Monday, September 24, 2007

A seriação não é séria

Começo por pegar num tema que foi levantado pela Rita, no seu comentário a um destes posts: a necessidade de emigrar por ausência de financiamento.

Nada é mais castrante do que não confiarem em nós. E nada é mais intelectualmente castrante do que nos considerarem inferiores com base em critérios mais do que discutíveis. O estado português, por intermédio da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), administra os dinheiros adstritos aos trabalhos científocos a desenvolver em Portugal. E esta fundação, a FCT, confia a responsabilidade de avaliar o mérito de candidatos a financiamento (sejam eles cidadãos individuais, grupos de cidadãos, ou centros de investigação) no sentido de os seriar, com base em alegados critérios de mérito e de qualidade. Pois bem, estamos muito longe da verdade, embora eu próprio reconheço que w FCT já enveredou pelo bom caminho, se bem que muito lentamente, com a obrigatoriedade de avaliar projectos por intermédio de jurís internacionais.

A questão está nos critérios, pois ninguém me pode garantir um sistema 100% justo. Mas eu nem pretendo um sistema 100% justo, só pretendo um que seja revisto sempre que uma falha é observada, coisa que não se passa nos concursos desenvolvidos na FCT. O critério-mor, para atribuição de bolsas individuais de doutoramento, é a média final de licenciatura, que é um critério objectivo, e de fácil comparação. No entanto, surjem sistemática e inevitavelmente, complicações várias na aplicação deste critério, pois as médias são valores numéricos, que variam ao longo dos anos, e de curso para curso, e de universidade para universidade. Não é possível dizer que alunos com iguais médias mas provenientes de licenciaturas diversas valem o mesmo. Por vezes, têm valores intelectuais muito diferentes e que se podem constituir como críticos para a qualidade dos trabalhos a desenvolver. E utilizar este critério como o mais importante num processo de avaliação de mérito, é, no mínimo, estúpido - 1º, porque é falacioso; 2º, porque é injusto; 3º, porque pode ser falseado ou torneado por inflação artificial das notas; 4º, porque comprovadamente dá problemas, e ninguém tem a coragem política ou se dá ao trabalho de o mudar.

Desenganem-se aqueles que acham que o Estado é pessoa de bem. O estado compactua com injustiças, e longe de as mudar, absorve-as como parte integrante do processo, e faz um finca-pé tremendo no sentido de impedir a mudança. Resultado: os cérebros são expulsos, ou fogem porque não conseguem financiamento. Em contrapartida, aqueles cursos em que 90% dos alunos tem média de licenciatura igual ou superior a 16,0 valores, vêem os seus pupilos financiados, em detrimento de outros quiçá com melhores qualidades para desenvolver ciência. Como é possível este estado de coisas, sem que haja um critério uniformizador no processo de avaliação? Compara-se o incomparável para beneficiar por vezes os menos aptos. Claramente!

Assumo que comparar valores seja mais fácil para os avaliadores da FCT, mas não chega. Isso será o mesmo que reduzir as suas funções a meros contabilistas, coisa que não aceito. Primeiro, porque são muito bem pagos para avaliar as coisas, e segundo porque são professores universitários com conhecimento de causa.

Monday, September 17, 2007

A noção do mérito

Recentemente tive o prazer de ler uma reportagem sobre vários cientistas nacionais, radicados há já largos anos no estrangeiro (nomeadamente em países anglo-saxónicos) que ousaram regressar a Portugal, no sentido de exercer a sua actividade profissional de investigador. Li com toda a atenção do Mundo as considerações, as experiências, as vivências, as opiniões, os motivos dos respectivos regressos e as dificuldades antecipadas/esperadas num país de incomensurável atraso intelectual que é o nosso. E para cabeçalho desta reportagem, e emoldurada a letras pomposas, ficaram sempre as motivações das instituições nacionais que os convidaram e acolheram, como "excelência", "criação de grupos de elevada qualidade" e demais considerações superlativas no sentido de serem apostas ganhas à partida.

Pois bem, eu não acho que estes cientistas dos quais a reportagem falou sejam bons; eu tenho a certeza de que são excelentes. E compreendo e aceito com entusiasmo que se integrem no Sistema Científico Nacional como qualquer outro bom cientista que possa existir. Para que conste...

Agora o reverso da medalha: será que a excelência só existe lá fora, no tão português emigrante que regressa? Quantos cientistas excelentes existem em Portugal, e que pelos mais variados motivos optam por se doutorar nas nossas Universidades e nos nossos centos de investigação, e que não almejam nunca a terem a fama e o proveito dos filhos pródigos? Aqueles aos quais nunca são dadas condições de brilhar em pé de igualdade? Atente-se que não retiro aos cientistas que voltam qualquer mérito, antes me ocupo a dizer que o sistema nacional (conhecido por não premear o mérito nem incentivar a criatividade, a inovação e a inventividade) os impede de assumirem o seu real valor, caso nã emigrem. Os cientistas que regressam tiveram o mérito, a sorte ou o feliz acaso de se integrarem em equipas que lhes permitiram crescer do ponto de vista intelectual e científico, e assumirem-se com líderes e cientistas com inegável qualidade. Caso tivessem permanecido em Portugal, seriam mais um número no mar de investigadores da penumbra, aos quais os chefes prolongam os planos de trabalho para usufruirem dos "doces prazeres da escravatura". Portugal não é um país justo: em Portugal minam-se as ideias, e reduzem-se os méritos a mesquinhas relações de poder parasitário e contraproducente. A qualidade, principalmente quando emana de um subalterno, é inimiga do estatuto, torna-a um alvo a abater, é motivo de silenciamento e de ostracismo e exclusão. A qualidade é inimiga da "nossa" perfeição, porque o sistema perfeito nacional é aquele em que nada se questiona, nem tão pouco a estupidez.

Pergunta: não haverá gente boa em Portugal? Claro que há. Será que seremos tão provincianos ao ponto de achar que em Portugal, e para se ser bom, temos de arrecadar o conhecimento, o mérito e a reputação lá fora, para depois re-ingressarmos pela porta grande e com tapete vermelho no sistema? Será que embarcamos burros e voltamos génios? Será que ainda não ultrapassamos a síndrome da mala de cartão, em que tudo o que aparenta ser estranjeirado é bom? Será que só nos poderemos assumir na qualidade depois de nos sujeitarmos ao Purgatório do exílio?

Quanto perde o país com este espírito? Imenso, uma quantia avassaladora e inimaginável de know-how. Quem ganha com isto? Os medíocres.

Uma nota curiosa: recebo quase diariamente e-mails a pedir a divulgação de posições de docência de Universidades nos mais variados recantos do Mundo. Nunca recebi uma única para uma posição de docência em Portugal. Porque será? É a tal noção do mérito que ainda não temos, e que não teremos tão cedo.

Sunday, September 2, 2007

Ainda as responsabilidades do Estado

Nem mesmo o mais fiel acólito da ideologia neo-liberal gostaria de ver uma sociedade ocidental totalmente desregulamentada. O papel do Estado é assim fundamental, quanto mais não seja na harmonização e arbitragem das relações entre os cidadãos. Só assim se justifica que existam tentativas de concertação social, em rondas negociais anuais, que visem o estabelecimento de mútuo acordo dos assuntos que dizem respeito ao trabalho. A partir dessas rondas, são adoptadas resoluções e, acima de tudo, há preceitos que ganham força de lei, com o surgimento da imprescindível legislação laboral.

Mais uma vez, na Ciência, não existe nada disto. E até certo ponto, existiu (e chamo a atenção para o tempo verbal - no passado) uma justificação aparente para esta questão. Quando o financiamento da ciência era uma questão absolutamente marginal na nossa sociedade, eu até poderia aceitar que a regulação da sua actividade fosse incipiente. Quando o Estado financiava a actividade de algumas dezenas ou pouquíssimas centenas de indíviduos, e ainda por cima com uma quase garantia de empregabilidade no final do período financiado, o cenário das bolsas era, DE FACTO, transitório. Esta natureza fez com que a necessidade de regulamentação das relações nunca fosse assumida. Mas agora???? O Estado, no que à investigação nacional diz respeito, é o maior empregador nacional, financiando directamente largos milhares de investigadores. Assim, não é de todo aceitável que a instituição Estado se divorcie do seu papel de parceiro social e ignore, de forma sistemática e com o maior dos descabidos descaramentos, esse seu papel. Modernidade, equidade e justiça são conceitos que não se coadunam minimamente com abusos próprio da uma ditadura sul-americana, e que o Estado permite diariamente nas suas próprias instituições de investigação científica. E vejam: apregoando bandeiras como as do choque tecnológico, parcerias com MITs e Carnegie Mellons, acordos com Fraunhofer Institutes...

O trabalhador da ciência nunca é reconhecido como tal, e a própria terminologia "trabalhador"constitui verdadeiro cavalo de batalha há mais de uma década para a nomenklatura científica nacional, e apesar de sérias recomendações da União Europeia no sentido de se considerar estes trabalhadores como detentores dos direitos e garantias de todos os demais. E a estratégia é simpes: é a da avestruz, se o problema não se vê, então é porque não existe; se o investigador não é um trabalhador, então não tem os direitos dos trabalhadores. Simples, e inovocam-se argumentos giríssimos, como o facto de que o investigador científico está "em formação". Se virmos que, hoje em dia, todas as estratégias empresariais e outras, falam de aprendizagem ao longo da vida, posso concluir que o próprio Ministro da Ciência estará em formação - logo, não deve receber um salário, mas antes uma bolsa, e a 12 meses... de 745€ mensais + seguro social voluntário indexado ao salário mínimo...

Mas isto até nem é o mais grave. O mais grave é a total falta de protecção social. E até calha bem que a questão da flexisegurança esteja em discussão quase permanente em Portugal (só para situarmos o conceito), porque na Ciência o que existe é a flexi-insegurança, e por total omissão do Estado. O Estado dá dinheiro para que se investigue, mas não controla minimamente as relações que se estabelecem dentro dos próprios laboratórios. E num país como o nosso, de saudosistas e aspirantes a Salazares, desregulamentar é o mesmo que abrir a porta a todas as formas de exploração e de abuso. É confrangedor observar a situação de algumas instituições de investigação, integral ou parcialmente financiadas pelo Estado (alegadamente para servir "os interesses estratégicos nacionais") em que os chefes são imperadores de algibeira, mandando e desmandando, decidindo arbitrariamente qual o futuro dos seus colaboradores, e sem precisar de dar qualquer justificação para os seus actos. Para despedir um bolseiro do Estado, é tão simples como uma carta dirigida à entidade financiadora do próprio Estado - e está o gajo na rua, limpinho!!! E estas cartas são instrumentalizadas, na base do "ou te portas bem, ou como eu decido a meu bel-prazer, tens de ter cuidado". E ninguém pede contas, ninguém investiga as razões do conflito, ninguém arbitra, ninguém define compensações para a parte que mais vulgarmente sai lesada que, é a do trabalhador da ciência, naturalmente.

Se for ao contrário... O Estado criou uma entidade virtual, que deveria apurar as reais condições em que o conflito existiu. No entanto, atentem por favor nas minhas palavras, pois é uma entidade completamente virtual, nunca regulamenteda, que nunca vi em acção. Agora despedimentos baseados em critérios abusivos e em resultado de abusos de poder discricionário, são mais do que muitos.

No próximo post falarei das péssimas condições em que alguns grupos de trabalho, pagos pelo Estado, trabalham, com óbvio prejuízo da saúde dos investigadores.

Wednesday, August 29, 2007

Comentário no Jornal Público

A questão das estatísticas, motivo que me levou a comentar uma das recentes notícias dando conta do interesse do Presidente da Républica sobre a falta de isenção e qualidade deste instrumento, é assaz interessante.

A Ciência não é o motivo que me faz escrever por ser cientista; é o motivo que me faz escrever por eu a interpretar como uma alavanca do progresso do nosso País. A Ciência, e a sua aplicação tecnológica, é o motor que faz com que as verdadeiras economias modernas e competitivas (Japão, alguns países europeus e os Estados Unidos da América) se mantenham há décadas como superpotências industriais e económicas. A Ciência é um dos caminhos para a criação e (posterior) divisão da riqueza, contribuindo para uma diminuição das desigualdades sociais e para um aumento da qualidade de vida dos países onde é desenvolvida. São estas as razões que me fazem assumir esta verdadeira e sincera afinidade com esta questão. Mas assumo igualmente que, caso não fosse cientista, provavelmente não teria possibilidade de encarnar este papel, pois a minha sensibilidade para estas questão seria, no mínimo, académica...

E aqui é que de facto a porca torce o rabo. Vivemos num país mesquinho, de gente pequena e inteligência mediana, muito versada na maledicência e na manutenção de quintais estéreis. Mas o meu quintal, é meu, só meu, e ai daquele que se atreva a achar que o meu quintal podia ser mais produtivo. E de quintal em quintal, de canteiro em canteiro, de regato em regato, vai este país perdendo as oportunidades de se tornar mais moderno, mais rico e inevitavelmente mais justo. É esta a importância que dou ao meu papel. A maioria dos portugueses nem sabe, nem sonha que sequer se faça ciência em Portugal, mas Ciência a sério, da boa, para além das aparições sistemáticas dos comentadores habitués de algibeira, que são físicos e falam também muito bem de biologia e bioquímica, que vá-se lá saber porquê sentam o traseiro em tudo o que é oportunidade para aparecer no pequeno ecrán, a intoxicar as mentes das criancinhas e dos ignorantes com meias verdades, com lugares comuns que aprenderam na meia hora anterior a entrarem no ar, com ideias modernaças e espalhafatosas, com pequenos intróitos pseudo-intimistas (como se o homem-espectador esclarecido lá quisesse ser inundado com sentimentalismos balofos de quem abandonou o seu lar e um dia regressou...), com ignorância travestida de conhecimento profundo... É por isto que por vezes me revolta profundamente ser português, por ver serem dadas oportunidades (e tempo de antena...) para ouvir a mais profunda boçalidade e banalidade, somente porque o orador "fala muito bem". Por mim, até podia dizer asneiras em solfejo, que eu não pago bilhetes para perder tempo. E não admito que uma televisão do Estado esteja ao serviço de lobbies, sejam eles de natureza económica, sexual, política ou mesmo científica...

Porque são este figurões a quem interessa falsear a ciência!!! Quem é bom, e quem realmente fez o ensaio, a experiência, quem espreitou no microscópio, quem preparou a bicharada, quem andou metido em lodo até ao pescoço a medir não-sei-o-quê, esse sabe decerto sobre que versa aquilo que escreve. Agora o físico/biólogo/bioquímico/lobbista percebe de quê, para além de olhar muito bem pela sua vida? E as estatísticas tratam os dois por igual, o que faz, e que é o verdadeiro CIENTISTA, e o outro, o chulo dos costumes finos, o especialista em tudo e mais alguma coisa, o comentador do fait divers, que tanto comenta a mais recente descoberta no âmbito da luta contra o cancro do colón como o último golo do Belenenses, que por acaso até estava em fora de jogo. E é com estas estatísticas que o Governo tapa o sol com a peneira, dizendo que há excelentes investigadores em Portugal, e mantém o parasita na sua Torre de Babel, no seu pedestal, à frente de um laboratório "muito produtivo". Há, com toda a certeza, mas seremos unânimes em concordar que haveria melhor investugação se aos bons investigadores se retirasse o peso do parasitismo do seu director. Porque se mérito há a dar a este último, será somente o mérito de ser mestre na arte de enganar, e enganar com números, o que é complicado. As artes de presditigitação, ou de saltimbanco, são convenientes para os espectáculos de feira, ou circenses, onde a pantomina é breve e inofensiva; agora andarem a brincar com o futuro deste país, e de uma geração de cientistas brilhantes, só por uma questão de ego e de "testículos", então vão-me continuar a ler as crónicas apimentadas.

Lembre-se o grande público: o nosso futuro depende da ciência; até quando estaremos dispostos a ser enredados por falinhas mansas, e enganados por tempo indefinido?

Sunday, August 19, 2007

Dar o nome II

A questão de se dar o nome, com tamanha frequência no nosso país , como se fosse um fado, um destino, uma fataliqade, uma necessidade inapelável, encerra em si um complexo de inferioridade, de mesquinhez, de fazer passar uma imagem de falsidade e aparência que só existe por sermos nós os verdadeiros herdeiros da deseducação fascista. Um dos melhores acontecimentos, e que ainda hoje opera na sociedade portuguesa, prende-se com a democratização no acesso ao ensino superior. Aquilo que é de facto uma conquista da democracia converteu-se, paulatinamente, num poço de problemas irresolúveis, tanto mais que a sua resolução dependeria da (boa???) vontade de uma seita de indíviduos.

Vejamos:
As cátedras das Universidades Portuguesas estão pejadas de senhores e senhoras (por esta exacta ordem) que se formaram (ou licenciaram) nos idos do Arroz de XV, quando o Botas e a sua visão hierarquizada da sociedade permitia que o dinheiro, o estatuto, a beatice e a intensidade do mofo que emanava das sobrecasacas se sobrepusessem aos outros critérios na entrada para o Ensino Superior. Convenhamos, só uma pequeníssima fatia da população podia dispensar os seus filhos da obrigação de irem buscar sustento, quanto mais agora permitir-lhes andarem a perder tempo em estudos... Era a 4ª classe, "porque se eu não precisei, ele também não precisará", para a esmagadora porção dos portugueses.

Então a elite, tal como todas as elites que surjem como reflexo de regimes totalitários (as intelligentsias), fez o que pode (o que até não foi muito) para evitar que outros achassem que podiam comer da mesma gamela. Era escandaloso o proteccionismo corporativista balofo e sem qualquer sustentação ideológica que impedia o acesso de gente ao ensino superior. Ainda hoje se vê, mas com menos preponderância: para se ser médico em Portugal só se tem de ter 22 de média de licenciatura, 3 braços, um fígado suplente debaixo do banco de trás e uma boa dose de presunção aos dezoito anos, que é quando se sabe mais sobre os factos da vida. E digo-vos, baseado na minha experiência profissional: há médicos francamente burros, e formados em universidades portuguesas. Mas têm 3 ou 4 braços, acredito que tenham o tal fígado e presunçosos são com toda a certeza.

Mas com o advento do 25 de Abril, as coisas facilmente assumiram outro pendor, outra orientação, e houve que se fazer re-ajustes. E foram os re-ajustes que se fizeram que entalaram todo o futuro da Universidade tal como a concebemos: Os poleiros continuaram a existir, as nomeações, as entronizações, os direitos adquiridos, as mordomias (tive um professor que era conduzido por um chaffeur até às aulas, sendo eu aluno da Universidade do Porto), os escândalos, os tachos, os cargos feitos à medida, as verbas a serem distribuídas de acordo com as necessidades, a ciência a ser feita pelos amigos, a exploração dos alegados subalternos. Onde eu quero chegar é à seguinte conclusão: o movimento social, político, ideológico, cultural e até moral que colocou Portugal no centro do Mundo político em 1974 nunca foi encarado como uma necessidade para as elites da ciência nacional, que ainda hoje preferem a pequenez controlada de um vão de escada, em que quem fala rapidamente pode ser apontado, à competitividade fundamental para um engrandecimento justo e meritório dos verdadeiros cientistas da nossa praça. Enquanto houver perseguições políticas ou pessoais, enquanto houver concursos em que os critérios de avaliação não são fornecidos aos avaliados, enquanto a seriação for feita por indíviduos ligados aos avaliados, enquanto os critérios de avaliação tomarem em linha de conta unicamente parâmetros para um concurso desse ano, enquanto não houver uma verdadeira separação entre avaliação científica e avaliação pedagógica, enquanto não houver moralização extensiva com afastamento das maçãs podres, enquanto o Ministério Público não investigar e auditar as contas dos projectos financiados pela FCT e dos Laboratórios Associados, então não nos queixemos nunca de que a investigação que fazemos é má. Será sempre má enquanto não houver liberdade de contrapor às palavras das vacas-sagradas as opiniões mais válidas de quem tem realmente valor.

Por isso me indigno contra a fatalidade em que muitos dos meus colegas se enredam quando entregam as suas ideias para que outros, verdadeiros parasitas, dêem o nome, e usurpem a glória. A isto chama-se prostituição científica.

Tuesday, July 24, 2007

Dar o nome

No nosso país existem muitas situações que são, no mínimo curiosas, de tão estranhas que são, sendo simultaneamente do domínio público. À boca fechada, comentam-se algumas, sabem-se outras, confirma-se umas tantas, e até se vai congeminando uma nova série de coisas verdadeiramente estrambólicas que assolam a ciência nacional. E é deta cinência nacional portuguesinha de gema e com letra minúscula que eu habitualmente falo, porque é essa que me faz mais espécie e que me faz desconfiar de todas as iniciativas salvadoras que o nosso ministro da ciência (outra vez com letra minúscula) vai apregoando. Um dos sindromas mais escabrosos é o de dar o nome às coisas.

Por dar o nome, significo assinar por baixo algo que não é da sua autoria. Na nossa ciência é coisas mais do que comum, é extremamente frequente, é inclusivamente quase um ritual iniciático para o jovem investigador. Resumindo: o júnior tem uma ideia, nos seus momentos de ócio passados no WC, amadurece-a, transforma-a num conceito inteligível, fá-la crescer e tomar forma, verte-a numa folha ou num disco rígido, prescruta, debate-a consigo e com os seus pares, e depois, para mal dos seus pecados, comunica-a ao chefe. E essa ideia, que tanto esforço, abnegação, e romantismo lhe custou é imediatamente apropriada, por que em Portugal, ao contrário de outros cantos do globo menos civilizados, só os chefes têm boas ideias. E que ideias, meus senhores, ideias fantásticas, ideias revolucionárias, ideias que garantem saltos no conhecimento, ideias que acabam com a pobreza, com a miséria, com a fome e com a doença! Estes chefes protugueses são fantásticos. Avé, chefe, que conseguiste fazer vingar o que roubaste, o que teu não era, mas que passou a ser!!!!

A isto, meus amigos, é o chamado "dar o nome". E isto é mato na ciência nacional.

Eu até gostaria de ter acesso aos dados que me confirmassem qual a autoria científica e consequentemente moral dos projectos dos grandes cientistas de renome nacional (e coloquei aqui propositadamente o termo nacional, porque aquilo que por vezes vende muito bem cá dentro não passa de uma mixórdia quando comparado com os verdadeiros cientistas internacionais...). Aí muita gente teria enormes surpresas, porque o que cá se aprova com determinada roupagem tem na sua génese gente bem capaz, que não é quem assina a folha. O argumento para fazer isto é simples: para além de haver chefes que pura e simplesmente não autorizam que os seus investigadiores o façam (sob pena de represálias, como o despedimento), há outros que utilizam o vicioso argumento de que se for o junior a assinar, o projecto tem menos probabilidades de ser aprovado. Coisa mais mentirosa não há, porque felizmente e apesar dos caciques, as avaliações começam a ser um bocadinhos mais isentas. Esta atitude é uma mina para beneficiar uns (os tais chefes...) e para prejudicar os outros, os juniores, os legítimos autores intelectuais das ideias. E distorce inevitavelmente a avaliação curricular que é a base do nosso sistema de creditação da qualidade do trabalho produzido.

Por absurdo que possa ser, um indíviduo que adopte esta atitude terá garantida a aprovação de todos os projectos que assine (note-se: assine) pelo simples facto de ter mais curriculum. Mas por absurdo que possa parecer, é este tipo de atitude que vale muita da cátedra que por ainda anda. Ai pois é...

Monday, July 2, 2007

As responsabilidades do Estado

As responsabilidades do Estado em matéria de investigação são enormes. Para além de ser, isoladamente, a maior fonte de financiamento para a Ciência nacional, o Estado detém igualmente, por intermédio do Governo, as ferramentas imprescindíveis para que a iniciativa privada passe a ser também um bom investidor na Ciência. A primeira responsabilidade, que é a ocupará este post, é cumprida de forma francamente insuficiente, não tanto pela verba dispendida mas principalmente pelas opções erradíssimas que o Estado teima em tomar, a vários níveis e que apresentarei de seguida.

Começa tudo pelos esquemas de financiamento. Enquanto o Estado previligiar o mérito meramente curricular, de forma cega e sem levar em consideração factores como a idade dos condidatos a projectos científicos, estaremos sempre na dependência de gente ultrapassada mas com nomes míticos no panorama nacional. Serão sempre os mesmos nas mesmas áreas, a ganhar os projectos, nem que estes tenham sido escritos por cientistas mais novos. Estes cientistas mais novos, e perante este estado de coisas, preferem amíude ir ao beija-a-mão para garantir a mínima hipótese de terem algum projecto aprovado, que é o mesmo que dizer ter algum dinheiro para financiarem a sua própria investigação. Há uns anos, recebi um mail que andava a circular dentro de um deerminado Laboratório Associado, em que o seu Director, um cientista senior e do topo da carreira docente pública, "pedia" aos investigadores juníores que incluíssem nos seus projectos a designada "brigada do reumático". Então eu perguntei cá para mim: "Se são tão bons, estes velhadas, para que precisam que sejam os seus alegados subalternos a incluí-los nos projectos?" O facto é que, como eu já afirmei neste espaço, a ciência portuguesa é de fachada, em que quem assina não é quem assume a verdadeira responsabilidade, e como aparência, financiam-se projectos de fulano velho sob a alçada de sicrano novo. E depois estes mesmos elementos da brigada do reumático criaram figuras assaz interessantes, como o gestor do projecto: é o indíviduo que o escreveu, que o deu por motivos hierárquicos a assinar ao seu superior, mas que assume a verdadeira responsabilidade pelo projecto em si, porque o velho não está para se chatear, ou nem sequer tem tempo. Mas tem espaço no curriculum para escrever lá mais duas linhas, na qualidade de investigador responsável pelo projecto XYZ... E no próximo concurso, o velho tem ainda mais possibilidades de ganhar um outro projecto, enquanto que o novo tem cada vez menos. É o chamado generation gap.

Depois, o Estado mesmo sabendo desta situação, já exposta anteriormente, não tem a capacidade de resolver minimamente a questão. Na minha opinião, fá-lo porque não tem interesse em comprar uma guerrilha com os cientistas seniores, dos quais depende para muita coisa. Quando mais não seja, para a copofonia científica. Como para dizer mal, está meio mundo, mas para apresentar alternativas nunca ninguém se assume, eu faço-o: porque não equacionar uma linha de financiamento de projectos científicos exclusivamente com base na idade, uma divisão sub-40, por exemplo? É que simplesmente não se pode colocar no mesmo patamar cientistas (e curricula) de 60 e de 25 anos! Mas eu advogo a criação desta linha sem haver qualquer intenção redutora ou infantilizante, nem de criar uma linha de investigação sub-alterna ou de menos qualidade. Seria somente um artifício no sentido de aumentar a equidade de condições a concurso. É que com o patrocínio do Estado eu já recebi críticas dos avaliadores dos projectos que me rejeitaram uma ideia com o argumento de que o investigador principal (eu, neste caso) é demasiado novo. Estando eu para muito além os 30, com que idade se poderá aceder a este financiamento? Em que alínea este critério se encontra no Edital dos concursos que o Estado patrocina? Como é possível que no mesmo concurso tenha ganho projectos com a classificação de excelente e tenha sido rejeitado por ser "demasiado novo"? Aqui há gato escondido com o rabo de fora.

No seguimento do ponto anterior, temos a corrupção generalizada no processo de avaliação. Como é que o Estado justifica que haja áreas científicas para as quais os jurís são os mesmos de de há 7 anos a esta parte ? Estas dados são públicos, queiram aceder ao historial das avaliações da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (www.fct.mctes.pt) e confirmem. É que à mulher de César não basta ser séria, tem de parecê-lo. E o Estado nem é, nem o parece, nem o quer fazer crer.

Depois temos a questão da regulamentação dos papeis. Em idos de 90 criaram-se os designados Laboratórios Associados, que aliavam uma maior independência de gestão dos projectos e das próprias linhas de investigação com um papel de prestação de serviços aos governos da Républica em matérias achadas de interesse nacional. Então, optou-se por chamar verdadeiras comissões instaladoras das universidades públicas, para fazerem o papel de batedores de terreno. Instalaram-se, começaram as suas actividades de formação, mas... ainda hoje lá estão, porque ocupam luigares chave, e deles não abrirão mão tão cedo. Não lhes interessa a criação de uma verdadeira carreira de investigação, pois será sempre mais um obstáculo ao exercício do poder a divisão desse mesmo poder com investigadores de carreira, cuja única ocupação é investigar, ter projectos financiados e orientar alunos. Como o dinheiro é poder no seio destas instituições, um investigador sério e competente (caso tenha muitos projectos) pode fazer perigar a posição de um professor-barão, e colocar em risco a hegemonia institucional. Sou francamente favorável à criação de uma carreira de investigação séria, baseada em pressupostos estratégicos e em garantias válidas no que diz respeito às questões laborais. Agora definirem-me investigador auxiliar como "um pós-doc com mais um bocadinho de autonomia", como um elemento da direcção de um laboratório associado me definiu um destes investigadores é que não.

Lançarei mais questões pertinentes no próximo post.