Por vezes falo com pessoas que pouco ou nada têm a ver com Ciência, e alguma demonstram estranheza quando afirmo que há corrupção neste meio. E eu ponho-me a pensar: neste país de pequenos vigaristas, ditadores de algibeira e de corruptos de meia tigela, porque é que o meio científico haveria de ser excepção? Por serem doutores?
Obviamente não é excepção. Estranho muito, confesso, que o Estado crie mecanismos de fiscalização de tudo e de mais alguma coisa, mas que não seja capaz de se aperceber que muitos dos seus próprios funcionários lhe estejam a delapidar recursos, de forma tão grosseira e evidente. Vejam a arma política do "rendimento mínimo garantido", o combate à evasão fiscal, o controlo das baixas médicas... Custa-me igualmente a crer que o Tribunal de Contas não esteja alerta para determinadas engenharias financeiras e sacos azuis. E mais do que tudo isto, vejo com absoluta bizarria o silêncio da Procuradoria Geral da República pelos mais flagrantes casos de corrupção e de indícios sistemáticos de compadrios neste meio. E estou a falar de muito dinheiro: cada projecto nacional, como os do último concurso de 2006, pode chegar aos 200.000€. É um crime que vai compensando.
Política: eu acho que a função pública deve aprender que qualquer concurso cujos avaliadores o sejam por mais de um ano, vai inevitavelmente desembocar em suspeição. E não considero válido o argumento claramente preguiçoso de que não se pode mudar de painel anualmente. Conheço muita gente competente e avalizada para se pronunciar sobre a qualidade de projectos e de bolseiros, e que nunca foi sequer convidada para integrar um juri oficial. Por outro lado, a preguiça é tanta, que se chega ao ponto de confiar em potenciais corruptos, para delegarem a responsabilidade de serem corrompidos os seus próprios apaniguados. Quando os juris passaram a ser integralmente internacionais, em algumas áreas científicas optou-se por manter o mesmo painel, com excepção dos portugueses que foram corridos. Onde antes havias 6 compadres, só passou a haver 5, todos estrangeiros. Que fantástica solução, que garante de isenção...
E depois são os factos consumados: "na área tal, temos fulano que é que é o especialista..." Mas que raio, porquê? Será esse o único português com conhecimentos na área? Será que esse de que tanto se fala é ou foi orientador de todos os outros? E como se muda depois este statu quo, em que de uma forma quase automática alguns gurus (muitos de qualidade duvidosissíma) se eternizam, sen nunca demonstraram os seus reais valores? Exemplifico: há umas semanas, o meu grupo liderou um processo de angariação de linhas estratégicas numa abordagem a parceiros internacionais. Algumas pessoas, entre as quais uma que destaco pela sua nulidade científica e cátedra a condizer, insurgiu-se publicamente contra essa coordenação, no entanto sem nunca apontar um motivo válido para não querer que fôssemos nós a coordenar. Porquê? Por pura vaidade, por achar erradamente que é dona da verdade e do conhecimento. E isto porque alguém bem colocado lhe garante o acesso a financiamentos de projectos e de bolsas individuais. Por mérito pessoal não é de certeza. E isto é incomportável, e tem de ser denunciado e posteriormente investigado.
A maior demonstração de pequenez da mentalidade de muitos dos corruptos e corruptores nacionais é acharem que os outros são parvos. É acharem que nunca serão apanhados, ou chamados à justiça, ou que podem facilmente escapulir-se por entre os pingos da chuva, assobiando placidamente para o lado. Mas também a responsabilidade é nossa, caso não lhes façamos sentir que estamos acordados e numa posição legitimamente vigilante, e que não perdemos pitada das suas movimentações.
Um pequeno teaser: Querem nomes?
Sunday, December 9, 2007
Saturday, December 8, 2007
Hora de viragem
Fiquei muito satisfeito por ter descoberto que o descontentamento relativo ao papel da FCT se materializa cada vez mais na tomada de posição das pessoas envolvidas na Ciência nacional, com iniciativas como o http://investigarafct.blogspot.com/. É uma iniciativa meritória, e a ver vamos se de facto chega a bom porto. É hora de quem de facto sente a tremenda injustiça que grassa no panorama científico se mobilizar a exigir decência e qualidade no trabalho. Já não vivemos numa época corporativa, em que a "cunha" seja moral e socialmente aceite. Não podemos continuar amordaçados por cátedras, nem tão poucos pelos aspirantes a essas mesmas cátedras e a todos os seus expedientes verdadeiramente mafiosos. A mim importa-me denunciar as alarvidades da coisa, como a questão dos concursos.
No ano passado fui confrontado com uma situação caricata: um elemento da minha equipa, que terminou a sua bolsa de doutoramento, concorreu para uma bolsa de pós-doc. Tinha média de 16, cerca de 12 artigos publicados, participação em vários projectos como membro (não como "colaborador), uma série de comunicações orais em congressos internacionais e inclusivamente tinha experiência docente e como prestador de serviços na área em questão. Uma "vizinha" do lado, de outro departamento mas exactamente da mesma área científica, também aluna de doutoramento em fim de bolsa, concorreu para atribuição de bolsa de pós-doc, mas com uma óbvia diferença: não tenho conhecimento das actividades paralelas, mas os seus esforço de publicação ficaram por um artigo numa revista internacional com arbitragem... A diferença era abissal entre ambos os candidatos, a julgar pelos critérios apregoados pela própria FCT. Só algo confundia a cena. O orientador dessa vizinha, e também seu supervisor no projecto de pós-doc é uma pessoa muito influente no meio: para além de ter sido presidente do painel de avaliação de uma dada área científica na FCT por largos anos, onde se encheu de dinheiro a si e aos amigos, continuou a manter a sua total influência a partir de 2002, porque ele saiu (para quem não sabe, a partir dessa data os paineis passaram a ser exclusivamente internacionais) mas os seus amigos ficaram como júris. E esse senhor influente andou, alto e bom som, a anunciar a boa nova nos corredores do Centro antes mesmo dos resultados sairem: " A I... terá bolsa de pós-doc". Como a alarvidade era tão escandalosamente improvável, caso os critérios mínimos de equidade fossem cumpridos, ninguém levou isso em linha de conta... Mas o facto é que os resultados saíram: o meu colega não teve bolsa e a "vizinha" teve. Surpreendidos? Eu fiquei, não com o resultados mas com a lata imensa de transformar este país no Zimbabwe, tal o nível de corrupção.
Portanto, se há algo a investigar, creio que estes exemplos são demasiados comuns para passarem impunes. Ainda ontem, uma minha colega (membro da minha equipa), com 14 artigos publicados, foi preterida por outra "vizinha", com 3 artigos publicados. Pormenor crítico: a "vizinha" foi orientada por uma afilhada científica do mesmo senhor. Já nada me surpreende, só a placidez com que a maioria dos cientistas aceita isto. Eu não me calo.
No ano passado fui confrontado com uma situação caricata: um elemento da minha equipa, que terminou a sua bolsa de doutoramento, concorreu para uma bolsa de pós-doc. Tinha média de 16, cerca de 12 artigos publicados, participação em vários projectos como membro (não como "colaborador), uma série de comunicações orais em congressos internacionais e inclusivamente tinha experiência docente e como prestador de serviços na área em questão. Uma "vizinha" do lado, de outro departamento mas exactamente da mesma área científica, também aluna de doutoramento em fim de bolsa, concorreu para atribuição de bolsa de pós-doc, mas com uma óbvia diferença: não tenho conhecimento das actividades paralelas, mas os seus esforço de publicação ficaram por um artigo numa revista internacional com arbitragem... A diferença era abissal entre ambos os candidatos, a julgar pelos critérios apregoados pela própria FCT. Só algo confundia a cena. O orientador dessa vizinha, e também seu supervisor no projecto de pós-doc é uma pessoa muito influente no meio: para além de ter sido presidente do painel de avaliação de uma dada área científica na FCT por largos anos, onde se encheu de dinheiro a si e aos amigos, continuou a manter a sua total influência a partir de 2002, porque ele saiu (para quem não sabe, a partir dessa data os paineis passaram a ser exclusivamente internacionais) mas os seus amigos ficaram como júris. E esse senhor influente andou, alto e bom som, a anunciar a boa nova nos corredores do Centro antes mesmo dos resultados sairem: " A I... terá bolsa de pós-doc". Como a alarvidade era tão escandalosamente improvável, caso os critérios mínimos de equidade fossem cumpridos, ninguém levou isso em linha de conta... Mas o facto é que os resultados saíram: o meu colega não teve bolsa e a "vizinha" teve. Surpreendidos? Eu fiquei, não com o resultados mas com a lata imensa de transformar este país no Zimbabwe, tal o nível de corrupção.
Portanto, se há algo a investigar, creio que estes exemplos são demasiados comuns para passarem impunes. Ainda ontem, uma minha colega (membro da minha equipa), com 14 artigos publicados, foi preterida por outra "vizinha", com 3 artigos publicados. Pormenor crítico: a "vizinha" foi orientada por uma afilhada científica do mesmo senhor. Já nada me surpreende, só a placidez com que a maioria dos cientistas aceita isto. Eu não me calo.
Monday, December 3, 2007
Desprotecção e a vida é dura
Já fui bolseiro, mas ao contrário de muitos que se esquecem facilmente dos constrangimentos por que passam muitos bolseiros, eu não esqueço, o que me motiva a perseguir um objectivo de maior equidade entre quem faz ciência em Portugal. E motivos para me insurgir não faltam, neste país de desregulamentação que só serve a alguns. Na qualidade de orientador de bolseiros, confesso que me conviria muito mais, para não me aborrecer com "picuinhices", ser favorável à manutenção do statu quo, e assumir que este estado de coisas "é que deve ser", que "o bolseiro está em formação", que "no meu tempo também era assim" e outras vilanias mais ou menos disfarçadas de sacanices politicamente correctas. Mas não o faço, porque ainda acredito que os homens se medem pelo que defendem, para além do conforto de um bom salário e de um sofá onde assentar as nádegas.
Apesar de algumas iniciativas pontuais relativas ao bem estar social do bolseiro, das quais se destacam a questão das férias estarem previstas (aleluia!!, que o legislador se convenceu de que os bolseiros não eram máquinas, qual epifania decorrente de um qualquer vislumbre da Carta Universal dos Direitos do Homem) e a protecção mínima na maternidade, que nos separam do 3º Mundo, muito há ainda por fazer. Nomeadamente, falo da questão da protecção profissional dos bolseiros. E por protecção profissional refiro-me à mais elementar relação orientador-orientando, como uma relação laboral, com direitos e obrigações de parte a parte. Eu bem sei que cada vez menos farão sentido alguns destes direitos para muitos, mas eu não aceito que sejamos pertencentes a duas classes opostas: exploradores ou explorados, pelo que acredito igualmente no primado do direito. Fazem-se regras, que se baseiam em princípios morais, e fazem-se cumprir estas regras. Simples, e ético. Assim, custa-me a crer que "questões laborais" ou se preferirem, que oponham orientandos e orientadores, não sejam arbitradas por uma 3ª entidade, como o caso da FCT. Ao deixar caminho aberto para o malfadado "bom senso", quem distribui verbas (a FCT) não só assegura uma total falta de protecção legal profissional como facilita, por omissão, o abuso. E quem me convence da boa vontade de muitos orientadores? Ninguém, nem mesmo o ar placidamente bonacheirão, e os mais rasgados sorrisos, do Dr. Gago.
Exemplo que me chegou há uns dias: Grupo de investigação num Laboratório Associado. De ponta, muitas publicações. Bolseira grávida. Mais outra bolseira grávida, pouco tempo depois da primeira. Comentário do director do departamento: "Abriu a época do acasalamento?? E porque não trabalha o mesmo que antes? Gravidez não é doença!"
Pois não, excepto no caso da gestação deste orientador, cuja mãe ainda hoje deve ansiar pela liberalização do aborto, com efeitos retroactivos.
Mas do que uma questão legal, isto é falta de civilidade. De educação. De respeito pelo próximo. De consideração por quem lhe produz o trabalho científico, com que este senhor (???) justifica ser um imigrante de sucesso em Portugal.
Dr. Gago, daqui me oiça: falta fazer muito, portanto pode começar por algum lado. E que tal por aqui?
Apesar de algumas iniciativas pontuais relativas ao bem estar social do bolseiro, das quais se destacam a questão das férias estarem previstas (aleluia!!, que o legislador se convenceu de que os bolseiros não eram máquinas, qual epifania decorrente de um qualquer vislumbre da Carta Universal dos Direitos do Homem) e a protecção mínima na maternidade, que nos separam do 3º Mundo, muito há ainda por fazer. Nomeadamente, falo da questão da protecção profissional dos bolseiros. E por protecção profissional refiro-me à mais elementar relação orientador-orientando, como uma relação laboral, com direitos e obrigações de parte a parte. Eu bem sei que cada vez menos farão sentido alguns destes direitos para muitos, mas eu não aceito que sejamos pertencentes a duas classes opostas: exploradores ou explorados, pelo que acredito igualmente no primado do direito. Fazem-se regras, que se baseiam em princípios morais, e fazem-se cumprir estas regras. Simples, e ético. Assim, custa-me a crer que "questões laborais" ou se preferirem, que oponham orientandos e orientadores, não sejam arbitradas por uma 3ª entidade, como o caso da FCT. Ao deixar caminho aberto para o malfadado "bom senso", quem distribui verbas (a FCT) não só assegura uma total falta de protecção legal profissional como facilita, por omissão, o abuso. E quem me convence da boa vontade de muitos orientadores? Ninguém, nem mesmo o ar placidamente bonacheirão, e os mais rasgados sorrisos, do Dr. Gago.
Exemplo que me chegou há uns dias: Grupo de investigação num Laboratório Associado. De ponta, muitas publicações. Bolseira grávida. Mais outra bolseira grávida, pouco tempo depois da primeira. Comentário do director do departamento: "Abriu a época do acasalamento?? E porque não trabalha o mesmo que antes? Gravidez não é doença!"
Pois não, excepto no caso da gestação deste orientador, cuja mãe ainda hoje deve ansiar pela liberalização do aborto, com efeitos retroactivos.
Mas do que uma questão legal, isto é falta de civilidade. De educação. De respeito pelo próximo. De consideração por quem lhe produz o trabalho científico, com que este senhor (???) justifica ser um imigrante de sucesso em Portugal.
Dr. Gago, daqui me oiça: falta fazer muito, portanto pode começar por algum lado. E que tal por aqui?
Friday, November 9, 2007
Comentário no Jornal Público 9/11/2007
Vou dar início a uma nova prática: sempre que comentar ciência em órgãos de comunicação social, colocarei aqui o post correspondente. Vou começar a fazê-lo porque lamentavelmente, o jornal Público, com um editorial outrora isento, alinho muito convenientemente pelo diapasão socrático, o que é o mesmo que dizer que, no âmbito da nossa Ciência, cala muitas vozes dissonantes. Como a blogosfera (ainda) é relativamente livre, escrevo simultaneamente aqui.
Como comentário à notícia que dava conta de uma acusação do Sr. Reitor da Universidade de Lisboa ao Ministro da Ciência, sobre a questão da desorçamentação das universidades em detrimento dos acordos firmados com instituições americanas (disponível em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1310104&idCanal=58):
"Eu encho-me de rir com a surpresa que o Sr. Jornalista quer fazer criar nos leitores. Toda a gente sabe que o meio universitário está absolutamente corrompido, a começar no MCTES e na Direcção Geral do Ensino Superior e a acabar nos alunos, sejam eles de licenciatura ou de pós-graduação. É um sistema que não é avaliado decentemente, que não estimula a concorrência e a competitividade sãs, que favorece o amiguismo e o compadrio... Há situações que são verdadeiros casos de polícia. Só que nada disso é novo, e o jornal Público (bem como muita da comunicação social portuguesa; já agora, tenhm por favor a decência de não me censurarem, como já aconteceu quando estou tão bem disposto como hoje) não investiga porque não quer!!!! Eu já me disponibilizei para dar dados, que funcionariam como provas irrefutáveis do total comprometidmento de muitos professores e cientistas da nossa praça com prática ilícitas ou moralmente condenáveis, e o que é que o Público fez? Rigorosamente nada. Ao menos que nos valham os blogues, como o scientias.blogspot.com que escrevo, que vai servindo para discutirmos num tom simpático as malfeitorias que se fazem em Portugal.Em relação ao assunto de hoje, tem toda a razão o Sr. Reitor: negoceiam-se contratos mirabolantes com os americanos (por mim, até podiam ser chineses, mas o facto é que são americanos - para não me acusarem de anti-americanismo) quando não são capazes de garantir o próprio financiamento nacional para os grupos de trabalho de excelência em Portugal!!! Haverá maior contra-senso??? Os leitores vão a www.fct.mctes.pt e vejam com os própiros olhos: concursos fechados em 30 de Setembro de 2006 ainda não foram avaliados!!! E os investigadores vivem de quê, no entranto. Sr. Ministro? Somos professores universitários e investigadores, mas não somos burros. Não nos leve a mal a franqueza, mas algo está profundamente errado com o que tem andado a fazer."
Como comentário à notícia que dava conta de uma acusação do Sr. Reitor da Universidade de Lisboa ao Ministro da Ciência, sobre a questão da desorçamentação das universidades em detrimento dos acordos firmados com instituições americanas (disponível em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1310104&idCanal=58):
"Eu encho-me de rir com a surpresa que o Sr. Jornalista quer fazer criar nos leitores. Toda a gente sabe que o meio universitário está absolutamente corrompido, a começar no MCTES e na Direcção Geral do Ensino Superior e a acabar nos alunos, sejam eles de licenciatura ou de pós-graduação. É um sistema que não é avaliado decentemente, que não estimula a concorrência e a competitividade sãs, que favorece o amiguismo e o compadrio... Há situações que são verdadeiros casos de polícia. Só que nada disso é novo, e o jornal Público (bem como muita da comunicação social portuguesa; já agora, tenhm por favor a decência de não me censurarem, como já aconteceu quando estou tão bem disposto como hoje) não investiga porque não quer!!!! Eu já me disponibilizei para dar dados, que funcionariam como provas irrefutáveis do total comprometidmento de muitos professores e cientistas da nossa praça com prática ilícitas ou moralmente condenáveis, e o que é que o Público fez? Rigorosamente nada. Ao menos que nos valham os blogues, como o scientias.blogspot.com que escrevo, que vai servindo para discutirmos num tom simpático as malfeitorias que se fazem em Portugal.Em relação ao assunto de hoje, tem toda a razão o Sr. Reitor: negoceiam-se contratos mirabolantes com os americanos (por mim, até podiam ser chineses, mas o facto é que são americanos - para não me acusarem de anti-americanismo) quando não são capazes de garantir o próprio financiamento nacional para os grupos de trabalho de excelência em Portugal!!! Haverá maior contra-senso??? Os leitores vão a www.fct.mctes.pt e vejam com os própiros olhos: concursos fechados em 30 de Setembro de 2006 ainda não foram avaliados!!! E os investigadores vivem de quê, no entranto. Sr. Ministro? Somos professores universitários e investigadores, mas não somos burros. Não nos leve a mal a franqueza, mas algo está profundamente errado com o que tem andado a fazer."
Monday, November 5, 2007
A epidemia de Santiago
Na ciência grassa uma epidemia de há alguns anos a esta parte que ameaça inquinar ainda mais o ambiente científico nacional. É particularmente evidente nas universidades e politécnicos privados em Portugal, onde muitos dos alegados doutores mais não são do que doentes terminais infectados pelo vírus debilitante de que vos quero falar no post de hoje.
Refiro-me ao vírus de Santiago de Compostela. Foi um vírus de comodidade, que se instalou progressivamente por aqueles que sonham com os prazeres dourados de um doutoramento, mas que as voltas da vida nunca permitiram a concretização desse sonho. Melodramático, belo esse sonho. Mas felizmente, o sistema de ensino nacional teve a virtude de impedir quem manifestamente não tinha qualidade de se doutorar, até que este vírus minou o pouco de bom que as universidades nacionais foram fazendo. E fê-lo de modo subreptício e lento, foi paulatinamente sendo instalado um clima de que "existia uma alternativa ao esforço", de que era possível, com pouco tempo e com alguma facilidade, frequentar umas aulitas, distribuir uns inquéritos, modelar umas ideias, fazer uma prelecção mais ou menos longa e entediante, sem contudo produzir resultados de monta, e pimba!!!, obter o tão desejado, o tão perseguido, o tão almejado grau de doutor. Pois, e tirar o lugar, e usurpar o mérito dos verdadeiros doutores. Porque o objectivo não é mais do que este: ter o grau para ganhar mais!!! "E a Ciência"? perguntarão vós. Eles querem lá saber da Ciência!!! Querem é massa!!!
Um colega, obviamente envergonhado, confessou-me uma vez ter-se inscrito num desses programas doutorais, que ele enaltecia como sendo "um destes doutoramentos feitos para quem tem mais o que fazer do que andar a perder tempo com investigação, adequado a pessoas com vida e com família, e que não exigia mais do que umas duas horas por semana". A sinceridade é um valor que prezo...
Hoje vivem-se tempos de rebaldaria, em que qualquer imbecil com o dinheiro para pagar a propina se acha no direito de se intitular "doutor" (de Santiago, naturalmente), mas sempre "doutor". E acham-se no direito de se equiparar àqueles que, de uma forma abnegada e dedicada frequentaram centros de investigação reputados em qualquer lado do Mundo, e que souberam o que foram as reais exigências da investigação científica de bancada durante anos a fio, que escreveram projectos científicos, que publicaram artigos, que patentearam bens e produtos, que se transformaram em Doutores por mérito próprio. Que estudaram, que se dedicaram, que criaram real conhecimento com o objectivo de o partilhar com a Humanidade... enfim, esses valores em desuso que assentam sobre o prazer do trabalho, da conquista, do objectivo atingido, da dignidade e do mérito.
O que é mais lamentável é que este País, ou os seus responsáveis educativos, não estabeleçam reais critérios distintivos entre os doutores reais e os do faz-de-conta. Os reconhecimentos tácitos chegam ao ponto de haver politécnicos privados em Portugal a oferecer no cardápio Doutoramentos (coisas que legalmente não podem fazer, devido ao simples facto de não constituirem ensino universitário) em "parceria" (como eu gosto deste conceito, que serve tantas vezes propósitos duvidosos ... estilo "fazes tu, usufruo eu") com a Universidade de Santiago de Compostela. Para além disto, que diz respeito ao meu país, também lamento que a universidade galega se preste a este tipo de papel, de agente contornador da lei portuguesa.
Não haja dúvida: estamos perante uma fraude, em larga escala, que favorece os incapazes. Onde se encontra a Ditecção Geral do Ensino Superior, e as mais altas instâncias do Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Basta de vigarices, basta de tolerarmos situações duvidosas e manifestamente deploráveis, que abastecem o País de incapazes graduados e enchem os corpos docentes de gente falsamente habilitada.
Refiro-me ao vírus de Santiago de Compostela. Foi um vírus de comodidade, que se instalou progressivamente por aqueles que sonham com os prazeres dourados de um doutoramento, mas que as voltas da vida nunca permitiram a concretização desse sonho. Melodramático, belo esse sonho. Mas felizmente, o sistema de ensino nacional teve a virtude de impedir quem manifestamente não tinha qualidade de se doutorar, até que este vírus minou o pouco de bom que as universidades nacionais foram fazendo. E fê-lo de modo subreptício e lento, foi paulatinamente sendo instalado um clima de que "existia uma alternativa ao esforço", de que era possível, com pouco tempo e com alguma facilidade, frequentar umas aulitas, distribuir uns inquéritos, modelar umas ideias, fazer uma prelecção mais ou menos longa e entediante, sem contudo produzir resultados de monta, e pimba!!!, obter o tão desejado, o tão perseguido, o tão almejado grau de doutor. Pois, e tirar o lugar, e usurpar o mérito dos verdadeiros doutores. Porque o objectivo não é mais do que este: ter o grau para ganhar mais!!! "E a Ciência"? perguntarão vós. Eles querem lá saber da Ciência!!! Querem é massa!!!
Um colega, obviamente envergonhado, confessou-me uma vez ter-se inscrito num desses programas doutorais, que ele enaltecia como sendo "um destes doutoramentos feitos para quem tem mais o que fazer do que andar a perder tempo com investigação, adequado a pessoas com vida e com família, e que não exigia mais do que umas duas horas por semana". A sinceridade é um valor que prezo...
Hoje vivem-se tempos de rebaldaria, em que qualquer imbecil com o dinheiro para pagar a propina se acha no direito de se intitular "doutor" (de Santiago, naturalmente), mas sempre "doutor". E acham-se no direito de se equiparar àqueles que, de uma forma abnegada e dedicada frequentaram centros de investigação reputados em qualquer lado do Mundo, e que souberam o que foram as reais exigências da investigação científica de bancada durante anos a fio, que escreveram projectos científicos, que publicaram artigos, que patentearam bens e produtos, que se transformaram em Doutores por mérito próprio. Que estudaram, que se dedicaram, que criaram real conhecimento com o objectivo de o partilhar com a Humanidade... enfim, esses valores em desuso que assentam sobre o prazer do trabalho, da conquista, do objectivo atingido, da dignidade e do mérito.
O que é mais lamentável é que este País, ou os seus responsáveis educativos, não estabeleçam reais critérios distintivos entre os doutores reais e os do faz-de-conta. Os reconhecimentos tácitos chegam ao ponto de haver politécnicos privados em Portugal a oferecer no cardápio Doutoramentos (coisas que legalmente não podem fazer, devido ao simples facto de não constituirem ensino universitário) em "parceria" (como eu gosto deste conceito, que serve tantas vezes propósitos duvidosos ... estilo "fazes tu, usufruo eu") com a Universidade de Santiago de Compostela. Para além disto, que diz respeito ao meu país, também lamento que a universidade galega se preste a este tipo de papel, de agente contornador da lei portuguesa.
Não haja dúvida: estamos perante uma fraude, em larga escala, que favorece os incapazes. Onde se encontra a Ditecção Geral do Ensino Superior, e as mais altas instâncias do Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Basta de vigarices, basta de tolerarmos situações duvidosas e manifestamente deploráveis, que abastecem o País de incapazes graduados e enchem os corpos docentes de gente falsamente habilitada.
Tuesday, October 23, 2007
O circo e o pão
Como sou um comum mortal, e preciso de pão (leia-se, dinheiro) para prosseguir as minhas actividades científicas, passo pelo frequente calvário de tratar de assuntos junto do circo da omni-impotente Fundação para a Ciência e a Tecnologia, liderada pelo omni-ausente Professor Doutor João Sentieiro. Doravante, designarei o bicho pelo seu acrónimo, de FCT.
Pois bem, a FCT é uma instituição bancária, de duvidosa reputação e pouca estima pelos seus clientes. É assim que gosto de me referir a este conjunto de funcionários do Estado (que são diferentes do funcionário público: este gere o interesse público; o segundo acautela o interesse do Estado - como estão a ver são coisas muito diferentes, pois se pensarmos que no Estado estão muitos malfeitores...). A FCT assume-se como uma das maiores fraudes intelectuais do sistema político nacional: a instituição que paga para que se investigue, se aprofunde o conhecimento, e se gere tecnologia de ponta, é das mais abandalhadas que conheço. Infelizmente, é a arma financeira do Estado para estas andanças da Ciência, e como em Portugal ninguém (sem ser o Estado) financia ciência, lá temos nós de nos dedicar ao beija-a-mão periódico de submeter projectos para apreciação deste instituto.
Como muitos outros, submeto para lá projectos, mesmo sabendo que irão ser mal-avaliados, que as críticas que são colocadas são injustas e por vezes 100% incorrectas e só advêm do facto dos juris não terem tempo de ler convenientemente os projectos, que os recursos são intelectualmente desonestos, que os prazos nao existem, que as verbas são serão desbloqueadas (isto na remota hipótese de o projecto ser financiado) anos após o acordado. Normalmente, e como os projectos são imediatamente chumbados, nem temos esse problema: o que está resolvido, resolvido está, nem que seja da pior forma possível.
Mas eu quero é falar das minhas aventuras, não é descrever o modus operandi da FCT...
Como concorri, e como as críticas foram incorrectas, recorri da decisão. Portugal é um país (ainda é um país, ao contrário dos que acham que é um atoleiro, esses desiludidos) fantástico porque podemos viver uma vida na ilusão de que no recurso venceremos. Nem é unidos, nem o povo, nem nada que o valha, é no recurso!!! E como portuguesinho de gema, acredito no recurso, mas antes no recurso do que na Virgem, que nestas coisas da Ciência ainda é pior pagadora do que a FCT. E como recorri, quero ter o devido direito de saber quem me avalia. Não, creio não ter esse direito constitucional, não porque ele não me assista, mas porque a FCT não faz recursos - pelo menos em tempo útil. Infelizmente é uma constatação, corro sério risco de morrer de idade avançada antes de saber os resultados do recurso.
Veja-se: o concurso de que falo terminou à meia noite do dia 30 de Setembro de 2006, e após uma prorrogação excepcional do prazo, pois a FCT utiliza computadores doados pelo Projecto Apolo, esses mesmos que equipavam os módulos de alunagem da década de 60. Como os computadores deles não funcionaram, dilata-se os prazos de submissão das candidaturas on-line, para projectos cientificos. Ok, desta passa. Estamos no fim de Outubro de 2007 e ainda hoje não sabemos qual o destino final dos projectos submetidos nessa fatídica noite de 30 de Setembro de 2006. Um ano e um mês de espera. Pior: ninguém tem a mínima pista para quando os recursos (apesar de eu já ter recebido uma carta a dizer que o meu projecto iria ser re-avaliado brevemente; será uma indicação de que ainda não se esqueceram de mim? devo ficar satisfeito? no fim de contas, até gastaram um selo) nem tão-pouco se prevê qual a constituição do painel de iluminados nacionais que irá avaliar a minha candidatura. E porquê todo este chinfrim? Porque eu simplesmente NÃO CONFIO NOS MEUS COMPATRIOTAS. A razão, se bem que aparentemente mesquinha, é realmente pertinente: num mundo triste e cinzento como o da Ciência nacional, alguns iluminados não perderão uma única oportunidade de:
a) chumbar os projecots da alegada concorrência (neste caso, os meus)
b) roubar ideias
c) ver em que param as modas relativamete ao state of the art do que se propõe
A minha urgência em saber quem avaliará o recurso é óbvia: quero impedir que algumas individualidades tenham o prazer de avaliar a minha candidatura, porque não tenho qualquer motivo para acreditar na sua isenção, idoneidade, carácter, rectidão de postura, e já para não falar de conhecimento científico. E de acordo com o regulamento de avaliação, este sim, é um direito que me assiste.
Só que ninguém sabe quem avalia, ou quando serão as candidaturas avaliadas.
Outro assunto: para quando um novo concurso em todas as áreas científicas? "Não temos qualquer informação sobre isso", responderam-me. Como é possível termos um panorama científico sustentado com este grau de incerteza relativamente ao financiamento dos projectos? Se ninguém sabe quando vai existir novo financiamento, como poderemos manter grupos de investigação a trabalhar, que são constituídos por pessoas, que têm encargos, planos, projectos, sonhos legítimos de vida, aspirações a progressão na carreira? Nunca seremos competitivos enquanto a ciência nacional navegar à vista. É um escândalo que sejam anunciadas alegadas medidas de fundo (MIT, Carnegie Mellon, Fraunhoffer Institute), quando a coisa mais elementar, que é a de garantir uma periodicidade mínima de concurso a financiamento, está sistematicamente em causa. Mais: este é o motivo mais frequentemente apontado como desencorajador para a fixação de cérebros em Portugal, sejam eles imigrantes ou ex-emigrantes nacionais que pretendem voltar.
Se calhar temos de esperar mais dois anos: nas eleições, eles lembram-se de nós. E quem já esperou um, espera mais dois. No recurso.
Pois bem, a FCT é uma instituição bancária, de duvidosa reputação e pouca estima pelos seus clientes. É assim que gosto de me referir a este conjunto de funcionários do Estado (que são diferentes do funcionário público: este gere o interesse público; o segundo acautela o interesse do Estado - como estão a ver são coisas muito diferentes, pois se pensarmos que no Estado estão muitos malfeitores...). A FCT assume-se como uma das maiores fraudes intelectuais do sistema político nacional: a instituição que paga para que se investigue, se aprofunde o conhecimento, e se gere tecnologia de ponta, é das mais abandalhadas que conheço. Infelizmente, é a arma financeira do Estado para estas andanças da Ciência, e como em Portugal ninguém (sem ser o Estado) financia ciência, lá temos nós de nos dedicar ao beija-a-mão periódico de submeter projectos para apreciação deste instituto.
Como muitos outros, submeto para lá projectos, mesmo sabendo que irão ser mal-avaliados, que as críticas que são colocadas são injustas e por vezes 100% incorrectas e só advêm do facto dos juris não terem tempo de ler convenientemente os projectos, que os recursos são intelectualmente desonestos, que os prazos nao existem, que as verbas são serão desbloqueadas (isto na remota hipótese de o projecto ser financiado) anos após o acordado. Normalmente, e como os projectos são imediatamente chumbados, nem temos esse problema: o que está resolvido, resolvido está, nem que seja da pior forma possível.
Mas eu quero é falar das minhas aventuras, não é descrever o modus operandi da FCT...
Como concorri, e como as críticas foram incorrectas, recorri da decisão. Portugal é um país (ainda é um país, ao contrário dos que acham que é um atoleiro, esses desiludidos) fantástico porque podemos viver uma vida na ilusão de que no recurso venceremos. Nem é unidos, nem o povo, nem nada que o valha, é no recurso!!! E como portuguesinho de gema, acredito no recurso, mas antes no recurso do que na Virgem, que nestas coisas da Ciência ainda é pior pagadora do que a FCT. E como recorri, quero ter o devido direito de saber quem me avalia. Não, creio não ter esse direito constitucional, não porque ele não me assista, mas porque a FCT não faz recursos - pelo menos em tempo útil. Infelizmente é uma constatação, corro sério risco de morrer de idade avançada antes de saber os resultados do recurso.
Veja-se: o concurso de que falo terminou à meia noite do dia 30 de Setembro de 2006, e após uma prorrogação excepcional do prazo, pois a FCT utiliza computadores doados pelo Projecto Apolo, esses mesmos que equipavam os módulos de alunagem da década de 60. Como os computadores deles não funcionaram, dilata-se os prazos de submissão das candidaturas on-line, para projectos cientificos. Ok, desta passa. Estamos no fim de Outubro de 2007 e ainda hoje não sabemos qual o destino final dos projectos submetidos nessa fatídica noite de 30 de Setembro de 2006. Um ano e um mês de espera. Pior: ninguém tem a mínima pista para quando os recursos (apesar de eu já ter recebido uma carta a dizer que o meu projecto iria ser re-avaliado brevemente; será uma indicação de que ainda não se esqueceram de mim? devo ficar satisfeito? no fim de contas, até gastaram um selo) nem tão-pouco se prevê qual a constituição do painel de iluminados nacionais que irá avaliar a minha candidatura. E porquê todo este chinfrim? Porque eu simplesmente NÃO CONFIO NOS MEUS COMPATRIOTAS. A razão, se bem que aparentemente mesquinha, é realmente pertinente: num mundo triste e cinzento como o da Ciência nacional, alguns iluminados não perderão uma única oportunidade de:
a) chumbar os projecots da alegada concorrência (neste caso, os meus)
b) roubar ideias
c) ver em que param as modas relativamete ao state of the art do que se propõe
A minha urgência em saber quem avaliará o recurso é óbvia: quero impedir que algumas individualidades tenham o prazer de avaliar a minha candidatura, porque não tenho qualquer motivo para acreditar na sua isenção, idoneidade, carácter, rectidão de postura, e já para não falar de conhecimento científico. E de acordo com o regulamento de avaliação, este sim, é um direito que me assiste.
Só que ninguém sabe quem avalia, ou quando serão as candidaturas avaliadas.
Outro assunto: para quando um novo concurso em todas as áreas científicas? "Não temos qualquer informação sobre isso", responderam-me. Como é possível termos um panorama científico sustentado com este grau de incerteza relativamente ao financiamento dos projectos? Se ninguém sabe quando vai existir novo financiamento, como poderemos manter grupos de investigação a trabalhar, que são constituídos por pessoas, que têm encargos, planos, projectos, sonhos legítimos de vida, aspirações a progressão na carreira? Nunca seremos competitivos enquanto a ciência nacional navegar à vista. É um escândalo que sejam anunciadas alegadas medidas de fundo (MIT, Carnegie Mellon, Fraunhoffer Institute), quando a coisa mais elementar, que é a de garantir uma periodicidade mínima de concurso a financiamento, está sistematicamente em causa. Mais: este é o motivo mais frequentemente apontado como desencorajador para a fixação de cérebros em Portugal, sejam eles imigrantes ou ex-emigrantes nacionais que pretendem voltar.
Se calhar temos de esperar mais dois anos: nas eleições, eles lembram-se de nós. E quem já esperou um, espera mais dois. No recurso.
Tuesday, October 2, 2007
País do faz de conta
Este é realmente o país do faz de conta, um país pequenino, parado no tempo, em que qualquer tentativa de crescimento se esborracha e esmorece perante a real crueza das instituições e da sua incompetência. As universidades públicas portuguesas criam monstros de dimensões atrozes, ou por motivações meramente políticas e estatísticas de conveniência ou de circunstâncias (como atingir pseudo-metas de desenvolvimento...), ou por birras pessoais dos trutas das cátedras, que se julgam arrogantemente detentores e donos do inalienável poder de criar licenciaturas para as quais não existe mercado de trabalho, ou que as flutuações sazonais ou "da moda" lançam no desemprego os recém-licenciados, porque simplesmente o país não precisa deles... Se calhar o país não precisa é de mais trutas, e devia zelar pela extinção progressiva dos que ainda temos, em vez de os acarinhar.
Depois do ovo chocado, nasce a cria do monstro, o tal que assumirá dimensões gigantescas, até para os limites geográficos do nosso país. Depois é ver estes reptilianos órfãos, estes recém licenciados, a emigrar, ávidos justamente daquilo que o país nunca teve para lhes oferecer: empregos condignos, em condições compatíveis com a sua área de actividade e formação, e bem pagos. Este país vive o síndrome da forretice, do investimeno de vista curta, da miséria natural - paga-se mal, e mais mal se pagaria se não assumisse dimensões de escãndalo haver licenciados a 600€ por mês.
Pois bem, o monstro truta choca o ovo, abre a casca e condiciona o desgraçado recém licenciado a acreditar que não existem alternativas para aquilo que ele mesmo, monstro, criou. Vergonha. Há faculdades e cursos em que é a regra a ausência de utilidade prática dos seus licenciados. Mas as vagas contiunuam a abrir, todos os anos. Na área das ciências biológicas e exactas (que me é particularmente cara...) veja-se cursos como física, matemática, biologia, bioquímica, biologia marinha, ciências do meio aquático. Qualquer licenciado proveniente destes cursos me merece o máximo respeito, e não julguem que desdenho. Mas decerto serão os próprios licenciados provenientes destas licenciaturas a assumir que não existe verdadeiro emprego, a não ser em claras e flagrantes excepções. E chega-se precisamente onde eu queria chegar.
Hoje em dia, muito do que se apregoa como emprego não o é. Ser cientista, na maioria das vezes, é ser um assalariado num regime ainda mais precário que a precariedade socialmente aceite, que é a do regime de recibos verdes. Mas quando o ícone que os alunos visualizam é o cientista, romantizado, ostracizado, abnegado, dedicado até à exaustão, é fácil de compreender que esta visão possa seduzir, e transformar-se num objectivo de vida. E o monstro truta da cátedra alimenta o vício, força a demonstração que "é a única via, isto está muito mal, não há emprego..."
Aliás, o interesse do monstro não é ingénuo, nem pode ser... quando ele influencia, fá-lo no seu próprio interesse: pode ser que ganhe mais uma orientação, mais uma publicação, mais um degrau no qual se apoie para as provas de agregação.
E depois a questão das vocações... Muitos dos que conheço não têm nem queda, nem jeito, nem disposição, nem vocação, nem ambição, nem possuem sequer a capacidade intelectual (a verdade tem de ser dita, e é politicamente incorrecto dizer que há idiotas, mas que os há, há!!!) para serem cientistas. Só o são porque não têm alternativas. Ou porque o monstro truta da cátedra já fez, de forma muito competente, o seu papel de sedutor/arauto da desgraça. Mas onde é que já se viu sítio onde, para se ser o melhor, não se tem vocação para isso?
Como queremos qualidade? Não podemos querer. E é ao monstro truta da cátedra que temos de pedir responsabilidades.
Depois do ovo chocado, nasce a cria do monstro, o tal que assumirá dimensões gigantescas, até para os limites geográficos do nosso país. Depois é ver estes reptilianos órfãos, estes recém licenciados, a emigrar, ávidos justamente daquilo que o país nunca teve para lhes oferecer: empregos condignos, em condições compatíveis com a sua área de actividade e formação, e bem pagos. Este país vive o síndrome da forretice, do investimeno de vista curta, da miséria natural - paga-se mal, e mais mal se pagaria se não assumisse dimensões de escãndalo haver licenciados a 600€ por mês.
Pois bem, o monstro truta choca o ovo, abre a casca e condiciona o desgraçado recém licenciado a acreditar que não existem alternativas para aquilo que ele mesmo, monstro, criou. Vergonha. Há faculdades e cursos em que é a regra a ausência de utilidade prática dos seus licenciados. Mas as vagas contiunuam a abrir, todos os anos. Na área das ciências biológicas e exactas (que me é particularmente cara...) veja-se cursos como física, matemática, biologia, bioquímica, biologia marinha, ciências do meio aquático. Qualquer licenciado proveniente destes cursos me merece o máximo respeito, e não julguem que desdenho. Mas decerto serão os próprios licenciados provenientes destas licenciaturas a assumir que não existe verdadeiro emprego, a não ser em claras e flagrantes excepções. E chega-se precisamente onde eu queria chegar.
Hoje em dia, muito do que se apregoa como emprego não o é. Ser cientista, na maioria das vezes, é ser um assalariado num regime ainda mais precário que a precariedade socialmente aceite, que é a do regime de recibos verdes. Mas quando o ícone que os alunos visualizam é o cientista, romantizado, ostracizado, abnegado, dedicado até à exaustão, é fácil de compreender que esta visão possa seduzir, e transformar-se num objectivo de vida. E o monstro truta da cátedra alimenta o vício, força a demonstração que "é a única via, isto está muito mal, não há emprego..."
Aliás, o interesse do monstro não é ingénuo, nem pode ser... quando ele influencia, fá-lo no seu próprio interesse: pode ser que ganhe mais uma orientação, mais uma publicação, mais um degrau no qual se apoie para as provas de agregação.
E depois a questão das vocações... Muitos dos que conheço não têm nem queda, nem jeito, nem disposição, nem vocação, nem ambição, nem possuem sequer a capacidade intelectual (a verdade tem de ser dita, e é politicamente incorrecto dizer que há idiotas, mas que os há, há!!!) para serem cientistas. Só o são porque não têm alternativas. Ou porque o monstro truta da cátedra já fez, de forma muito competente, o seu papel de sedutor/arauto da desgraça. Mas onde é que já se viu sítio onde, para se ser o melhor, não se tem vocação para isso?
Como queremos qualidade? Não podemos querer. E é ao monstro truta da cátedra que temos de pedir responsabilidades.
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