A questão das estatísticas, motivo que me levou a comentar uma das recentes notícias dando conta do interesse do Presidente da Républica sobre a falta de isenção e qualidade deste instrumento, é assaz interessante.
A Ciência não é o motivo que me faz escrever por ser cientista; é o motivo que me faz escrever por eu a interpretar como uma alavanca do progresso do nosso País. A Ciência, e a sua aplicação tecnológica, é o motor que faz com que as verdadeiras economias modernas e competitivas (Japão, alguns países europeus e os Estados Unidos da América) se mantenham há décadas como superpotências industriais e económicas. A Ciência é um dos caminhos para a criação e (posterior) divisão da riqueza, contribuindo para uma diminuição das desigualdades sociais e para um aumento da qualidade de vida dos países onde é desenvolvida. São estas as razões que me fazem assumir esta verdadeira e sincera afinidade com esta questão. Mas assumo igualmente que, caso não fosse cientista, provavelmente não teria possibilidade de encarnar este papel, pois a minha sensibilidade para estas questão seria, no mínimo, académica...
E aqui é que de facto a porca torce o rabo. Vivemos num país mesquinho, de gente pequena e inteligência mediana, muito versada na maledicência e na manutenção de quintais estéreis. Mas o meu quintal, é meu, só meu, e ai daquele que se atreva a achar que o meu quintal podia ser mais produtivo. E de quintal em quintal, de canteiro em canteiro, de regato em regato, vai este país perdendo as oportunidades de se tornar mais moderno, mais rico e inevitavelmente mais justo. É esta a importância que dou ao meu papel. A maioria dos portugueses nem sabe, nem sonha que sequer se faça ciência em Portugal, mas Ciência a sério, da boa, para além das aparições sistemáticas dos comentadores habitués de algibeira, que são físicos e falam também muito bem de biologia e bioquímica, que vá-se lá saber porquê sentam o traseiro em tudo o que é oportunidade para aparecer no pequeno ecrán, a intoxicar as mentes das criancinhas e dos ignorantes com meias verdades, com lugares comuns que aprenderam na meia hora anterior a entrarem no ar, com ideias modernaças e espalhafatosas, com pequenos intróitos pseudo-intimistas (como se o homem-espectador esclarecido lá quisesse ser inundado com sentimentalismos balofos de quem abandonou o seu lar e um dia regressou...), com ignorância travestida de conhecimento profundo... É por isto que por vezes me revolta profundamente ser português, por ver serem dadas oportunidades (e tempo de antena...) para ouvir a mais profunda boçalidade e banalidade, somente porque o orador "fala muito bem". Por mim, até podia dizer asneiras em solfejo, que eu não pago bilhetes para perder tempo. E não admito que uma televisão do Estado esteja ao serviço de lobbies, sejam eles de natureza económica, sexual, política ou mesmo científica...
Porque são este figurões a quem interessa falsear a ciência!!! Quem é bom, e quem realmente fez o ensaio, a experiência, quem espreitou no microscópio, quem preparou a bicharada, quem andou metido em lodo até ao pescoço a medir não-sei-o-quê, esse sabe decerto sobre que versa aquilo que escreve. Agora o físico/biólogo/bioquímico/lobbista percebe de quê, para além de olhar muito bem pela sua vida? E as estatísticas tratam os dois por igual, o que faz, e que é o verdadeiro CIENTISTA, e o outro, o chulo dos costumes finos, o especialista em tudo e mais alguma coisa, o comentador do fait divers, que tanto comenta a mais recente descoberta no âmbito da luta contra o cancro do colón como o último golo do Belenenses, que por acaso até estava em fora de jogo. E é com estas estatísticas que o Governo tapa o sol com a peneira, dizendo que há excelentes investigadores em Portugal, e mantém o parasita na sua Torre de Babel, no seu pedestal, à frente de um laboratório "muito produtivo". Há, com toda a certeza, mas seremos unânimes em concordar que haveria melhor investugação se aos bons investigadores se retirasse o peso do parasitismo do seu director. Porque se mérito há a dar a este último, será somente o mérito de ser mestre na arte de enganar, e enganar com números, o que é complicado. As artes de presditigitação, ou de saltimbanco, são convenientes para os espectáculos de feira, ou circenses, onde a pantomina é breve e inofensiva; agora andarem a brincar com o futuro deste país, e de uma geração de cientistas brilhantes, só por uma questão de ego e de "testículos", então vão-me continuar a ler as crónicas apimentadas.
Lembre-se o grande público: o nosso futuro depende da ciência; até quando estaremos dispostos a ser enredados por falinhas mansas, e enganados por tempo indefinido?
Wednesday, August 29, 2007
Sunday, August 19, 2007
Dar o nome II
A questão de se dar o nome, com tamanha frequência no nosso país , como se fosse um fado, um destino, uma fataliqade, uma necessidade inapelável, encerra em si um complexo de inferioridade, de mesquinhez, de fazer passar uma imagem de falsidade e aparência que só existe por sermos nós os verdadeiros herdeiros da deseducação fascista. Um dos melhores acontecimentos, e que ainda hoje opera na sociedade portuguesa, prende-se com a democratização no acesso ao ensino superior. Aquilo que é de facto uma conquista da democracia converteu-se, paulatinamente, num poço de problemas irresolúveis, tanto mais que a sua resolução dependeria da (boa???) vontade de uma seita de indíviduos.
Vejamos:
As cátedras das Universidades Portuguesas estão pejadas de senhores e senhoras (por esta exacta ordem) que se formaram (ou licenciaram) nos idos do Arroz de XV, quando o Botas e a sua visão hierarquizada da sociedade permitia que o dinheiro, o estatuto, a beatice e a intensidade do mofo que emanava das sobrecasacas se sobrepusessem aos outros critérios na entrada para o Ensino Superior. Convenhamos, só uma pequeníssima fatia da população podia dispensar os seus filhos da obrigação de irem buscar sustento, quanto mais agora permitir-lhes andarem a perder tempo em estudos... Era a 4ª classe, "porque se eu não precisei, ele também não precisará", para a esmagadora porção dos portugueses.
Então a elite, tal como todas as elites que surjem como reflexo de regimes totalitários (as intelligentsias), fez o que pode (o que até não foi muito) para evitar que outros achassem que podiam comer da mesma gamela. Era escandaloso o proteccionismo corporativista balofo e sem qualquer sustentação ideológica que impedia o acesso de gente ao ensino superior. Ainda hoje se vê, mas com menos preponderância: para se ser médico em Portugal só se tem de ter 22 de média de licenciatura, 3 braços, um fígado suplente debaixo do banco de trás e uma boa dose de presunção aos dezoito anos, que é quando se sabe mais sobre os factos da vida. E digo-vos, baseado na minha experiência profissional: há médicos francamente burros, e formados em universidades portuguesas. Mas têm 3 ou 4 braços, acredito que tenham o tal fígado e presunçosos são com toda a certeza.
Mas com o advento do 25 de Abril, as coisas facilmente assumiram outro pendor, outra orientação, e houve que se fazer re-ajustes. E foram os re-ajustes que se fizeram que entalaram todo o futuro da Universidade tal como a concebemos: Os poleiros continuaram a existir, as nomeações, as entronizações, os direitos adquiridos, as mordomias (tive um professor que era conduzido por um chaffeur até às aulas, sendo eu aluno da Universidade do Porto), os escândalos, os tachos, os cargos feitos à medida, as verbas a serem distribuídas de acordo com as necessidades, a ciência a ser feita pelos amigos, a exploração dos alegados subalternos. Onde eu quero chegar é à seguinte conclusão: o movimento social, político, ideológico, cultural e até moral que colocou Portugal no centro do Mundo político em 1974 nunca foi encarado como uma necessidade para as elites da ciência nacional, que ainda hoje preferem a pequenez controlada de um vão de escada, em que quem fala rapidamente pode ser apontado, à competitividade fundamental para um engrandecimento justo e meritório dos verdadeiros cientistas da nossa praça. Enquanto houver perseguições políticas ou pessoais, enquanto houver concursos em que os critérios de avaliação não são fornecidos aos avaliados, enquanto a seriação for feita por indíviduos ligados aos avaliados, enquanto os critérios de avaliação tomarem em linha de conta unicamente parâmetros para um concurso desse ano, enquanto não houver uma verdadeira separação entre avaliação científica e avaliação pedagógica, enquanto não houver moralização extensiva com afastamento das maçãs podres, enquanto o Ministério Público não investigar e auditar as contas dos projectos financiados pela FCT e dos Laboratórios Associados, então não nos queixemos nunca de que a investigação que fazemos é má. Será sempre má enquanto não houver liberdade de contrapor às palavras das vacas-sagradas as opiniões mais válidas de quem tem realmente valor.
Por isso me indigno contra a fatalidade em que muitos dos meus colegas se enredam quando entregam as suas ideias para que outros, verdadeiros parasitas, dêem o nome, e usurpem a glória. A isto chama-se prostituição científica.
Vejamos:
As cátedras das Universidades Portuguesas estão pejadas de senhores e senhoras (por esta exacta ordem) que se formaram (ou licenciaram) nos idos do Arroz de XV, quando o Botas e a sua visão hierarquizada da sociedade permitia que o dinheiro, o estatuto, a beatice e a intensidade do mofo que emanava das sobrecasacas se sobrepusessem aos outros critérios na entrada para o Ensino Superior. Convenhamos, só uma pequeníssima fatia da população podia dispensar os seus filhos da obrigação de irem buscar sustento, quanto mais agora permitir-lhes andarem a perder tempo em estudos... Era a 4ª classe, "porque se eu não precisei, ele também não precisará", para a esmagadora porção dos portugueses.
Então a elite, tal como todas as elites que surjem como reflexo de regimes totalitários (as intelligentsias), fez o que pode (o que até não foi muito) para evitar que outros achassem que podiam comer da mesma gamela. Era escandaloso o proteccionismo corporativista balofo e sem qualquer sustentação ideológica que impedia o acesso de gente ao ensino superior. Ainda hoje se vê, mas com menos preponderância: para se ser médico em Portugal só se tem de ter 22 de média de licenciatura, 3 braços, um fígado suplente debaixo do banco de trás e uma boa dose de presunção aos dezoito anos, que é quando se sabe mais sobre os factos da vida. E digo-vos, baseado na minha experiência profissional: há médicos francamente burros, e formados em universidades portuguesas. Mas têm 3 ou 4 braços, acredito que tenham o tal fígado e presunçosos são com toda a certeza.
Mas com o advento do 25 de Abril, as coisas facilmente assumiram outro pendor, outra orientação, e houve que se fazer re-ajustes. E foram os re-ajustes que se fizeram que entalaram todo o futuro da Universidade tal como a concebemos: Os poleiros continuaram a existir, as nomeações, as entronizações, os direitos adquiridos, as mordomias (tive um professor que era conduzido por um chaffeur até às aulas, sendo eu aluno da Universidade do Porto), os escândalos, os tachos, os cargos feitos à medida, as verbas a serem distribuídas de acordo com as necessidades, a ciência a ser feita pelos amigos, a exploração dos alegados subalternos. Onde eu quero chegar é à seguinte conclusão: o movimento social, político, ideológico, cultural e até moral que colocou Portugal no centro do Mundo político em 1974 nunca foi encarado como uma necessidade para as elites da ciência nacional, que ainda hoje preferem a pequenez controlada de um vão de escada, em que quem fala rapidamente pode ser apontado, à competitividade fundamental para um engrandecimento justo e meritório dos verdadeiros cientistas da nossa praça. Enquanto houver perseguições políticas ou pessoais, enquanto houver concursos em que os critérios de avaliação não são fornecidos aos avaliados, enquanto a seriação for feita por indíviduos ligados aos avaliados, enquanto os critérios de avaliação tomarem em linha de conta unicamente parâmetros para um concurso desse ano, enquanto não houver uma verdadeira separação entre avaliação científica e avaliação pedagógica, enquanto não houver moralização extensiva com afastamento das maçãs podres, enquanto o Ministério Público não investigar e auditar as contas dos projectos financiados pela FCT e dos Laboratórios Associados, então não nos queixemos nunca de que a investigação que fazemos é má. Será sempre má enquanto não houver liberdade de contrapor às palavras das vacas-sagradas as opiniões mais válidas de quem tem realmente valor.
Por isso me indigno contra a fatalidade em que muitos dos meus colegas se enredam quando entregam as suas ideias para que outros, verdadeiros parasitas, dêem o nome, e usurpem a glória. A isto chama-se prostituição científica.
Tuesday, July 24, 2007
Dar o nome
No nosso país existem muitas situações que são, no mínimo curiosas, de tão estranhas que são, sendo simultaneamente do domínio público. À boca fechada, comentam-se algumas, sabem-se outras, confirma-se umas tantas, e até se vai congeminando uma nova série de coisas verdadeiramente estrambólicas que assolam a ciência nacional. E é deta cinência nacional portuguesinha de gema e com letra minúscula que eu habitualmente falo, porque é essa que me faz mais espécie e que me faz desconfiar de todas as iniciativas salvadoras que o nosso ministro da ciência (outra vez com letra minúscula) vai apregoando. Um dos sindromas mais escabrosos é o de dar o nome às coisas.
Por dar o nome, significo assinar por baixo algo que não é da sua autoria. Na nossa ciência é coisas mais do que comum, é extremamente frequente, é inclusivamente quase um ritual iniciático para o jovem investigador. Resumindo: o júnior tem uma ideia, nos seus momentos de ócio passados no WC, amadurece-a, transforma-a num conceito inteligível, fá-la crescer e tomar forma, verte-a numa folha ou num disco rígido, prescruta, debate-a consigo e com os seus pares, e depois, para mal dos seus pecados, comunica-a ao chefe. E essa ideia, que tanto esforço, abnegação, e romantismo lhe custou é imediatamente apropriada, por que em Portugal, ao contrário de outros cantos do globo menos civilizados, só os chefes têm boas ideias. E que ideias, meus senhores, ideias fantásticas, ideias revolucionárias, ideias que garantem saltos no conhecimento, ideias que acabam com a pobreza, com a miséria, com a fome e com a doença! Estes chefes protugueses são fantásticos. Avé, chefe, que conseguiste fazer vingar o que roubaste, o que teu não era, mas que passou a ser!!!!
A isto, meus amigos, é o chamado "dar o nome". E isto é mato na ciência nacional.
Eu até gostaria de ter acesso aos dados que me confirmassem qual a autoria científica e consequentemente moral dos projectos dos grandes cientistas de renome nacional (e coloquei aqui propositadamente o termo nacional, porque aquilo que por vezes vende muito bem cá dentro não passa de uma mixórdia quando comparado com os verdadeiros cientistas internacionais...). Aí muita gente teria enormes surpresas, porque o que cá se aprova com determinada roupagem tem na sua génese gente bem capaz, que não é quem assina a folha. O argumento para fazer isto é simples: para além de haver chefes que pura e simplesmente não autorizam que os seus investigadiores o façam (sob pena de represálias, como o despedimento), há outros que utilizam o vicioso argumento de que se for o junior a assinar, o projecto tem menos probabilidades de ser aprovado. Coisa mais mentirosa não há, porque felizmente e apesar dos caciques, as avaliações começam a ser um bocadinhos mais isentas. Esta atitude é uma mina para beneficiar uns (os tais chefes...) e para prejudicar os outros, os juniores, os legítimos autores intelectuais das ideias. E distorce inevitavelmente a avaliação curricular que é a base do nosso sistema de creditação da qualidade do trabalho produzido.
Por absurdo que possa ser, um indíviduo que adopte esta atitude terá garantida a aprovação de todos os projectos que assine (note-se: assine) pelo simples facto de ter mais curriculum. Mas por absurdo que possa parecer, é este tipo de atitude que vale muita da cátedra que por ainda anda. Ai pois é...
Por dar o nome, significo assinar por baixo algo que não é da sua autoria. Na nossa ciência é coisas mais do que comum, é extremamente frequente, é inclusivamente quase um ritual iniciático para o jovem investigador. Resumindo: o júnior tem uma ideia, nos seus momentos de ócio passados no WC, amadurece-a, transforma-a num conceito inteligível, fá-la crescer e tomar forma, verte-a numa folha ou num disco rígido, prescruta, debate-a consigo e com os seus pares, e depois, para mal dos seus pecados, comunica-a ao chefe. E essa ideia, que tanto esforço, abnegação, e romantismo lhe custou é imediatamente apropriada, por que em Portugal, ao contrário de outros cantos do globo menos civilizados, só os chefes têm boas ideias. E que ideias, meus senhores, ideias fantásticas, ideias revolucionárias, ideias que garantem saltos no conhecimento, ideias que acabam com a pobreza, com a miséria, com a fome e com a doença! Estes chefes protugueses são fantásticos. Avé, chefe, que conseguiste fazer vingar o que roubaste, o que teu não era, mas que passou a ser!!!!
A isto, meus amigos, é o chamado "dar o nome". E isto é mato na ciência nacional.
Eu até gostaria de ter acesso aos dados que me confirmassem qual a autoria científica e consequentemente moral dos projectos dos grandes cientistas de renome nacional (e coloquei aqui propositadamente o termo nacional, porque aquilo que por vezes vende muito bem cá dentro não passa de uma mixórdia quando comparado com os verdadeiros cientistas internacionais...). Aí muita gente teria enormes surpresas, porque o que cá se aprova com determinada roupagem tem na sua génese gente bem capaz, que não é quem assina a folha. O argumento para fazer isto é simples: para além de haver chefes que pura e simplesmente não autorizam que os seus investigadiores o façam (sob pena de represálias, como o despedimento), há outros que utilizam o vicioso argumento de que se for o junior a assinar, o projecto tem menos probabilidades de ser aprovado. Coisa mais mentirosa não há, porque felizmente e apesar dos caciques, as avaliações começam a ser um bocadinhos mais isentas. Esta atitude é uma mina para beneficiar uns (os tais chefes...) e para prejudicar os outros, os juniores, os legítimos autores intelectuais das ideias. E distorce inevitavelmente a avaliação curricular que é a base do nosso sistema de creditação da qualidade do trabalho produzido.
Por absurdo que possa ser, um indíviduo que adopte esta atitude terá garantida a aprovação de todos os projectos que assine (note-se: assine) pelo simples facto de ter mais curriculum. Mas por absurdo que possa parecer, é este tipo de atitude que vale muita da cátedra que por ainda anda. Ai pois é...
Monday, July 2, 2007
As responsabilidades do Estado
As responsabilidades do Estado em matéria de investigação são enormes. Para além de ser, isoladamente, a maior fonte de financiamento para a Ciência nacional, o Estado detém igualmente, por intermédio do Governo, as ferramentas imprescindíveis para que a iniciativa privada passe a ser também um bom investidor na Ciência. A primeira responsabilidade, que é a ocupará este post, é cumprida de forma francamente insuficiente, não tanto pela verba dispendida mas principalmente pelas opções erradíssimas que o Estado teima em tomar, a vários níveis e que apresentarei de seguida.
Começa tudo pelos esquemas de financiamento. Enquanto o Estado previligiar o mérito meramente curricular, de forma cega e sem levar em consideração factores como a idade dos condidatos a projectos científicos, estaremos sempre na dependência de gente ultrapassada mas com nomes míticos no panorama nacional. Serão sempre os mesmos nas mesmas áreas, a ganhar os projectos, nem que estes tenham sido escritos por cientistas mais novos. Estes cientistas mais novos, e perante este estado de coisas, preferem amíude ir ao beija-a-mão para garantir a mínima hipótese de terem algum projecto aprovado, que é o mesmo que dizer ter algum dinheiro para financiarem a sua própria investigação. Há uns anos, recebi um mail que andava a circular dentro de um deerminado Laboratório Associado, em que o seu Director, um cientista senior e do topo da carreira docente pública, "pedia" aos investigadores juníores que incluíssem nos seus projectos a designada "brigada do reumático". Então eu perguntei cá para mim: "Se são tão bons, estes velhadas, para que precisam que sejam os seus alegados subalternos a incluí-los nos projectos?" O facto é que, como eu já afirmei neste espaço, a ciência portuguesa é de fachada, em que quem assina não é quem assume a verdadeira responsabilidade, e como aparência, financiam-se projectos de fulano velho sob a alçada de sicrano novo. E depois estes mesmos elementos da brigada do reumático criaram figuras assaz interessantes, como o gestor do projecto: é o indíviduo que o escreveu, que o deu por motivos hierárquicos a assinar ao seu superior, mas que assume a verdadeira responsabilidade pelo projecto em si, porque o velho não está para se chatear, ou nem sequer tem tempo. Mas tem espaço no curriculum para escrever lá mais duas linhas, na qualidade de investigador responsável pelo projecto XYZ... E no próximo concurso, o velho tem ainda mais possibilidades de ganhar um outro projecto, enquanto que o novo tem cada vez menos. É o chamado generation gap.
Depois, o Estado mesmo sabendo desta situação, já exposta anteriormente, não tem a capacidade de resolver minimamente a questão. Na minha opinião, fá-lo porque não tem interesse em comprar uma guerrilha com os cientistas seniores, dos quais depende para muita coisa. Quando mais não seja, para a copofonia científica. Como para dizer mal, está meio mundo, mas para apresentar alternativas nunca ninguém se assume, eu faço-o: porque não equacionar uma linha de financiamento de projectos científicos exclusivamente com base na idade, uma divisão sub-40, por exemplo? É que simplesmente não se pode colocar no mesmo patamar cientistas (e curricula) de 60 e de 25 anos! Mas eu advogo a criação desta linha sem haver qualquer intenção redutora ou infantilizante, nem de criar uma linha de investigação sub-alterna ou de menos qualidade. Seria somente um artifício no sentido de aumentar a equidade de condições a concurso. É que com o patrocínio do Estado eu já recebi críticas dos avaliadores dos projectos que me rejeitaram uma ideia com o argumento de que o investigador principal (eu, neste caso) é demasiado novo. Estando eu para muito além os 30, com que idade se poderá aceder a este financiamento? Em que alínea este critério se encontra no Edital dos concursos que o Estado patrocina? Como é possível que no mesmo concurso tenha ganho projectos com a classificação de excelente e tenha sido rejeitado por ser "demasiado novo"? Aqui há gato escondido com o rabo de fora.
No seguimento do ponto anterior, temos a corrupção generalizada no processo de avaliação. Como é que o Estado justifica que haja áreas científicas para as quais os jurís são os mesmos de de há 7 anos a esta parte ? Estas dados são públicos, queiram aceder ao historial das avaliações da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (www.fct.mctes.pt) e confirmem. É que à mulher de César não basta ser séria, tem de parecê-lo. E o Estado nem é, nem o parece, nem o quer fazer crer.
Depois temos a questão da regulamentação dos papeis. Em idos de 90 criaram-se os designados Laboratórios Associados, que aliavam uma maior independência de gestão dos projectos e das próprias linhas de investigação com um papel de prestação de serviços aos governos da Républica em matérias achadas de interesse nacional. Então, optou-se por chamar verdadeiras comissões instaladoras das universidades públicas, para fazerem o papel de batedores de terreno. Instalaram-se, começaram as suas actividades de formação, mas... ainda hoje lá estão, porque ocupam luigares chave, e deles não abrirão mão tão cedo. Não lhes interessa a criação de uma verdadeira carreira de investigação, pois será sempre mais um obstáculo ao exercício do poder a divisão desse mesmo poder com investigadores de carreira, cuja única ocupação é investigar, ter projectos financiados e orientar alunos. Como o dinheiro é poder no seio destas instituições, um investigador sério e competente (caso tenha muitos projectos) pode fazer perigar a posição de um professor-barão, e colocar em risco a hegemonia institucional. Sou francamente favorável à criação de uma carreira de investigação séria, baseada em pressupostos estratégicos e em garantias válidas no que diz respeito às questões laborais. Agora definirem-me investigador auxiliar como "um pós-doc com mais um bocadinho de autonomia", como um elemento da direcção de um laboratório associado me definiu um destes investigadores é que não.
Lançarei mais questões pertinentes no próximo post.
Começa tudo pelos esquemas de financiamento. Enquanto o Estado previligiar o mérito meramente curricular, de forma cega e sem levar em consideração factores como a idade dos condidatos a projectos científicos, estaremos sempre na dependência de gente ultrapassada mas com nomes míticos no panorama nacional. Serão sempre os mesmos nas mesmas áreas, a ganhar os projectos, nem que estes tenham sido escritos por cientistas mais novos. Estes cientistas mais novos, e perante este estado de coisas, preferem amíude ir ao beija-a-mão para garantir a mínima hipótese de terem algum projecto aprovado, que é o mesmo que dizer ter algum dinheiro para financiarem a sua própria investigação. Há uns anos, recebi um mail que andava a circular dentro de um deerminado Laboratório Associado, em que o seu Director, um cientista senior e do topo da carreira docente pública, "pedia" aos investigadores juníores que incluíssem nos seus projectos a designada "brigada do reumático". Então eu perguntei cá para mim: "Se são tão bons, estes velhadas, para que precisam que sejam os seus alegados subalternos a incluí-los nos projectos?" O facto é que, como eu já afirmei neste espaço, a ciência portuguesa é de fachada, em que quem assina não é quem assume a verdadeira responsabilidade, e como aparência, financiam-se projectos de fulano velho sob a alçada de sicrano novo. E depois estes mesmos elementos da brigada do reumático criaram figuras assaz interessantes, como o gestor do projecto: é o indíviduo que o escreveu, que o deu por motivos hierárquicos a assinar ao seu superior, mas que assume a verdadeira responsabilidade pelo projecto em si, porque o velho não está para se chatear, ou nem sequer tem tempo. Mas tem espaço no curriculum para escrever lá mais duas linhas, na qualidade de investigador responsável pelo projecto XYZ... E no próximo concurso, o velho tem ainda mais possibilidades de ganhar um outro projecto, enquanto que o novo tem cada vez menos. É o chamado generation gap.
Depois, o Estado mesmo sabendo desta situação, já exposta anteriormente, não tem a capacidade de resolver minimamente a questão. Na minha opinião, fá-lo porque não tem interesse em comprar uma guerrilha com os cientistas seniores, dos quais depende para muita coisa. Quando mais não seja, para a copofonia científica. Como para dizer mal, está meio mundo, mas para apresentar alternativas nunca ninguém se assume, eu faço-o: porque não equacionar uma linha de financiamento de projectos científicos exclusivamente com base na idade, uma divisão sub-40, por exemplo? É que simplesmente não se pode colocar no mesmo patamar cientistas (e curricula) de 60 e de 25 anos! Mas eu advogo a criação desta linha sem haver qualquer intenção redutora ou infantilizante, nem de criar uma linha de investigação sub-alterna ou de menos qualidade. Seria somente um artifício no sentido de aumentar a equidade de condições a concurso. É que com o patrocínio do Estado eu já recebi críticas dos avaliadores dos projectos que me rejeitaram uma ideia com o argumento de que o investigador principal (eu, neste caso) é demasiado novo. Estando eu para muito além os 30, com que idade se poderá aceder a este financiamento? Em que alínea este critério se encontra no Edital dos concursos que o Estado patrocina? Como é possível que no mesmo concurso tenha ganho projectos com a classificação de excelente e tenha sido rejeitado por ser "demasiado novo"? Aqui há gato escondido com o rabo de fora.
No seguimento do ponto anterior, temos a corrupção generalizada no processo de avaliação. Como é que o Estado justifica que haja áreas científicas para as quais os jurís são os mesmos de de há 7 anos a esta parte ? Estas dados são públicos, queiram aceder ao historial das avaliações da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (www.fct.mctes.pt) e confirmem. É que à mulher de César não basta ser séria, tem de parecê-lo. E o Estado nem é, nem o parece, nem o quer fazer crer.
Depois temos a questão da regulamentação dos papeis. Em idos de 90 criaram-se os designados Laboratórios Associados, que aliavam uma maior independência de gestão dos projectos e das próprias linhas de investigação com um papel de prestação de serviços aos governos da Républica em matérias achadas de interesse nacional. Então, optou-se por chamar verdadeiras comissões instaladoras das universidades públicas, para fazerem o papel de batedores de terreno. Instalaram-se, começaram as suas actividades de formação, mas... ainda hoje lá estão, porque ocupam luigares chave, e deles não abrirão mão tão cedo. Não lhes interessa a criação de uma verdadeira carreira de investigação, pois será sempre mais um obstáculo ao exercício do poder a divisão desse mesmo poder com investigadores de carreira, cuja única ocupação é investigar, ter projectos financiados e orientar alunos. Como o dinheiro é poder no seio destas instituições, um investigador sério e competente (caso tenha muitos projectos) pode fazer perigar a posição de um professor-barão, e colocar em risco a hegemonia institucional. Sou francamente favorável à criação de uma carreira de investigação séria, baseada em pressupostos estratégicos e em garantias válidas no que diz respeito às questões laborais. Agora definirem-me investigador auxiliar como "um pós-doc com mais um bocadinho de autonomia", como um elemento da direcção de um laboratório associado me definiu um destes investigadores é que não.
Lançarei mais questões pertinentes no próximo post.
Friday, June 29, 2007
O Rei vai nu e gosta
Ainda a questão dos projectinhos da UP...
Eu não me canso de bater em determinadas teclas, porque são estes alvos que estragam o que de bom poderíamos ter por cá. Estragam a nossa competitividade, transformam-nos em feudos da ignorância, da lambebotocracia, do beija-a-mão, da dependência solene de homenzinhos cinzentos que se instalaram nas calendas pré-25 de Abril. E depois há os outros, os de pós-25 de Abril, que refinaram a técnica dos seus pares anteriores. Parece um movimento imparável, de vingança contra desconhecidos, um bocado na lógica primária do "fizeram-me sofrer, vou fazer outros sofrer muito mais". Vê-se isto nas praxes académicas, mas eu dou-lhes um devido desconto, porque a maioria dos que praticam este lema é pouco inteligente (a veterania académica premeia a burrice) e estão bêbados.
Enfim, daremos um ar leve a estas questões, porque este blog não serve somente para denunciar, serve para fazer sorrir e pensar, e equacionar o que é ser Português na Ciência.
Há uns anos, incompatibilizei-me com uma personagem da arena científica nacional por razões várias, que conduziram a um total afastamento da minha pessoa relativamente às suas lides (arenas e lides, neste caso, até combinam bem; não sendo eu um aficcionado tauromáquico, tenho de reconhecer que este imaginário taurino se aplica à questão em causa). Fartei-me de aturar estupidez, porque a há, e da grossa, até na Ciência. E desde então, essa personagem, que não se limita a pavonear o cabelinho pintado pelos salões de conversa psuedo-científica deste país, tem feito aquilo que de mais civilizado se faz actualmente, que é a vendetta. Porque a sua lógica, qual "Raging Bull" de ringues de 2ª categoria, é o "não estás para me servir, estás contra mim" - e para os mais incautos e não familiarizados com estas andanças da ciência, isto é comum, muito mais do que se pensa. É a elevação do discurso, tão banal entre vendedoras de peixe, trolhas e demais actividades profissionais que requerem elevada formação académica como doutoramentos e agregações.
Isto em parte dá razão ao chavão do povão: quanto mais se estuda, mais malcriado se fica. E às vezes mais intelectualmente diminuído se fica, e torna-se aceitável legitimar ferramentas como lixar os colegas, a maledicência generalizada, a coscuvilhice gratuita... Ms isto são considerações próprias de de heróis de pacotilha e calimeros profissionais, e não é bem o que me trouxe aqui.
O que é facto é que o próprio Estado envereda por estas coisas. Vejamos: quando um concurso (e atentemos na palavra "concurso": "servirá o propósitio de escolher o melhor entre um lote de pré-seleccionados, o mais adequado, o que mais reúna condições para um determinado objectivo...") da responsabuilidade do Estado é apropriado por gente deste calibre, ao nível de salteadores de cemitérios, a coisa está manifestamente inquinada.
Quando projectos científicos são aprovados por juris internacionais de reputação e méritos reconhecidos em concursos globais, e depois um projecto com a mesma filosofia de base é reprovado por esta escumalha, ao nível mais do que doméstico, nacional e interno, então é porque este país deixou de valer a pena. Então é porque a vendetta compensa, é porque a estupidez pode assumir-se como uma "driving force" deste sistema, é porque os porcos triunfaram. Estes cenários são comuns, e são considerados por muitos como parte integrante e inalienável do jogo. Mas eu não me conformo, e como eu sei que há muitos outros que questionam este sistema de valores vetusto. A ciência nacional está pejada de vaidades e petulâncias, de quintais, de estatutos de excepção, de conivências e ilegalidades, de silêncios hipócritas, de cientistas virtuais, de lambe-botas, de vacas sagradas, de heróis alcoólicos, de incompreendidos e frustrados, de fundamentalistas, de acólitos de Deus e do Diabo, de John Waynes e Charlie Chaplins, de palhaços, de lobbies gay e de incompetentes para os quais a moralidade é uma palavra oca.
Eu não me canso de bater em determinadas teclas, porque são estes alvos que estragam o que de bom poderíamos ter por cá. Estragam a nossa competitividade, transformam-nos em feudos da ignorância, da lambebotocracia, do beija-a-mão, da dependência solene de homenzinhos cinzentos que se instalaram nas calendas pré-25 de Abril. E depois há os outros, os de pós-25 de Abril, que refinaram a técnica dos seus pares anteriores. Parece um movimento imparável, de vingança contra desconhecidos, um bocado na lógica primária do "fizeram-me sofrer, vou fazer outros sofrer muito mais". Vê-se isto nas praxes académicas, mas eu dou-lhes um devido desconto, porque a maioria dos que praticam este lema é pouco inteligente (a veterania académica premeia a burrice) e estão bêbados.
Enfim, daremos um ar leve a estas questões, porque este blog não serve somente para denunciar, serve para fazer sorrir e pensar, e equacionar o que é ser Português na Ciência.
Há uns anos, incompatibilizei-me com uma personagem da arena científica nacional por razões várias, que conduziram a um total afastamento da minha pessoa relativamente às suas lides (arenas e lides, neste caso, até combinam bem; não sendo eu um aficcionado tauromáquico, tenho de reconhecer que este imaginário taurino se aplica à questão em causa). Fartei-me de aturar estupidez, porque a há, e da grossa, até na Ciência. E desde então, essa personagem, que não se limita a pavonear o cabelinho pintado pelos salões de conversa psuedo-científica deste país, tem feito aquilo que de mais civilizado se faz actualmente, que é a vendetta. Porque a sua lógica, qual "Raging Bull" de ringues de 2ª categoria, é o "não estás para me servir, estás contra mim" - e para os mais incautos e não familiarizados com estas andanças da ciência, isto é comum, muito mais do que se pensa. É a elevação do discurso, tão banal entre vendedoras de peixe, trolhas e demais actividades profissionais que requerem elevada formação académica como doutoramentos e agregações.
Isto em parte dá razão ao chavão do povão: quanto mais se estuda, mais malcriado se fica. E às vezes mais intelectualmente diminuído se fica, e torna-se aceitável legitimar ferramentas como lixar os colegas, a maledicência generalizada, a coscuvilhice gratuita... Ms isto são considerações próprias de de heróis de pacotilha e calimeros profissionais, e não é bem o que me trouxe aqui.
O que é facto é que o próprio Estado envereda por estas coisas. Vejamos: quando um concurso (e atentemos na palavra "concurso": "servirá o propósitio de escolher o melhor entre um lote de pré-seleccionados, o mais adequado, o que mais reúna condições para um determinado objectivo...") da responsabuilidade do Estado é apropriado por gente deste calibre, ao nível de salteadores de cemitérios, a coisa está manifestamente inquinada.
Quando projectos científicos são aprovados por juris internacionais de reputação e méritos reconhecidos em concursos globais, e depois um projecto com a mesma filosofia de base é reprovado por esta escumalha, ao nível mais do que doméstico, nacional e interno, então é porque este país deixou de valer a pena. Então é porque a vendetta compensa, é porque a estupidez pode assumir-se como uma "driving force" deste sistema, é porque os porcos triunfaram. Estes cenários são comuns, e são considerados por muitos como parte integrante e inalienável do jogo. Mas eu não me conformo, e como eu sei que há muitos outros que questionam este sistema de valores vetusto. A ciência nacional está pejada de vaidades e petulâncias, de quintais, de estatutos de excepção, de conivências e ilegalidades, de silêncios hipócritas, de cientistas virtuais, de lambe-botas, de vacas sagradas, de heróis alcoólicos, de incompreendidos e frustrados, de fundamentalistas, de acólitos de Deus e do Diabo, de John Waynes e Charlie Chaplins, de palhaços, de lobbies gay e de incompetentes para os quais a moralidade é uma palavra oca.
Thursday, June 14, 2007
A universalidade do intelecto
Este país tem dos mais belos climas do Mundo, até se come bem, a criminalidade não tem a expressão das ruas de Bagdad ou do Rio de Janeiro, há quem pague impostos, pelo que até nem é um inferno, mas tem coisas deliciosas.
Ontem telefonei para a FCT, e indaguei acerca da comunicação dos resultados relativos aos projectos submetidos no ano passado e referentes aquele concurso que deveria ter terminado numa data que agora já nem me recordo, mas que efectivamente terminou 30 dias depois, por pura incompetência do serviços informáticos da FCT. Decerto se lembrarão porque muitos dos que nele concorreram perderam os seus últimos dias de Agosto (o mês do tão merecido descanso...) a compensar as ursadas desta instituição famigerada que dá pelo nome de Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Lá fui atendido, esperei alguns segundos, e questionei para quando a comunicação dos resultados, visto a avaliação ter sido feita há mais de uma mês. Disseram-me que até já tinham os resultados, mas que precisavam de uma autorização superior. E eu pensei que essa autorização deve ser divina, deve provir exactamente de Deus, pois "superior" na FCT não há nada. Dizem que tem um presidente, chamado João Sentieiro, mas eu creio que é a versão cientifica do Américo Tomáz, corta umas fitas, assina uns despachos e no entretanto alivia os nós das cordas com que o Ministro o manipula, para não ganhar escaras. Não passa de um fantoche.
Pois bem, essa autorização divina não veio, logo o país da ciência pára. Ok, nada de novo, surpresa zero. E para quando, minha senhora, se dignarão Deus e o corta fitas a empunhar a caneta? Fui assim informado que estas coisas demoram, porque Deus por vezes adormece na retrete e quando acorda, apercebe-se que usou inadvertidamente os relatórios como papel higiénico. Pelo menos, é um hábito que o Deus que rege a FCT tem, que é usar os projectos como papel utilitário. Lá para a próxima semana... Segunda feira, talvez.
Farto de esperar, pois feitas as contas perdi noites de sono há quase um ano para nem ver se os meus projectos foram lidos, argumentei que os paíneis de estrangeiros (sim, são todos estrangeiros, que parolice, que ruralidade, que maneira mais bizarra de arranjar isenção, como se todos os avaliadores portugueses tivessem bigode, unhaca do dedo mindinho e um palitinho ao canto da boca 2 horas após a refeição...; são todos estrangeiros, mas nomeados por portugueses, exactamente aqueles que continuam a beneficiar dos benesses, para garantir a tal isenção) são demasiados bem pagos para andar a dormir. E a ruralidade tomou conta da conversa: "sabe, Sr. Professor, os avalidores são muito ocupados, até temos de os lembrar que têm de nos enviar os relatórios..." Pois, devem ser os relatórios das instituições portuguesas, porque tenho as minhas dúvidas se terão o mesmo comportamento na terra deles.
Enfim, estupidez na instituição que financia a busca do conhecimento em Portugal...
Depois questionei para quando o cronograma da abertura de novos concursos, pois sei de fonte segura que o tal corta fitas assumiu publicamente que os mesmos concursos abririam com uma periodicidade anual. Disse à tal funcionária que tinha ouvido o chefe dela dizer isto. Resposta pronta: "Sabe, Sr. Professor, às vezes mais valia que ele estivesse calado..." Pela primeira vez na conversa, que já se entabulava há alguns minutos, concordei com a senhora. Isto é a prova do conceito da universidade do intelecto, por muito burros que sejamos, há-de haver algo em que teremos a mesma compreensão. Neste caso, concordamos que o corta fitas mais devia ter estado calado.
E a dita senhora, funcionária pública (hoje em dia é perigoso para um funcionário público dizer estas coisas) confessou que lá (FCT) não havia comunicação, que eles são os últimos a saber das decisões. Concordei novamente, e provei o conceito da universalidade do intelecto: é que toda gente, tanto dentro como fora da FCT, sabe que ninguém se entende na Ciência. Ninguém comunica em Ciência. Mas talvez este manto de silêncio sirva propósitos obscuros, que não ousei discutir com a minha interlocutora de ocasião, porque imagine-se as repercussões da universalidade do intelecto se ambos concordássemos que, para além de pouco brilhante (eufemismo claro), o corta fitas é mal intencionado? Ou que o Ministro é mal intencionado? Ou que andamos todos a mangar com a malta?
Despedi-me e desliguei com um sorriso nos lábios. Afinal o Sol brilhava e tinha almoçado arroz de marisco. Espero até segunda feira para concordar com mais umas coisitas.
Ontem telefonei para a FCT, e indaguei acerca da comunicação dos resultados relativos aos projectos submetidos no ano passado e referentes aquele concurso que deveria ter terminado numa data que agora já nem me recordo, mas que efectivamente terminou 30 dias depois, por pura incompetência do serviços informáticos da FCT. Decerto se lembrarão porque muitos dos que nele concorreram perderam os seus últimos dias de Agosto (o mês do tão merecido descanso...) a compensar as ursadas desta instituição famigerada que dá pelo nome de Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Lá fui atendido, esperei alguns segundos, e questionei para quando a comunicação dos resultados, visto a avaliação ter sido feita há mais de uma mês. Disseram-me que até já tinham os resultados, mas que precisavam de uma autorização superior. E eu pensei que essa autorização deve ser divina, deve provir exactamente de Deus, pois "superior" na FCT não há nada. Dizem que tem um presidente, chamado João Sentieiro, mas eu creio que é a versão cientifica do Américo Tomáz, corta umas fitas, assina uns despachos e no entretanto alivia os nós das cordas com que o Ministro o manipula, para não ganhar escaras. Não passa de um fantoche.
Pois bem, essa autorização divina não veio, logo o país da ciência pára. Ok, nada de novo, surpresa zero. E para quando, minha senhora, se dignarão Deus e o corta fitas a empunhar a caneta? Fui assim informado que estas coisas demoram, porque Deus por vezes adormece na retrete e quando acorda, apercebe-se que usou inadvertidamente os relatórios como papel higiénico. Pelo menos, é um hábito que o Deus que rege a FCT tem, que é usar os projectos como papel utilitário. Lá para a próxima semana... Segunda feira, talvez.
Farto de esperar, pois feitas as contas perdi noites de sono há quase um ano para nem ver se os meus projectos foram lidos, argumentei que os paíneis de estrangeiros (sim, são todos estrangeiros, que parolice, que ruralidade, que maneira mais bizarra de arranjar isenção, como se todos os avaliadores portugueses tivessem bigode, unhaca do dedo mindinho e um palitinho ao canto da boca 2 horas após a refeição...; são todos estrangeiros, mas nomeados por portugueses, exactamente aqueles que continuam a beneficiar dos benesses, para garantir a tal isenção) são demasiados bem pagos para andar a dormir. E a ruralidade tomou conta da conversa: "sabe, Sr. Professor, os avalidores são muito ocupados, até temos de os lembrar que têm de nos enviar os relatórios..." Pois, devem ser os relatórios das instituições portuguesas, porque tenho as minhas dúvidas se terão o mesmo comportamento na terra deles.
Enfim, estupidez na instituição que financia a busca do conhecimento em Portugal...
Depois questionei para quando o cronograma da abertura de novos concursos, pois sei de fonte segura que o tal corta fitas assumiu publicamente que os mesmos concursos abririam com uma periodicidade anual. Disse à tal funcionária que tinha ouvido o chefe dela dizer isto. Resposta pronta: "Sabe, Sr. Professor, às vezes mais valia que ele estivesse calado..." Pela primeira vez na conversa, que já se entabulava há alguns minutos, concordei com a senhora. Isto é a prova do conceito da universidade do intelecto, por muito burros que sejamos, há-de haver algo em que teremos a mesma compreensão. Neste caso, concordamos que o corta fitas mais devia ter estado calado.
E a dita senhora, funcionária pública (hoje em dia é perigoso para um funcionário público dizer estas coisas) confessou que lá (FCT) não havia comunicação, que eles são os últimos a saber das decisões. Concordei novamente, e provei o conceito da universalidade do intelecto: é que toda gente, tanto dentro como fora da FCT, sabe que ninguém se entende na Ciência. Ninguém comunica em Ciência. Mas talvez este manto de silêncio sirva propósitos obscuros, que não ousei discutir com a minha interlocutora de ocasião, porque imagine-se as repercussões da universalidade do intelecto se ambos concordássemos que, para além de pouco brilhante (eufemismo claro), o corta fitas é mal intencionado? Ou que o Ministro é mal intencionado? Ou que andamos todos a mangar com a malta?
Despedi-me e desliguei com um sorriso nos lábios. Afinal o Sol brilhava e tinha almoçado arroz de marisco. Espero até segunda feira para concordar com mais umas coisitas.
Wednesday, June 13, 2007
Se a opinião pública soubesse...
Num país como o nosso, em que falar de corrupção é quase tão banal como discutir os feitos da Selecção, pode parecer redundante, inútil e até insultuoso que se refira a ciência como um bom palco de actividades de corrupção. Num país em que as suspeitas recaem, e de modo fundamentado diga-se!!!, sobre as autarquias, polícias, serviços públicos, agentes desportivos e actores políticos, a ciência será encarada pelo grosso da opinião pública como uma actividade marginal, caso de uma franja escassa da população, logo não meritória de atenção.
E que diabo, se se fala de uma presidente de câmara municipal que se pira para o Brasil em face de um processo de corrupção, para quê falar de meia dúzia de indíviduos acabrunhados de bata e óculos, enfiados nos seus laboratórios, quando podemos ter muito circo (e pouco pão, mas essa é uma discussão secundária...) com esta senhora? Porque ela até fala alto, com sotaque do Norte, gesticula, alegadamente não tem papas na língua, não é feia ou asquerosa, e teve a lata de roubar descaradamente, o que constitui por si só uma prova de testículos? Não, o que a gente quer é gajas destas, queremos lá saber da corrupção na ciência... Pelo menos, a avaliar pela reacção que esta temática desperta na generalidade da opinião pública, creio que reproduzo os pensamentos que correm pelos dois dedos de testa do cidadão nacional média. E se nem o Saldanha Sanches fala disto, então é porque isso é coisa pouca.
Mas aqui é que a opinião pública se engana. Se a opinião pública soubesse...
Por exemplo, se a opinião pública soubesse que cada projecto financiado pelo estado português pode chegar aos 200.000€, e que muitos deles são obtidos (eu diria até sacados) com expedientes emnos claros, então se calhar poderíamos já ter muitos sobrolhos franzidos.
Se a opinião pública soubesse o mal que estes professorzecos fazem ao país... então alguém começaria a pensar em pedir contas a alguém. O atraso estrutural que assola o nosso país em termos de educação tem pouco a ver com défice financeiro, mas sim com uma total incapacidade cultural em ultrapassar a herança do fascismo, do compadrio, da cunha, do beija-mão, da hierarquia fundamentada em pressupostos de superioridades e inferioridades, do classismo, de falta de competitividade e de competição, da contabilidade dos favores. Se se pensar que o nível de vida comparativamente mais baixo em que vivemos é o resultado de ausência de políticas de formação, nomeadamente ao nível científico (que é a alavanca do desenvolvimento das sociedades europeias normais, americana e japonesa) então todos poderíamos estar bem mais satisfeitos com os nossos serviços públicos de saúde, de segurança social, de protecção, de defesa do património cultural... Mas como alguns gostam de engrxar, e outros gostam de ser engraxados, junta-se a fome à vontade de comer: o que é de todos é simplesmente desbaratado para pagar favorecimentos e a manutenção do estatuto. Vejam o exemplo dos orçamentos das Universidades públicas: como se vai reduzir a dotação orçamental se se pretende manter este panelão gigante e sem controlo a partir do qual comem muitos afilhados? Com que cara vê o padrinho a redução do tamanho do panelão, ou o corte na quantidade de arroz que é disponibilizado por todos nós para alimentar a sua enorme, desmesurada, absurdamente grande família de parasitas?
Se a opinião pública soubesse que os seus impostos são canalizados para pagar mordomias verdadeiramente arábicas a alguns (poucos) eleitos rofessores do Ensino Superior público, garanto-vos que o bichinho tão nacional da inveja começaria a despertar da sonolência. Pelo menos esse despertaria.
Se a opinião pública tivesse acesso às contabilidades (que nem sequer são auditadas!!!, em pleno século XXI) dos projectos financiados pelos dinheiros públicos e visse almoçaradas e jantaradas pagas em marisqueiras, consertos de automóveis, computadores portáteis, aí já a expressão decerto mudaria para um inegável aumento do mau estar.
Se os contribuintes sopubessem que os seus impostos são utilizados para pagar salários a gente que só é funcionário público pela cunha ou pelo mais obsceno amiguismo, se soubessem que os concursos públicos de admissão à carreira docente (ou até de investigação) são invariavelmente viciados, a raiva começaria a tomar conta das consciências.
Se os pais deste país que suportam as depesas dos seus filhos nas Universidades soubessem que os mesmos que convencem, acolhem e "ensinam" os seus filhos (eu usaria mais o termo "iludir", porque estes de que falo são os verdadeiros mercadores de ilusões) são os mesmos que os escravizam em nome do "esforço que a ciência merece", então começaria a instalar-se um clima de motim.
Se os portugueses em geral soubessem que o Estado investe milhões de euros de dinheiros públicos em ciência que a única coisa que produz é engorda de curricula vitae, que não dá origem a rigorosamente nenhum conhecimento aplicável e útil, então a depressão começaria a ocupar o seu lugar junto da raiva.
Se os cidadãos nacionais tomassem noção do despesismo brutal em salários principescos, previlégios injustificados, esquemas dúbios, e arranjos mafiosos que muitos dos investigadores verdadeiramente terceiro-mundistas que dominam a noss praça científica se dedicam, então seria o descrédito total. Muito do que se anuncia na nossa comunicação social é um logro, não passam de palavras sem qualquer conteúdo. Vejo frequentemente expressões modernas como "dinamizar", "aprofundar", "estabelecer", "cooperar", nos mais variados contextos; são palavras que, regra geral, não transmitem uma noção de acção, de transformação. Servem o único propósito da cagança científica, do satisfazer a necessidade de se ouvirem a si mesmos e de se rodearem de assembleias de medíocres com os quais engrandecem os seus egos.
E conhecendo as realidades que conheço, não deixo de ficar com uma imensa ânsia de me transformar em Geppetto, aquela personagem criadora do Pinóquio: sentaria os mentirosos sobre o meu joelho e dar-lhes-ia todo o incentivo a que mentissem. Se ao menos não servisse para mais nada, podia ser que o nariz dos mentirosos servisse para desentupir esgotos. Ao menos, já estariam habituados a estar perto da porcaria.
E que diabo, se se fala de uma presidente de câmara municipal que se pira para o Brasil em face de um processo de corrupção, para quê falar de meia dúzia de indíviduos acabrunhados de bata e óculos, enfiados nos seus laboratórios, quando podemos ter muito circo (e pouco pão, mas essa é uma discussão secundária...) com esta senhora? Porque ela até fala alto, com sotaque do Norte, gesticula, alegadamente não tem papas na língua, não é feia ou asquerosa, e teve a lata de roubar descaradamente, o que constitui por si só uma prova de testículos? Não, o que a gente quer é gajas destas, queremos lá saber da corrupção na ciência... Pelo menos, a avaliar pela reacção que esta temática desperta na generalidade da opinião pública, creio que reproduzo os pensamentos que correm pelos dois dedos de testa do cidadão nacional média. E se nem o Saldanha Sanches fala disto, então é porque isso é coisa pouca.
Mas aqui é que a opinião pública se engana. Se a opinião pública soubesse...
Por exemplo, se a opinião pública soubesse que cada projecto financiado pelo estado português pode chegar aos 200.000€, e que muitos deles são obtidos (eu diria até sacados) com expedientes emnos claros, então se calhar poderíamos já ter muitos sobrolhos franzidos.
Se a opinião pública soubesse o mal que estes professorzecos fazem ao país... então alguém começaria a pensar em pedir contas a alguém. O atraso estrutural que assola o nosso país em termos de educação tem pouco a ver com défice financeiro, mas sim com uma total incapacidade cultural em ultrapassar a herança do fascismo, do compadrio, da cunha, do beija-mão, da hierarquia fundamentada em pressupostos de superioridades e inferioridades, do classismo, de falta de competitividade e de competição, da contabilidade dos favores. Se se pensar que o nível de vida comparativamente mais baixo em que vivemos é o resultado de ausência de políticas de formação, nomeadamente ao nível científico (que é a alavanca do desenvolvimento das sociedades europeias normais, americana e japonesa) então todos poderíamos estar bem mais satisfeitos com os nossos serviços públicos de saúde, de segurança social, de protecção, de defesa do património cultural... Mas como alguns gostam de engrxar, e outros gostam de ser engraxados, junta-se a fome à vontade de comer: o que é de todos é simplesmente desbaratado para pagar favorecimentos e a manutenção do estatuto. Vejam o exemplo dos orçamentos das Universidades públicas: como se vai reduzir a dotação orçamental se se pretende manter este panelão gigante e sem controlo a partir do qual comem muitos afilhados? Com que cara vê o padrinho a redução do tamanho do panelão, ou o corte na quantidade de arroz que é disponibilizado por todos nós para alimentar a sua enorme, desmesurada, absurdamente grande família de parasitas?
Se a opinião pública soubesse que os seus impostos são canalizados para pagar mordomias verdadeiramente arábicas a alguns (poucos) eleitos rofessores do Ensino Superior público, garanto-vos que o bichinho tão nacional da inveja começaria a despertar da sonolência. Pelo menos esse despertaria.
Se a opinião pública tivesse acesso às contabilidades (que nem sequer são auditadas!!!, em pleno século XXI) dos projectos financiados pelos dinheiros públicos e visse almoçaradas e jantaradas pagas em marisqueiras, consertos de automóveis, computadores portáteis, aí já a expressão decerto mudaria para um inegável aumento do mau estar.
Se os contribuintes sopubessem que os seus impostos são utilizados para pagar salários a gente que só é funcionário público pela cunha ou pelo mais obsceno amiguismo, se soubessem que os concursos públicos de admissão à carreira docente (ou até de investigação) são invariavelmente viciados, a raiva começaria a tomar conta das consciências.
Se os pais deste país que suportam as depesas dos seus filhos nas Universidades soubessem que os mesmos que convencem, acolhem e "ensinam" os seus filhos (eu usaria mais o termo "iludir", porque estes de que falo são os verdadeiros mercadores de ilusões) são os mesmos que os escravizam em nome do "esforço que a ciência merece", então começaria a instalar-se um clima de motim.
Se os portugueses em geral soubessem que o Estado investe milhões de euros de dinheiros públicos em ciência que a única coisa que produz é engorda de curricula vitae, que não dá origem a rigorosamente nenhum conhecimento aplicável e útil, então a depressão começaria a ocupar o seu lugar junto da raiva.
Se os cidadãos nacionais tomassem noção do despesismo brutal em salários principescos, previlégios injustificados, esquemas dúbios, e arranjos mafiosos que muitos dos investigadores verdadeiramente terceiro-mundistas que dominam a noss praça científica se dedicam, então seria o descrédito total. Muito do que se anuncia na nossa comunicação social é um logro, não passam de palavras sem qualquer conteúdo. Vejo frequentemente expressões modernas como "dinamizar", "aprofundar", "estabelecer", "cooperar", nos mais variados contextos; são palavras que, regra geral, não transmitem uma noção de acção, de transformação. Servem o único propósito da cagança científica, do satisfazer a necessidade de se ouvirem a si mesmos e de se rodearem de assembleias de medíocres com os quais engrandecem os seus egos.
E conhecendo as realidades que conheço, não deixo de ficar com uma imensa ânsia de me transformar em Geppetto, aquela personagem criadora do Pinóquio: sentaria os mentirosos sobre o meu joelho e dar-lhes-ia todo o incentivo a que mentissem. Se ao menos não servisse para mais nada, podia ser que o nariz dos mentirosos servisse para desentupir esgotos. Ao menos, já estariam habituados a estar perto da porcaria.
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