas em que acreditam. Eu sei que pode ser difícil, extrordinariamente difícil em alguns casos, mas não é impossível. E esta réstia de possibilidade, quanto a mim, deve ser suficiente para que as pessoas não se acomodem. Veja lá se eu tivese ido pela onda depressiva que varria o centro onde me doutorei, em que toda a gente dizia que não havia empregos e que o futuro era ser só bolseiro... Se ter uma bolsa atrás de bolsa é confortável e dignificante, então não é para esses que eu falo.

Monday, May 5, 2008

E continuo no meu penúltimo post

O nosso país encerra pérolas do tamanho de casas. Ora vejam lá o que eu fui encontrar, enterrado profundamente no site da FCT, a propósito do Regime Jurídico das Instituições de Investigação(Decreto-Lei Nº 125/99). Disponível em http://www.fct.mctes.pt/pt/apoios/unidades/politica/regimejuridico/
Para verem que eu nem tenho ideias peregrinas ou desprovidas de sentido... provo-vos que é a Lei da Républica Portuguesa que consagra algunas princípios que o próprio Estado não preza minimamente. Senão, vejamos atentamente:

"As pessoas são a componente mais decisiva para o eficaz funcionamento de uma instituição, importando, por isso, assegurar uma mobilidade de pessoal que impeça a cristalização das instituições, permita a sua constante renovação, mantenha altos níveis de motivação entre os funcionários e opere tanto dentro do funcionalismo público como de e para o sector privado."

Depois, a alucinação colectiva ganha forma:
"Outra das áreas em que se legisla é a relativa à estrutura orgânica dos laboratórios do Estado e das outras instituições públicas de investigação, para todas se estabelecendo a obrigatoriedade de se dotarem de um conselho científico e de uma unidade de acompanhamento, órgãos a que acrescem, para os laboratórios do Estado, uma comissão de fiscalização, uma comissão paritária e um conselho de orientação, que funciona junto das respectivas direcções. O conselho de orientação é integrado por representantes dos ministérios mais empenhados na actividade da instituição, como forma de assegurar um mais eficaz envolvimento dos vários departamentos governamentais na acção dos laboratórios do Estado."

Conclusão bombástica, e a prova como o mal compensa:
"As instituições de investigação científica e desenvolvimento tecnológico deverão pautar a sua actividade por princípios de boa prática científica, devendo adoptar os procedimentos adequados a que os mesmos sejam tornados efectivos."

Isto só merece um sorriso.

A eternização de nomes em cargos é manipulada pelos silêncio de que a lei se reveste. Veja-se:

Estrutura
1 - Sem prejuízo da previsão de outras categorias nas respectivas leis orgânicas, os laboratórios do Estado devem obrigatoriamente possuir os seguintes órgãos:

a) Direcção;
b) Conselho de orientação;
c) Conselho científico;
d) Unidade de acompanhamento;
e) Comissão de fiscalização;
f) Comissão paritária.

2 - A estrutura institucional prevista no número anterior é aplicável aos laboratórios associados, com excepção dos órgãos previstos nas alíneas b) e f).

Os órgãos existem, mas como são revistos nem uma palavra. Eu creio que é por herança, ou sucessão directa do filho varão.

Não resisto a colocar a bold os maiores contrasensos entre a praxis e a realidade. Se o Estado garante combater a cristalização, onde estão as medidas que visem tornar rotativas as chefias? É que tudo começa por aí! Ou será que os grandes teóricos dessa idiossincrasia que é a Ciência Nacional nos fazem crer que é pela base que se muda a pirâmide? Quando a organização do trabalho eterniza uma teta, como desmobilizar os ávidos beiços que a seguram? Vergonha...

Parabéns ao próprio Ministério por me dar razão. Agradeço embevecido.