Outro dos assuntos que urge clarificar, denunciar e resolver é a questão das dimensões faraónica de alguns grupos de investigação.
Saiu hoje no jornal Público uma notícia sobre um investigador português que recebeu um determinado prémio internacional, e na resenha biográfica deste investigador, vem a informação de que ele lidera um grupo científico de mais de 3 dezenas de investigadores. Bem, ou aqui estamos na presença de um milagre da multiplicação da caacidade de orientação, ou é mais um exemplo da (des)orientação que é tão comum em Portugal.
Os grupos de investigação, a partir de um dado número de efectivos, entram em autogestão, em que existem um orientador formal, que na prática não orienta nada, e deopois temos os desgraçadas dos subalternos, como investigadores pós-docs ou alunos de doutoramento mais experintes, que fazem o trabalho de sapa. Uns ficam com o mérito, com o curriculum vitae engordado e com a progressão na carreira docente garantida, e com mais cacau no bolso ao fim do mês, e com mais notoriedade nacional e internacional, e com mais possibilidades de ganhar novos concursos e maiores perspectivas de eternizar a exploração... E os outros ficam com a "experiência", e com a batata de se verem nelas se o trabalho dos alunos der para o torto...
Pois é, e se isto me parece incorrecto, mais ainda me parecerá se verificarmos que o Estado, que é quem financia este estado de coisas, sabe da situação e, espante-se, apoia!, pois concede bolsas a mais alunos para entrarem neste carrossel. Um "bom" chefe, aqueles dos estímulos à excelência, é o que orienta trezentos milhões de alunos, no papel, bem-entendido. Um bom chefe é aquele cuja produtividade científica seja de dezenas de artigos por ano, mesmo que nem tenha passado os olhos por eles, ou não perceba um caracol sobre a temática tratada. Um bom chefe é que aquele que aparece na televisão a dizer as maiores barbaridades, evidenciando total desconhecimento e ignorância, mas fazendo um brilharete. Um bom chefe para o Estado, é o pior chefe que se consiga imaginar, cientificamente falando.
Eu acredito que não é possível orientar mais do que 4 a 5 alunos de doutoramento, mantendo actividades docentes e coordenação de projectos. E se calhar sou optimista. Conheço eminências com 8 alunos de doutoramento, e com a responsabilidade acrescida de coordenar 3 projectos nacionais, 1 europeu, e ainda dar 370 horas de aulas anuais. Ora, isto é evidente que algo ficará por fazer, para além da mera perda de qualidade de qualquer uma destas funções. Não é humanamente possível fazer tudo isto, tão simplesmente. E o Estado paga, e continuará a pagar.
A FCT tem coisas engracadíssimas, nomeadamente no que diz respeito ao regulamento de avaliação de projectos. Existe um tecto de disponibilidade acima dos quais nenhum investigador pode estar adstrito. Nenhum investigador pode estar em mais do que 50% do seu tempo, assumindo que os restantes 50% são destinados a actividades docentes, em projectos da FCT ou similares. Pois bem, pessoalmente conheço investigadores adstritos a mais do que 150%, só em projectos nacionais!!! De quer serve regulamentar se não se fiscaliza? De que serve concorrer quando o próprio sistema serve para permitir estas coisas?
Escândalos não faltam...
Tuesday, May 22, 2007
Monday, May 21, 2007
Ciência da treta ou a cagança científica
Para começar a bater onde elas mais doem, vou colocar à discussão o sempre interessante tema da falsificação da Ciência nacional. Quantos de nós não saberão ou não terão já presenciado verdadeiras engordas de curricula à custa dos imvestigadores junior? Do estilo do chefe pressionar o seu aluno de doutoramento, ou mesmo um investigador pós-doc, a elaborar um projecto, e depois obrigar o aluno a indicar como coordenador responsável pelo projecto o seu chefe ou orientador? Eu considero este panorama terrivelmente lesivo dos interesses científicos e até nacionais, e por várias razões, que passo a enumerar:
a) cria uma distorção inevitável nos critérios de avaliação da ciência; os cientistas junior (chamesmos-lhe assim, sem contudo associar qualquer carga pejorativa a esta definição) nunca chegam a emancipar-se em tempo útil de orientadores e chefes, e quando são avaliados, nunca chegam a ser contabilizados os indicadores da sua real produtividade e, comsequentemente, qualidade;
b) permite a criação de chefes-parasita... e com os quais o próprio Estado é particularmente benevolente, pois isto é uma realidade conhecida até de Bento XVI! Veja-se: são normalmente docentes de Universidades Públicas, logo, funcionários públicos, a quem o Estado paga os salários; quanto mais progridem, mais ganham, e muito provavelmente ganham muito acima das suas reais qualidades - à custa de todos nós;
c) desvirtua o sistema de avaliação da Ciência, pois este sistema, ao levar em linha de conta factores "cegos" (como número de publicações e número de projectos aprovados), não avalia a real proveniência das ideias;
d) permite o estabelecimento de verdadeiros feudos, porque esta situação é de "bola de neve"; quanto mais projectos aprovados se tem (mesmo à custa de alunos ou alegados subordinados), mais probabilidades se tem de novas aprovações. Só mesmo em Portugal é que o crime compensa, à descarada!
e) cria círculos restritos de benefício e exclusão; eu explico: beneficia os amigos, exclui os não alinhados ou os inimigos, que é a mesma coisa; lembram-se do discurso do Presidente Bush, de quem não está connosco está contra nós? Pois bem, na ciência é a mesma coisa. Consequentemente, os poucos que ainda vão tendo vergonha na cara, não vão tendo financiamento para os seus projectos, logo vivem na penumbra;
f) torna-se numa fonte quase inesgotável de mão de obra terrivelmente conformada, com consequências viciosas que colocarei a debate noutra oportunidade.
Se perdermos um bom par de minutos a pensar a quem serve este cenário, poderemos, creio eu, concluir que:
- não interessa ao nosso país; se existe investimento em Ciência, esse deve ser canalizado para os mais aptos, e não para os parasitas dos mais aptos;
- não interessa aos parasitados;
- não interessa ao cidadão comum; se o público soubesse de que valores estamos a falar, rapidamente teríamos um verdadeiro motim social: os projectos financiados pelo Estado português, podem chegar até aos 200.000€. Se concluirmos que este processo de chantagem e parasitismo de que falo abarca dezenas ou até centenas de projectos, estamos a falar de um fenómeno em larga escala. E já sem contabilizar o efeito da corrupção generalizada, que é endógena ao sistema público português, de que falarei noutro tópico.
Então a quem interessa?
- aos parasitas, que são quem obviamente beneficia;
- estranhamente, ao Governo; tem sempre a possibilidade de hastear as bandeiras da produtividade, do investimento, do choque tecnológico, da interdisciplinaridade... Esquecem-se é que se, por hipótese, o sistema actual de corrupção permite ao Ministério invocar argumentos de elevada produtividade científica, caso essa corrupção e essa mentira não existissem, os mesmos índices poderiam ser facilmente multiplicados por 5 ou 10 vezes;
- aos directores dos departamentos onde estas situações ocorrem, nomeadamente nos designados Laboratórios Associados, que mais não são do que uma criação subtil da era Gago de 1ª geração, que criou terras sem lei onde todos os abusos são permitidos; estes "cientistas" de salão podem sempre usufruir da palhaçada e do show off mediático, dos beberetes, da lagosta suada à pala do orçamento de Estado e do POCTI, dos encontros com Universidades estrangeiras reputadas e de algumas despesas pagas, como telemóveis e computadores portáteis para usufruto pessoal.
Tantos temas para discussões interessantes e tão pouco tempo... e tanto previlégio escandaloso para debater.
Falai, é hora do povo se pronunciar.
a) cria uma distorção inevitável nos critérios de avaliação da ciência; os cientistas junior (chamesmos-lhe assim, sem contudo associar qualquer carga pejorativa a esta definição) nunca chegam a emancipar-se em tempo útil de orientadores e chefes, e quando são avaliados, nunca chegam a ser contabilizados os indicadores da sua real produtividade e, comsequentemente, qualidade;
b) permite a criação de chefes-parasita... e com os quais o próprio Estado é particularmente benevolente, pois isto é uma realidade conhecida até de Bento XVI! Veja-se: são normalmente docentes de Universidades Públicas, logo, funcionários públicos, a quem o Estado paga os salários; quanto mais progridem, mais ganham, e muito provavelmente ganham muito acima das suas reais qualidades - à custa de todos nós;
c) desvirtua o sistema de avaliação da Ciência, pois este sistema, ao levar em linha de conta factores "cegos" (como número de publicações e número de projectos aprovados), não avalia a real proveniência das ideias;
d) permite o estabelecimento de verdadeiros feudos, porque esta situação é de "bola de neve"; quanto mais projectos aprovados se tem (mesmo à custa de alunos ou alegados subordinados), mais probabilidades se tem de novas aprovações. Só mesmo em Portugal é que o crime compensa, à descarada!
e) cria círculos restritos de benefício e exclusão; eu explico: beneficia os amigos, exclui os não alinhados ou os inimigos, que é a mesma coisa; lembram-se do discurso do Presidente Bush, de quem não está connosco está contra nós? Pois bem, na ciência é a mesma coisa. Consequentemente, os poucos que ainda vão tendo vergonha na cara, não vão tendo financiamento para os seus projectos, logo vivem na penumbra;
f) torna-se numa fonte quase inesgotável de mão de obra terrivelmente conformada, com consequências viciosas que colocarei a debate noutra oportunidade.
Se perdermos um bom par de minutos a pensar a quem serve este cenário, poderemos, creio eu, concluir que:
- não interessa ao nosso país; se existe investimento em Ciência, esse deve ser canalizado para os mais aptos, e não para os parasitas dos mais aptos;
- não interessa aos parasitados;
- não interessa ao cidadão comum; se o público soubesse de que valores estamos a falar, rapidamente teríamos um verdadeiro motim social: os projectos financiados pelo Estado português, podem chegar até aos 200.000€. Se concluirmos que este processo de chantagem e parasitismo de que falo abarca dezenas ou até centenas de projectos, estamos a falar de um fenómeno em larga escala. E já sem contabilizar o efeito da corrupção generalizada, que é endógena ao sistema público português, de que falarei noutro tópico.
Então a quem interessa?
- aos parasitas, que são quem obviamente beneficia;
- estranhamente, ao Governo; tem sempre a possibilidade de hastear as bandeiras da produtividade, do investimento, do choque tecnológico, da interdisciplinaridade... Esquecem-se é que se, por hipótese, o sistema actual de corrupção permite ao Ministério invocar argumentos de elevada produtividade científica, caso essa corrupção e essa mentira não existissem, os mesmos índices poderiam ser facilmente multiplicados por 5 ou 10 vezes;
- aos directores dos departamentos onde estas situações ocorrem, nomeadamente nos designados Laboratórios Associados, que mais não são do que uma criação subtil da era Gago de 1ª geração, que criou terras sem lei onde todos os abusos são permitidos; estes "cientistas" de salão podem sempre usufruir da palhaçada e do show off mediático, dos beberetes, da lagosta suada à pala do orçamento de Estado e do POCTI, dos encontros com Universidades estrangeiras reputadas e de algumas despesas pagas, como telemóveis e computadores portáteis para usufruto pessoal.
Tantos temas para discussões interessantes e tão pouco tempo... e tanto previlégio escandaloso para debater.
Falai, é hora do povo se pronunciar.
Tuesday, May 15, 2007
A realidade das Ciências
Nada melhor para começar do que dar o enquadramento real, menos poético, do que este blog pretende ser. Este blog será sempre um espaço de discussão sobre Ciência (ou ciências, como no meu entendimento da pluralidade científica). Pretende igualmente debater as mais profundas causas da descredibilização do sistema científico nacional, e levantar a ponta do véu sobre casos que os cientistas conhecem já sobejamente, relacionados com factos menos claros, abusos ou compadrios na área científica. É pois um espaço descontraído, de escárnio e bemdizer, de partilha de experiências reais, e que possam servir de sinal de alerta para muita das coisas boas (mas principalmente más, que são aquelas das quais nem deveríamos ter assunto de conversa...) que se passam neste nosso meio. Como sou cientista, mas também professor, assumo ter um conhecimento suficientemente profundo para lançar temas a debate, pelo que aceito, sem falsas modéstias (que também são essas que contribuem para este marasmo travestido de chiq modernismo inútil e parasitário com que alguns cientistas vivem à custa dos programas de financiamento público) o papel de guia ao longo desta tão proveitosa viagem. Mas guiar não significa ser proprietário do caminho... E como é a falar que as pessoas se entendem, gostaria de lançar a semente para trepar o tão temido feijoeiro que nos levará ao castelo nas nuvens, de onde se espera que o Gigante, mais tarde ou mais cedo, caia com estrépito.
Monday, May 14, 2007
O início da aventura
E começa assim... Reza a história que Deus deu a capacidade de conhecer ao Homem e que este a utilizou. E desde que a começou a utilizar, até abusar dela foi só um passo. E depois de ter começado a abusar dela, começou a abusar da capacidade que outros Homens também tinham de conhecer a realidade que os circundava. Toda este blog fala disso, da capacidade de conhecer, do conhecimento, das verdades encerradas no conhecimento ainda não conhecido, nos casos conhecidos do conhecimento fraudulento, do engano, do desconhecimento, da decepção - e por isso se chama Ciência, que rima com sapiência, e troça também da falta dela. Porque ao sermos ignorantes, zombamos do Deus e do que ele nos deu, que sendo eu um indivíduo muito pouco crente, mais não é do que expediente para começar a dizer mal dos outros - talvez fosse este o último objectivo do Deus infalível, o de fazer com que em tudo o que dizemos conhecer, só nos detestemos mais e mais. A ver vamos, e até já antecipo as caras de desagrado. O Mundo afinal é tão somente o palco do ódio...
André Silva
André Silva
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