Tenho tido um pequeno desaguizado com a FCT, pelo simples facto deste sistema insistir em ser desonesto. Vamos começar exactamente por aqui. Não sei se algum dos leitores já o fez, mas se tiverem a vontade de verificar quais os júris de 1ª instância dos projectos científicos submetidos a apreciação para financiamento pela FCT, conseguem facilmente chegar aos seus nomes. Estranhamente, os nomes dos avaliadores em recurso são Segredo de Estado. Instada a pronunciar-se sobre esta questão, a FCT remete-se ao total silêncio, alegadamente por não existirem directivas que definam a divulgação (ou não) dos nomes dos avaliadores. E porquê a minha curiosidade? Nos sabemos que, pelo facto de os páineis serem mais ou menos sempre os mesmos, existem tendências de avaliação e de aprovação. É inegável, e qualquer cientista que saiba o que se passa na sua área sabe a priori que uns projectos, com aqueles avaliadores, têm mais possibilidade de ser aprovados do que outros. Por outro lado, e sabendo que os avaliadores de recurso são nacionais, querem campo mais fértil para a manutenção de situações bizarras? Não somos propriamente parvos, e a bem da transparência, o nome de todos os avaliadores, mesmo os de concursos passados, devem ser divulgados.
Outro assunto: ontem, em conversa com uma colega e amiga, tive o desprazer de saber que ela tinha concorrido para uma bolsa de pós-doc, que foi liminarmente recusada. Naturalmente, pediu recurso, não sem antes fazer uma "visita" às instalações centrais da FCT em Lisboa. Lá, teve a oportunidade de se inteirar dos alegados critérios que foram utilizados neste concurso em particular. Como a homogeneidade de critérios nunca se verificou, de candidato para candidato, ela formalizou o recurso, e voltou ao laboratório. Como um dos directores do laboratório é avaliador, questionou-o sobre qual o modus operandi adoptado neste concurso em particular, visto haver uma gritante disparidade de critérios adoptados de candidato para candidato. Por fim, o director assumiu que, ele, no início da reunião, propôs uma homogeneização dos critérios entre todos os avaliadores; essa proposta foi imediatamente recusada pelos seus pares, restantes avaliadores, com o argumento de que "cada um avalia como entende". Pois bem, o resultado esteve naturalmente à vista: para além de haver candidaturas a concurso que estavam formalmente fora da elegibilidade (nomeadamente um candidato que nem doutor era, nem havia feito entrega de tese definitiva aos serviços académicos da universidade onde se estava a doutorar), houve uma conclusão caricata, em que alguns cientistas ligados à coordenadora do júri tiveram naturalmente bolsa atribuída.
E assim continuamos.
Tuesday, May 6, 2008
Resposta a Filipe
Caro colega de blogosfera
Tomei a decisão de não responder a comentários, mas para si abro uma excepção. Principalmente pelo facto de me encontrar exactamente nessa faixa etária e de ter um PhD... E como já tive oportunidade de escrever, eu não condeno os bolseiros, condeno é todo um sistema que não oferece qualquer alternativa credível. Mas convenhamos que há demasiados bolseiros que gostam demasiado de o ser, para arriscarem uma outra ocupação que não a de bolseiro. Eu sei que é difícil, mas eu sou um anacronismo: sem padrinhos, sou professor universitário. Naturalmente que já fui bolseiro, pelo que falo com total conhecimento de causa. Mas também lhe confesso que tomei a decisão de, quando acabasse o meu período de bolsa, me dedicar a qualquer outra actividade que não dependesse de bolsas, por uma questão de brio pessoal e profissional. Fiz outras coisas, trabalhei em laboratórios privados, montei uma start-up e depois candidatei-me a uma vaga na docência para a qual aparentemente não havia destinatário, e numa universidade onde não conhecia ninguém. Como pode ver, corri um sério risco, o de ficar sem rendimento. Poderia ter ficado calma e placidamente sentado, a comer da mesma gamela do meu ex-chefe, e a engolir sapos, sempre na expectativa de que ele me estendesse uma migalha, pela qual teria de lhe ficar eternamente agradecido. Como isso não é decerto para mim, tomei uma decisão.
É claro que a horda dos invejosos pode dizer que eu tive sorte. Concordo parcialmente, pois a vida também é feita de sorte, mas não só. E isto tem muito pouco de heroísmo, tem a ver com vergonha na cara.
Como vê, existem possibilidades, desde que as pessoas estejam dispostas a correr riscos e a sacrificar-se pelas coisas em que acreditam. Eu sei que pode ser difícil, extrordinariamente difícil em alguns casos, mas não é impossível. E esta réstia de possibilidade, quanto a mim, deve ser suficiente para que as pessoas não se acomodem. Veja lá se eu tivese ido pela onda depressiva que varria o centro onde me doutorei, em que toda a gente dizia que não havia empregos e que o futuro era ser só bolseiro... Se ter uma bolsa atrás de bolsa é confortável e dignificante, então não é para esses que eu falo.
Tomei a decisão de não responder a comentários, mas para si abro uma excepção. Principalmente pelo facto de me encontrar exactamente nessa faixa etária e de ter um PhD... E como já tive oportunidade de escrever, eu não condeno os bolseiros, condeno é todo um sistema que não oferece qualquer alternativa credível. Mas convenhamos que há demasiados bolseiros que gostam demasiado de o ser, para arriscarem uma outra ocupação que não a de bolseiro. Eu sei que é difícil, mas eu sou um anacronismo: sem padrinhos, sou professor universitário. Naturalmente que já fui bolseiro, pelo que falo com total conhecimento de causa. Mas também lhe confesso que tomei a decisão de, quando acabasse o meu período de bolsa, me dedicar a qualquer outra actividade que não dependesse de bolsas, por uma questão de brio pessoal e profissional. Fiz outras coisas, trabalhei em laboratórios privados, montei uma start-up e depois candidatei-me a uma vaga na docência para a qual aparentemente não havia destinatário, e numa universidade onde não conhecia ninguém. Como pode ver, corri um sério risco, o de ficar sem rendimento. Poderia ter ficado calma e placidamente sentado, a comer da mesma gamela do meu ex-chefe, e a engolir sapos, sempre na expectativa de que ele me estendesse uma migalha, pela qual teria de lhe ficar eternamente agradecido. Como isso não é decerto para mim, tomei uma decisão.
É claro que a horda dos invejosos pode dizer que eu tive sorte. Concordo parcialmente, pois a vida também é feita de sorte, mas não só. E isto tem muito pouco de heroísmo, tem a ver com vergonha na cara.
Como vê, existem possibilidades, desde que as pessoas estejam dispostas a correr riscos e a sacrificar-se pelas coisas em que acreditam. Eu sei que pode ser difícil, extrordinariamente difícil em alguns casos, mas não é impossível. E esta réstia de possibilidade, quanto a mim, deve ser suficiente para que as pessoas não se acomodem. Veja lá se eu tivese ido pela onda depressiva que varria o centro onde me doutorei, em que toda a gente dizia que não havia empregos e que o futuro era ser só bolseiro... Se ter uma bolsa atrás de bolsa é confortável e dignificante, então não é para esses que eu falo.
Monday, May 5, 2008
E continuo no meu penúltimo post
O nosso país encerra pérolas do tamanho de casas. Ora vejam lá o que eu fui encontrar, enterrado profundamente no site da FCT, a propósito do Regime Jurídico das Instituições de Investigação(Decreto-Lei Nº 125/99). Disponível em http://www.fct.mctes.pt/pt/apoios/unidades/politica/regimejuridico/
Para verem que eu nem tenho ideias peregrinas ou desprovidas de sentido... provo-vos que é a Lei da Républica Portuguesa que consagra algunas princípios que o próprio Estado não preza minimamente. Senão, vejamos atentamente:
"As pessoas são a componente mais decisiva para o eficaz funcionamento de uma instituição, importando, por isso, assegurar uma mobilidade de pessoal que impeça a cristalização das instituições, permita a sua constante renovação, mantenha altos níveis de motivação entre os funcionários e opere tanto dentro do funcionalismo público como de e para o sector privado."
Depois, a alucinação colectiva ganha forma:
"Outra das áreas em que se legisla é a relativa à estrutura orgânica dos laboratórios do Estado e das outras instituições públicas de investigação, para todas se estabelecendo a obrigatoriedade de se dotarem de um conselho científico e de uma unidade de acompanhamento, órgãos a que acrescem, para os laboratórios do Estado, uma comissão de fiscalização, uma comissão paritária e um conselho de orientação, que funciona junto das respectivas direcções. O conselho de orientação é integrado por representantes dos ministérios mais empenhados na actividade da instituição, como forma de assegurar um mais eficaz envolvimento dos vários departamentos governamentais na acção dos laboratórios do Estado."
Conclusão bombástica, e a prova como o mal compensa:
"As instituições de investigação científica e desenvolvimento tecnológico deverão pautar a sua actividade por princípios de boa prática científica, devendo adoptar os procedimentos adequados a que os mesmos sejam tornados efectivos."
Isto só merece um sorriso.
A eternização de nomes em cargos é manipulada pelos silêncio de que a lei se reveste. Veja-se:
Estrutura
1 - Sem prejuízo da previsão de outras categorias nas respectivas leis orgânicas, os laboratórios do Estado devem obrigatoriamente possuir os seguintes órgãos:
a) Direcção;
b) Conselho de orientação;
c) Conselho científico;
d) Unidade de acompanhamento;
e) Comissão de fiscalização;
f) Comissão paritária.
2 - A estrutura institucional prevista no número anterior é aplicável aos laboratórios associados, com excepção dos órgãos previstos nas alíneas b) e f).
Os órgãos existem, mas como são revistos nem uma palavra. Eu creio que é por herança, ou sucessão directa do filho varão.
Não resisto a colocar a bold os maiores contrasensos entre a praxis e a realidade. Se o Estado garante combater a cristalização, onde estão as medidas que visem tornar rotativas as chefias? É que tudo começa por aí! Ou será que os grandes teóricos dessa idiossincrasia que é a Ciência Nacional nos fazem crer que é pela base que se muda a pirâmide? Quando a organização do trabalho eterniza uma teta, como desmobilizar os ávidos beiços que a seguram? Vergonha...
Parabéns ao próprio Ministério por me dar razão. Agradeço embevecido.
Para verem que eu nem tenho ideias peregrinas ou desprovidas de sentido... provo-vos que é a Lei da Républica Portuguesa que consagra algunas princípios que o próprio Estado não preza minimamente. Senão, vejamos atentamente:
"As pessoas são a componente mais decisiva para o eficaz funcionamento de uma instituição, importando, por isso, assegurar uma mobilidade de pessoal que impeça a cristalização das instituições, permita a sua constante renovação, mantenha altos níveis de motivação entre os funcionários e opere tanto dentro do funcionalismo público como de e para o sector privado."
Depois, a alucinação colectiva ganha forma:
"Outra das áreas em que se legisla é a relativa à estrutura orgânica dos laboratórios do Estado e das outras instituições públicas de investigação, para todas se estabelecendo a obrigatoriedade de se dotarem de um conselho científico e de uma unidade de acompanhamento, órgãos a que acrescem, para os laboratórios do Estado, uma comissão de fiscalização, uma comissão paritária e um conselho de orientação, que funciona junto das respectivas direcções. O conselho de orientação é integrado por representantes dos ministérios mais empenhados na actividade da instituição, como forma de assegurar um mais eficaz envolvimento dos vários departamentos governamentais na acção dos laboratórios do Estado."
Conclusão bombástica, e a prova como o mal compensa:
"As instituições de investigação científica e desenvolvimento tecnológico deverão pautar a sua actividade por princípios de boa prática científica, devendo adoptar os procedimentos adequados a que os mesmos sejam tornados efectivos."
Isto só merece um sorriso.
A eternização de nomes em cargos é manipulada pelos silêncio de que a lei se reveste. Veja-se:
Estrutura
1 - Sem prejuízo da previsão de outras categorias nas respectivas leis orgânicas, os laboratórios do Estado devem obrigatoriamente possuir os seguintes órgãos:
a) Direcção;
b) Conselho de orientação;
c) Conselho científico;
d) Unidade de acompanhamento;
e) Comissão de fiscalização;
f) Comissão paritária.
2 - A estrutura institucional prevista no número anterior é aplicável aos laboratórios associados, com excepção dos órgãos previstos nas alíneas b) e f).
Os órgãos existem, mas como são revistos nem uma palavra. Eu creio que é por herança, ou sucessão directa do filho varão.
Não resisto a colocar a bold os maiores contrasensos entre a praxis e a realidade. Se o Estado garante combater a cristalização, onde estão as medidas que visem tornar rotativas as chefias? É que tudo começa por aí! Ou será que os grandes teóricos dessa idiossincrasia que é a Ciência Nacional nos fazem crer que é pela base que se muda a pirâmide? Quando a organização do trabalho eterniza uma teta, como desmobilizar os ávidos beiços que a seguram? Vergonha...
Parabéns ao próprio Ministério por me dar razão. Agradeço embevecido.
Wednesday, April 30, 2008
Vocações ou a falta delas
Este talvez seja dos posts mais complicados de escrever. Porque joga com aspectos muito sensíveis das opções de vida de muita gente, e pode fazer com que alguem se possa sentir atingido com algumas das considerações aqui tecidas. No entanto, considero que talvez seja dos aspectos mais centrais do deplorável panorama científico nacional. E falo da questão das vocações.
Conheço centenas de investigadores, e contam-se pelos dedos de duas mãos aqueles que considero terem uma vocação adequada ao desempenho da investigação. E vocação compreendo como um conjunto de características que incluem, simultaneamente, inteligência, abnegação, capacidade de trabalho e de auto-sacríficio, imaginação e criatividade, grande capacidade de observação e resistência à adversidade. Sem a conjugação de, pelo menos, algumas destas características, será sempre impossível fazer investigação de forma plena. E o problema é que aquilo a que por vezes assisto é pessoas a fazerem passar-se por investigadores de ponta sem haver a conjugação de nenhum destes factores. E vejo gente que só faz investigação porque não tinha outra ocupação à qual se dedicar. Isto é péssimo. Nem consigo imaginar razão pior para se fazer investigação.
O mercado de trabalho está inundado (ou nunca esteve sequer preparado para absorver) licenciados de determinadas áreas do conhecimento. Pelo menos, falo do mercado de trabalho nacional. As universidades formam levas de licenciados sem qualquer aplicação prática e imediata, que só servem para aumentar o número de desempregados, por um lado, ou o número de candidatos a bolseiro, por outro. É óbvio que existe uma desadequação entre oferta e procura, e entre aquilo que a investigação necessita e o que os licenciados aspiram. E é deste caldo de desadequações que os fazedores de sonhos se aproveitam, para promover ilusões de que pelo caminho da investigação patrocinada pelo Estado se consegue ir adiando a verdadeira questão de fundo, que é a incapacidade em encaminhar todo este manancial de cérebros para algo mais palpável do que uma bolsa. Não estou contra os bolseiros, estou é contra esta política de que mais vale ter uma bolsa do que nada; porque ter "nada" não deveria nunca ser opção.
Convenhamos: eu sei que nunca serei um excelente jogador de futebol. Isso só está ao alcance de alguns. Aceito-o e compreendo-o. O mesmo raciocínio deveria estar subjacente a todos os que consideram a licenciatura condição sine qua non para a felicidade, para a prosperidade e para serem felizes na vida amorosa. Licenciatura ainda hoje é panaceia. Esta visão institucionalizou-se e ganhou força de dogma. É pelo facto de o acesso ao ensino superior se ter democratizado, banalizado, abandalhado e facilitado que se permite que qualquer indíviduo possa ter a pretensão de se licenciar, e de almejar a vôos intelectuais para os quais manifestamente não foi talhado. E depois é um vê-se-te-avias para arranjar emprego, e tudo vale, incluindo inundar os centros de investigação. Muitos dos mentores de algumas licenciaturas públicas são o principal obstáculo à modernização do sistema: nunca, por intermédio de uma análise sistemática, fria e racional com base nos pressupostos das necessidades do país e da oferta formativa, conseguem chegar à evidentíssima conclusao de que aquilo que criaram é inútil, e, consequentemente, passível de ser extinto. Somos assim confrontados com cursos sem grande empregabilidade, quando a têm. Neste ponto, surte ainda bestial efeito a inflação desmedida das médias de curso, garante máximo de que, pelo menos, o efeito paliativo da bolsa se fará sentir. Vivemos assim uma bolsa-dependência, para escamotear o défice de empregabilidade crónica que grassa neste país. E daqui resulta o triste facto de termos, quase literalmente, todo o cão e gato (desde que cumpra a meta estatística de ser detentor de uma "boa média"; reparem no vício terrível de que não é preciso ser brilhante, basta parecê-lo) a aceder a posições de investigação que deveriam estar reservadas unicamente aos mais capazes. Depois é vê-los, 15 dias antes do final da bolsa, sem perspectivas de emprego real, a pensar em prolongar a agonia com o providencial balão de oxigénio que é... uma outra bolsa!!!
Conheço centenas de investigadores, e contam-se pelos dedos de duas mãos aqueles que considero terem uma vocação adequada ao desempenho da investigação. E vocação compreendo como um conjunto de características que incluem, simultaneamente, inteligência, abnegação, capacidade de trabalho e de auto-sacríficio, imaginação e criatividade, grande capacidade de observação e resistência à adversidade. Sem a conjugação de, pelo menos, algumas destas características, será sempre impossível fazer investigação de forma plena. E o problema é que aquilo a que por vezes assisto é pessoas a fazerem passar-se por investigadores de ponta sem haver a conjugação de nenhum destes factores. E vejo gente que só faz investigação porque não tinha outra ocupação à qual se dedicar. Isto é péssimo. Nem consigo imaginar razão pior para se fazer investigação.
O mercado de trabalho está inundado (ou nunca esteve sequer preparado para absorver) licenciados de determinadas áreas do conhecimento. Pelo menos, falo do mercado de trabalho nacional. As universidades formam levas de licenciados sem qualquer aplicação prática e imediata, que só servem para aumentar o número de desempregados, por um lado, ou o número de candidatos a bolseiro, por outro. É óbvio que existe uma desadequação entre oferta e procura, e entre aquilo que a investigação necessita e o que os licenciados aspiram. E é deste caldo de desadequações que os fazedores de sonhos se aproveitam, para promover ilusões de que pelo caminho da investigação patrocinada pelo Estado se consegue ir adiando a verdadeira questão de fundo, que é a incapacidade em encaminhar todo este manancial de cérebros para algo mais palpável do que uma bolsa. Não estou contra os bolseiros, estou é contra esta política de que mais vale ter uma bolsa do que nada; porque ter "nada" não deveria nunca ser opção.
Convenhamos: eu sei que nunca serei um excelente jogador de futebol. Isso só está ao alcance de alguns. Aceito-o e compreendo-o. O mesmo raciocínio deveria estar subjacente a todos os que consideram a licenciatura condição sine qua non para a felicidade, para a prosperidade e para serem felizes na vida amorosa. Licenciatura ainda hoje é panaceia. Esta visão institucionalizou-se e ganhou força de dogma. É pelo facto de o acesso ao ensino superior se ter democratizado, banalizado, abandalhado e facilitado que se permite que qualquer indíviduo possa ter a pretensão de se licenciar, e de almejar a vôos intelectuais para os quais manifestamente não foi talhado. E depois é um vê-se-te-avias para arranjar emprego, e tudo vale, incluindo inundar os centros de investigação. Muitos dos mentores de algumas licenciaturas públicas são o principal obstáculo à modernização do sistema: nunca, por intermédio de uma análise sistemática, fria e racional com base nos pressupostos das necessidades do país e da oferta formativa, conseguem chegar à evidentíssima conclusao de que aquilo que criaram é inútil, e, consequentemente, passível de ser extinto. Somos assim confrontados com cursos sem grande empregabilidade, quando a têm. Neste ponto, surte ainda bestial efeito a inflação desmedida das médias de curso, garante máximo de que, pelo menos, o efeito paliativo da bolsa se fará sentir. Vivemos assim uma bolsa-dependência, para escamotear o défice de empregabilidade crónica que grassa neste país. E daqui resulta o triste facto de termos, quase literalmente, todo o cão e gato (desde que cumpra a meta estatística de ser detentor de uma "boa média"; reparem no vício terrível de que não é preciso ser brilhante, basta parecê-lo) a aceder a posições de investigação que deveriam estar reservadas unicamente aos mais capazes. Depois é vê-los, 15 dias antes do final da bolsa, sem perspectivas de emprego real, a pensar em prolongar a agonia com o providencial balão de oxigénio que é... uma outra bolsa!!!
Monday, April 28, 2008
... com a agravante de...
Ainda a propósito da minha última intervenção: chegou-se ao ponto caricato de termos excelentes investigadores contratados a prazo (e com a certeza de que serão enviados para o desemprego no final dos respectivos contratos de trabalho), que são claramente MUITO melhores do que os directores do departamemto dos LAs aos quais estão afectos. Eu conheço vários casos destes, em que os investigadores auxiliares estão a anos-luz, em termos profissionais (pesando o grau de conhecimentos científicos, ética, inteligência, capacidade de trabalho e de orientação de equipas) do que os chefes. E tudo isto se passa a coberto do Estado, que cria, patrocina e autoriza estes verdadeiros contra-sensos, com óbvio prejuízo da inteligência nacional, das empresas, do emprego e do nosso bem estar geral.
Eu creio que isto deveria bastar para que uma geração sub-40 se revoltasse. Mas parece que não.
Eu creio que isto deveria bastar para que uma geração sub-40 se revoltasse. Mas parece que não.
Thursday, April 24, 2008
Democracia? Não, obrigado
O título deste post bem podia ter saído das memórias de um qualquer ditador sul-americano patrocinado pela CIA na década de 70. Mas não, quis o destino que eu aplicasse este epítopo aquilo que considero uma das maiores falácias do sistema científico nacional, que são as chefias dos departamentos dos Laboratórios Associados.
Quando surgiu a alegada panaceia que se materializou e consolidou no conceito do "Laboratório Associado", a ausência de massa crítica a nível nacional de peritos nas mais variadas áreas científicas obrigou a que a fossem contactados os presumíveis especialistas, que só existiam nas universidades públicas portuguesas. Naturalmente, estes docentes (e friso bem o conceito de docentes) aproveitou a oportunidade virgem de terem sob a sua alçada verdadeiros laboratórios de elevada produtividade, e sem os constrangimentos habituais que as universidades, costumeiramente avessas à inovação e à competitividade (por colocar em causa o status cristalizado de alguns, uns poucos - já tantas vezes aqui retratada, esta realidade...) lhes impunham. Assim, surgem verdadeiras comissões instaladoras de reconhecido mérito, que, segundo o conceito inicial, seriam propgressivamente substituídas (ou trabalhariam em colaboração próxima) com verdadeiros cientistas não docentes no sentido da prossecução dos objectivos que haviam ditado a sua génese. Pois, mas hoje o que se vê não é isso. Bem pelo contrário, o que se vê são feudos que se transferem das universidades para os LAs, se eternizam e se amplificam fora dos espaços das universidades, que, e apesar de tudo, ainda controlavam pela força da lei as actividades desempenhadas. Os LAs são, por vezes, locais em que o pior obscurantismo grassa, a coberto da alegada competitividade selvática de que (alguma) ciência carece. Pelo menos, a acreditar em alguns.
E eis-me aqui chegado, a questionar o que faz com que as direcções dos departamentos dos LAs estejam sob a alçada de um dado indíviduo. Não leio nos estatutos de nenhum LA como o director do laboratório é eleito, ou nomeado, ou entronizado ou endeusado. Como se pode chegar a este ponto, em que alegadas estrutyuras informais se mantenham de pedra e cal, mesmo por vezes gerindo milhões de euros, gerando contratos de trabalho e prestando serviços ao Estado? E como se permite a eternização de chefias, sem haver o mínimo preceito democrático? Foi tão somente uma questão de terem chegado primeiro? Porque isto é feudalismo no seu estado mais puro.
Aqui fica a questão a debate: será que nós, cientistas, não merceremos ser tratados em democracia?
Quando surgiu a alegada panaceia que se materializou e consolidou no conceito do "Laboratório Associado", a ausência de massa crítica a nível nacional de peritos nas mais variadas áreas científicas obrigou a que a fossem contactados os presumíveis especialistas, que só existiam nas universidades públicas portuguesas. Naturalmente, estes docentes (e friso bem o conceito de docentes) aproveitou a oportunidade virgem de terem sob a sua alçada verdadeiros laboratórios de elevada produtividade, e sem os constrangimentos habituais que as universidades, costumeiramente avessas à inovação e à competitividade (por colocar em causa o status cristalizado de alguns, uns poucos - já tantas vezes aqui retratada, esta realidade...) lhes impunham. Assim, surgem verdadeiras comissões instaladoras de reconhecido mérito, que, segundo o conceito inicial, seriam propgressivamente substituídas (ou trabalhariam em colaboração próxima) com verdadeiros cientistas não docentes no sentido da prossecução dos objectivos que haviam ditado a sua génese. Pois, mas hoje o que se vê não é isso. Bem pelo contrário, o que se vê são feudos que se transferem das universidades para os LAs, se eternizam e se amplificam fora dos espaços das universidades, que, e apesar de tudo, ainda controlavam pela força da lei as actividades desempenhadas. Os LAs são, por vezes, locais em que o pior obscurantismo grassa, a coberto da alegada competitividade selvática de que (alguma) ciência carece. Pelo menos, a acreditar em alguns.
E eis-me aqui chegado, a questionar o que faz com que as direcções dos departamentos dos LAs estejam sob a alçada de um dado indíviduo. Não leio nos estatutos de nenhum LA como o director do laboratório é eleito, ou nomeado, ou entronizado ou endeusado. Como se pode chegar a este ponto, em que alegadas estrutyuras informais se mantenham de pedra e cal, mesmo por vezes gerindo milhões de euros, gerando contratos de trabalho e prestando serviços ao Estado? E como se permite a eternização de chefias, sem haver o mínimo preceito democrático? Foi tão somente uma questão de terem chegado primeiro? Porque isto é feudalismo no seu estado mais puro.
Aqui fica a questão a debate: será que nós, cientistas, não merceremos ser tratados em democracia?
Wednesday, April 23, 2008
As piadas das hienas
Este Portugal dos Pequenitos em que alguns catedráticos habitam é de facto piadético. Tão piadético, tão piadético, que só murros nas ventas poderiam fazer parar de rir. É um país em que alguém que tenha a veleidade de organizar um evento para o qual não convide, com direito a tapete vermelho e Moet et Chandon, algumas das vacas sagradas da nossa praça científica, arrisca-se a ter o evento boicotado e até sabotado.
São como os eucaliptos, estes sujeitos, secam tudo em seu redor. Ou como as árvores das florestas tropicais, que pela sombra fazem mirrar a concorrência. Isto é um problema educacional. E que quanto a mim se resolve unicamente pela via das bengaladas, à boa moda dos gentlemen do século XIX. Desculpem esta minha veia pró-violência, mas há momentos em que apetece mesmo esbofetear publicamente algumas criaturas. A título meramente correctivo, e com direito a cobrar bilhetes de bancada.
Por experiência vos falo.
São como os eucaliptos, estes sujeitos, secam tudo em seu redor. Ou como as árvores das florestas tropicais, que pela sombra fazem mirrar a concorrência. Isto é um problema educacional. E que quanto a mim se resolve unicamente pela via das bengaladas, à boa moda dos gentlemen do século XIX. Desculpem esta minha veia pró-violência, mas há momentos em que apetece mesmo esbofetear publicamente algumas criaturas. A título meramente correctivo, e com direito a cobrar bilhetes de bancada.
Por experiência vos falo.
Subscribe to:
Posts (Atom)