Friday, November 9, 2007

Comentário no Jornal Público 9/11/2007

Vou dar início a uma nova prática: sempre que comentar ciência em órgãos de comunicação social, colocarei aqui o post correspondente. Vou começar a fazê-lo porque lamentavelmente, o jornal Público, com um editorial outrora isento, alinho muito convenientemente pelo diapasão socrático, o que é o mesmo que dizer que, no âmbito da nossa Ciência, cala muitas vozes dissonantes. Como a blogosfera (ainda) é relativamente livre, escrevo simultaneamente aqui.

Como comentário à notícia que dava conta de uma acusação do Sr. Reitor da Universidade de Lisboa ao Ministro da Ciência, sobre a questão da desorçamentação das universidades em detrimento dos acordos firmados com instituições americanas (disponível em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1310104&idCanal=58):

"Eu encho-me de rir com a surpresa que o Sr. Jornalista quer fazer criar nos leitores. Toda a gente sabe que o meio universitário está absolutamente corrompido, a começar no MCTES e na Direcção Geral do Ensino Superior e a acabar nos alunos, sejam eles de licenciatura ou de pós-graduação. É um sistema que não é avaliado decentemente, que não estimula a concorrência e a competitividade sãs, que favorece o amiguismo e o compadrio... Há situações que são verdadeiros casos de polícia. Só que nada disso é novo, e o jornal Público (bem como muita da comunicação social portuguesa; já agora, tenhm por favor a decência de não me censurarem, como já aconteceu quando estou tão bem disposto como hoje) não investiga porque não quer!!!! Eu já me disponibilizei para dar dados, que funcionariam como provas irrefutáveis do total comprometidmento de muitos professores e cientistas da nossa praça com prática ilícitas ou moralmente condenáveis, e o que é que o Público fez? Rigorosamente nada. Ao menos que nos valham os blogues, como o scientias.blogspot.com que escrevo, que vai servindo para discutirmos num tom simpático as malfeitorias que se fazem em Portugal.Em relação ao assunto de hoje, tem toda a razão o Sr. Reitor: negoceiam-se contratos mirabolantes com os americanos (por mim, até podiam ser chineses, mas o facto é que são americanos - para não me acusarem de anti-americanismo) quando não são capazes de garantir o próprio financiamento nacional para os grupos de trabalho de excelência em Portugal!!! Haverá maior contra-senso??? Os leitores vão a www.fct.mctes.pt e vejam com os própiros olhos: concursos fechados em 30 de Setembro de 2006 ainda não foram avaliados!!! E os investigadores vivem de quê, no entranto. Sr. Ministro? Somos professores universitários e investigadores, mas não somos burros. Não nos leve a mal a franqueza, mas algo está profundamente errado com o que tem andado a fazer."

Monday, November 5, 2007

A epidemia de Santiago

Na ciência grassa uma epidemia de há alguns anos a esta parte que ameaça inquinar ainda mais o ambiente científico nacional. É particularmente evidente nas universidades e politécnicos privados em Portugal, onde muitos dos alegados doutores mais não são do que doentes terminais infectados pelo vírus debilitante de que vos quero falar no post de hoje.

Refiro-me ao vírus de Santiago de Compostela. Foi um vírus de comodidade, que se instalou progressivamente por aqueles que sonham com os prazeres dourados de um doutoramento, mas que as voltas da vida nunca permitiram a concretização desse sonho. Melodramático, belo esse sonho. Mas felizmente, o sistema de ensino nacional teve a virtude de impedir quem manifestamente não tinha qualidade de se doutorar, até que este vírus minou o pouco de bom que as universidades nacionais foram fazendo. E fê-lo de modo subreptício e lento, foi paulatinamente sendo instalado um clima de que "existia uma alternativa ao esforço", de que era possível, com pouco tempo e com alguma facilidade, frequentar umas aulitas, distribuir uns inquéritos, modelar umas ideias, fazer uma prelecção mais ou menos longa e entediante, sem contudo produzir resultados de monta, e pimba!!!, obter o tão desejado, o tão perseguido, o tão almejado grau de doutor. Pois, e tirar o lugar, e usurpar o mérito dos verdadeiros doutores. Porque o objectivo não é mais do que este: ter o grau para ganhar mais!!! "E a Ciência"? perguntarão vós. Eles querem lá saber da Ciência!!! Querem é massa!!!

Um colega, obviamente envergonhado, confessou-me uma vez ter-se inscrito num desses programas doutorais, que ele enaltecia como sendo "um destes doutoramentos feitos para quem tem mais o que fazer do que andar a perder tempo com investigação, adequado a pessoas com vida e com família, e que não exigia mais do que umas duas horas por semana". A sinceridade é um valor que prezo...

Hoje vivem-se tempos de rebaldaria, em que qualquer imbecil com o dinheiro para pagar a propina se acha no direito de se intitular "doutor" (de Santiago, naturalmente), mas sempre "doutor". E acham-se no direito de se equiparar àqueles que, de uma forma abnegada e dedicada frequentaram centros de investigação reputados em qualquer lado do Mundo, e que souberam o que foram as reais exigências da investigação científica de bancada durante anos a fio, que escreveram projectos científicos, que publicaram artigos, que patentearam bens e produtos, que se transformaram em Doutores por mérito próprio. Que estudaram, que se dedicaram, que criaram real conhecimento com o objectivo de o partilhar com a Humanidade... enfim, esses valores em desuso que assentam sobre o prazer do trabalho, da conquista, do objectivo atingido, da dignidade e do mérito.

O que é mais lamentável é que este País, ou os seus responsáveis educativos, não estabeleçam reais critérios distintivos entre os doutores reais e os do faz-de-conta. Os reconhecimentos tácitos chegam ao ponto de haver politécnicos privados em Portugal a oferecer no cardápio Doutoramentos (coisas que legalmente não podem fazer, devido ao simples facto de não constituirem ensino universitário) em "parceria" (como eu gosto deste conceito, que serve tantas vezes propósitos duvidosos ... estilo "fazes tu, usufruo eu") com a Universidade de Santiago de Compostela. Para além disto, que diz respeito ao meu país, também lamento que a universidade galega se preste a este tipo de papel, de agente contornador da lei portuguesa.

Não haja dúvida: estamos perante uma fraude, em larga escala, que favorece os incapazes. Onde se encontra a Ditecção Geral do Ensino Superior, e as mais altas instâncias do Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Basta de vigarices, basta de tolerarmos situações duvidosas e manifestamente deploráveis, que abastecem o País de incapazes graduados e enchem os corpos docentes de gente falsamente habilitada.

Tuesday, October 23, 2007

O circo e o pão

Como sou um comum mortal, e preciso de pão (leia-se, dinheiro) para prosseguir as minhas actividades científicas, passo pelo frequente calvário de tratar de assuntos junto do circo da omni-impotente Fundação para a Ciência e a Tecnologia, liderada pelo omni-ausente Professor Doutor João Sentieiro. Doravante, designarei o bicho pelo seu acrónimo, de FCT.

Pois bem, a FCT é uma instituição bancária, de duvidosa reputação e pouca estima pelos seus clientes. É assim que gosto de me referir a este conjunto de funcionários do Estado (que são diferentes do funcionário público: este gere o interesse público; o segundo acautela o interesse do Estado - como estão a ver são coisas muito diferentes, pois se pensarmos que no Estado estão muitos malfeitores...). A FCT assume-se como uma das maiores fraudes intelectuais do sistema político nacional: a instituição que paga para que se investigue, se aprofunde o conhecimento, e se gere tecnologia de ponta, é das mais abandalhadas que conheço. Infelizmente, é a arma financeira do Estado para estas andanças da Ciência, e como em Portugal ninguém (sem ser o Estado) financia ciência, lá temos nós de nos dedicar ao beija-a-mão periódico de submeter projectos para apreciação deste instituto.

Como muitos outros, submeto para lá projectos, mesmo sabendo que irão ser mal-avaliados, que as críticas que são colocadas são injustas e por vezes 100% incorrectas e só advêm do facto dos juris não terem tempo de ler convenientemente os projectos, que os recursos são intelectualmente desonestos, que os prazos nao existem, que as verbas são serão desbloqueadas (isto na remota hipótese de o projecto ser financiado) anos após o acordado. Normalmente, e como os projectos são imediatamente chumbados, nem temos esse problema: o que está resolvido, resolvido está, nem que seja da pior forma possível.

Mas eu quero é falar das minhas aventuras, não é descrever o modus operandi da FCT...

Como concorri, e como as críticas foram incorrectas, recorri da decisão. Portugal é um país (ainda é um país, ao contrário dos que acham que é um atoleiro, esses desiludidos) fantástico porque podemos viver uma vida na ilusão de que no recurso venceremos. Nem é unidos, nem o povo, nem nada que o valha, é no recurso!!! E como portuguesinho de gema, acredito no recurso, mas antes no recurso do que na Virgem, que nestas coisas da Ciência ainda é pior pagadora do que a FCT. E como recorri, quero ter o devido direito de saber quem me avalia. Não, creio não ter esse direito constitucional, não porque ele não me assista, mas porque a FCT não faz recursos - pelo menos em tempo útil. Infelizmente é uma constatação, corro sério risco de morrer de idade avançada antes de saber os resultados do recurso.

Veja-se: o concurso de que falo terminou à meia noite do dia 30 de Setembro de 2006, e após uma prorrogação excepcional do prazo, pois a FCT utiliza computadores doados pelo Projecto Apolo, esses mesmos que equipavam os módulos de alunagem da década de 60. Como os computadores deles não funcionaram, dilata-se os prazos de submissão das candidaturas on-line, para projectos cientificos. Ok, desta passa. Estamos no fim de Outubro de 2007 e ainda hoje não sabemos qual o destino final dos projectos submetidos nessa fatídica noite de 30 de Setembro de 2006. Um ano e um mês de espera. Pior: ninguém tem a mínima pista para quando os recursos (apesar de eu já ter recebido uma carta a dizer que o meu projecto iria ser re-avaliado brevemente; será uma indicação de que ainda não se esqueceram de mim? devo ficar satisfeito? no fim de contas, até gastaram um selo) nem tão-pouco se prevê qual a constituição do painel de iluminados nacionais que irá avaliar a minha candidatura. E porquê todo este chinfrim? Porque eu simplesmente NÃO CONFIO NOS MEUS COMPATRIOTAS. A razão, se bem que aparentemente mesquinha, é realmente pertinente: num mundo triste e cinzento como o da Ciência nacional, alguns iluminados não perderão uma única oportunidade de:
a) chumbar os projecots da alegada concorrência (neste caso, os meus)
b) roubar ideias
c) ver em que param as modas relativamete ao state of the art do que se propõe

A minha urgência em saber quem avaliará o recurso é óbvia: quero impedir que algumas individualidades tenham o prazer de avaliar a minha candidatura, porque não tenho qualquer motivo para acreditar na sua isenção, idoneidade, carácter, rectidão de postura, e já para não falar de conhecimento científico. E de acordo com o regulamento de avaliação, este sim, é um direito que me assiste.

Só que ninguém sabe quem avalia, ou quando serão as candidaturas avaliadas.

Outro assunto: para quando um novo concurso em todas as áreas científicas? "Não temos qualquer informação sobre isso", responderam-me. Como é possível termos um panorama científico sustentado com este grau de incerteza relativamente ao financiamento dos projectos? Se ninguém sabe quando vai existir novo financiamento, como poderemos manter grupos de investigação a trabalhar, que são constituídos por pessoas, que têm encargos, planos, projectos, sonhos legítimos de vida, aspirações a progressão na carreira? Nunca seremos competitivos enquanto a ciência nacional navegar à vista. É um escândalo que sejam anunciadas alegadas medidas de fundo (MIT, Carnegie Mellon, Fraunhoffer Institute), quando a coisa mais elementar, que é a de garantir uma periodicidade mínima de concurso a financiamento, está sistematicamente em causa. Mais: este é o motivo mais frequentemente apontado como desencorajador para a fixação de cérebros em Portugal, sejam eles imigrantes ou ex-emigrantes nacionais que pretendem voltar.

Se calhar temos de esperar mais dois anos: nas eleições, eles lembram-se de nós. E quem já esperou um, espera mais dois. No recurso.

Tuesday, October 2, 2007

País do faz de conta

Este é realmente o país do faz de conta, um país pequenino, parado no tempo, em que qualquer tentativa de crescimento se esborracha e esmorece perante a real crueza das instituições e da sua incompetência. As universidades públicas portuguesas criam monstros de dimensões atrozes, ou por motivações meramente políticas e estatísticas de conveniência ou de circunstâncias (como atingir pseudo-metas de desenvolvimento...), ou por birras pessoais dos trutas das cátedras, que se julgam arrogantemente detentores e donos do inalienável poder de criar licenciaturas para as quais não existe mercado de trabalho, ou que as flutuações sazonais ou "da moda" lançam no desemprego os recém-licenciados, porque simplesmente o país não precisa deles... Se calhar o país não precisa é de mais trutas, e devia zelar pela extinção progressiva dos que ainda temos, em vez de os acarinhar.

Depois do ovo chocado, nasce a cria do monstro, o tal que assumirá dimensões gigantescas, até para os limites geográficos do nosso país. Depois é ver estes reptilianos órfãos, estes recém licenciados, a emigrar, ávidos justamente daquilo que o país nunca teve para lhes oferecer: empregos condignos, em condições compatíveis com a sua área de actividade e formação, e bem pagos. Este país vive o síndrome da forretice, do investimeno de vista curta, da miséria natural - paga-se mal, e mais mal se pagaria se não assumisse dimensões de escãndalo haver licenciados a 600€ por mês.

Pois bem, o monstro truta choca o ovo, abre a casca e condiciona o desgraçado recém licenciado a acreditar que não existem alternativas para aquilo que ele mesmo, monstro, criou. Vergonha. Há faculdades e cursos em que é a regra a ausência de utilidade prática dos seus licenciados. Mas as vagas contiunuam a abrir, todos os anos. Na área das ciências biológicas e exactas (que me é particularmente cara...) veja-se cursos como física, matemática, biologia, bioquímica, biologia marinha, ciências do meio aquático. Qualquer licenciado proveniente destes cursos me merece o máximo respeito, e não julguem que desdenho. Mas decerto serão os próprios licenciados provenientes destas licenciaturas a assumir que não existe verdadeiro emprego, a não ser em claras e flagrantes excepções. E chega-se precisamente onde eu queria chegar.

Hoje em dia, muito do que se apregoa como emprego não o é. Ser cientista, na maioria das vezes, é ser um assalariado num regime ainda mais precário que a precariedade socialmente aceite, que é a do regime de recibos verdes. Mas quando o ícone que os alunos visualizam é o cientista, romantizado, ostracizado, abnegado, dedicado até à exaustão, é fácil de compreender que esta visão possa seduzir, e transformar-se num objectivo de vida. E o monstro truta da cátedra alimenta o vício, força a demonstração que "é a única via, isto está muito mal, não há emprego..."
Aliás, o interesse do monstro não é ingénuo, nem pode ser... quando ele influencia, fá-lo no seu próprio interesse: pode ser que ganhe mais uma orientação, mais uma publicação, mais um degrau no qual se apoie para as provas de agregação.

E depois a questão das vocações... Muitos dos que conheço não têm nem queda, nem jeito, nem disposição, nem vocação, nem ambição, nem possuem sequer a capacidade intelectual (a verdade tem de ser dita, e é politicamente incorrecto dizer que há idiotas, mas que os há, há!!!) para serem cientistas. Só o são porque não têm alternativas. Ou porque o monstro truta da cátedra já fez, de forma muito competente, o seu papel de sedutor/arauto da desgraça. Mas onde é que já se viu sítio onde, para se ser o melhor, não se tem vocação para isso?

Como queremos qualidade? Não podemos querer. E é ao monstro truta da cátedra que temos de pedir responsabilidades.

Monday, September 24, 2007

A seriação não é séria

Começo por pegar num tema que foi levantado pela Rita, no seu comentário a um destes posts: a necessidade de emigrar por ausência de financiamento.

Nada é mais castrante do que não confiarem em nós. E nada é mais intelectualmente castrante do que nos considerarem inferiores com base em critérios mais do que discutíveis. O estado português, por intermédio da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), administra os dinheiros adstritos aos trabalhos científocos a desenvolver em Portugal. E esta fundação, a FCT, confia a responsabilidade de avaliar o mérito de candidatos a financiamento (sejam eles cidadãos individuais, grupos de cidadãos, ou centros de investigação) no sentido de os seriar, com base em alegados critérios de mérito e de qualidade. Pois bem, estamos muito longe da verdade, embora eu próprio reconheço que w FCT já enveredou pelo bom caminho, se bem que muito lentamente, com a obrigatoriedade de avaliar projectos por intermédio de jurís internacionais.

A questão está nos critérios, pois ninguém me pode garantir um sistema 100% justo. Mas eu nem pretendo um sistema 100% justo, só pretendo um que seja revisto sempre que uma falha é observada, coisa que não se passa nos concursos desenvolvidos na FCT. O critério-mor, para atribuição de bolsas individuais de doutoramento, é a média final de licenciatura, que é um critério objectivo, e de fácil comparação. No entanto, surjem sistemática e inevitavelmente, complicações várias na aplicação deste critério, pois as médias são valores numéricos, que variam ao longo dos anos, e de curso para curso, e de universidade para universidade. Não é possível dizer que alunos com iguais médias mas provenientes de licenciaturas diversas valem o mesmo. Por vezes, têm valores intelectuais muito diferentes e que se podem constituir como críticos para a qualidade dos trabalhos a desenvolver. E utilizar este critério como o mais importante num processo de avaliação de mérito, é, no mínimo, estúpido - 1º, porque é falacioso; 2º, porque é injusto; 3º, porque pode ser falseado ou torneado por inflação artificial das notas; 4º, porque comprovadamente dá problemas, e ninguém tem a coragem política ou se dá ao trabalho de o mudar.

Desenganem-se aqueles que acham que o Estado é pessoa de bem. O estado compactua com injustiças, e longe de as mudar, absorve-as como parte integrante do processo, e faz um finca-pé tremendo no sentido de impedir a mudança. Resultado: os cérebros são expulsos, ou fogem porque não conseguem financiamento. Em contrapartida, aqueles cursos em que 90% dos alunos tem média de licenciatura igual ou superior a 16,0 valores, vêem os seus pupilos financiados, em detrimento de outros quiçá com melhores qualidades para desenvolver ciência. Como é possível este estado de coisas, sem que haja um critério uniformizador no processo de avaliação? Compara-se o incomparável para beneficiar por vezes os menos aptos. Claramente!

Assumo que comparar valores seja mais fácil para os avaliadores da FCT, mas não chega. Isso será o mesmo que reduzir as suas funções a meros contabilistas, coisa que não aceito. Primeiro, porque são muito bem pagos para avaliar as coisas, e segundo porque são professores universitários com conhecimento de causa.

Monday, September 17, 2007

A noção do mérito

Recentemente tive o prazer de ler uma reportagem sobre vários cientistas nacionais, radicados há já largos anos no estrangeiro (nomeadamente em países anglo-saxónicos) que ousaram regressar a Portugal, no sentido de exercer a sua actividade profissional de investigador. Li com toda a atenção do Mundo as considerações, as experiências, as vivências, as opiniões, os motivos dos respectivos regressos e as dificuldades antecipadas/esperadas num país de incomensurável atraso intelectual que é o nosso. E para cabeçalho desta reportagem, e emoldurada a letras pomposas, ficaram sempre as motivações das instituições nacionais que os convidaram e acolheram, como "excelência", "criação de grupos de elevada qualidade" e demais considerações superlativas no sentido de serem apostas ganhas à partida.

Pois bem, eu não acho que estes cientistas dos quais a reportagem falou sejam bons; eu tenho a certeza de que são excelentes. E compreendo e aceito com entusiasmo que se integrem no Sistema Científico Nacional como qualquer outro bom cientista que possa existir. Para que conste...

Agora o reverso da medalha: será que a excelência só existe lá fora, no tão português emigrante que regressa? Quantos cientistas excelentes existem em Portugal, e que pelos mais variados motivos optam por se doutorar nas nossas Universidades e nos nossos centos de investigação, e que não almejam nunca a terem a fama e o proveito dos filhos pródigos? Aqueles aos quais nunca são dadas condições de brilhar em pé de igualdade? Atente-se que não retiro aos cientistas que voltam qualquer mérito, antes me ocupo a dizer que o sistema nacional (conhecido por não premear o mérito nem incentivar a criatividade, a inovação e a inventividade) os impede de assumirem o seu real valor, caso nã emigrem. Os cientistas que regressam tiveram o mérito, a sorte ou o feliz acaso de se integrarem em equipas que lhes permitiram crescer do ponto de vista intelectual e científico, e assumirem-se com líderes e cientistas com inegável qualidade. Caso tivessem permanecido em Portugal, seriam mais um número no mar de investigadores da penumbra, aos quais os chefes prolongam os planos de trabalho para usufruirem dos "doces prazeres da escravatura". Portugal não é um país justo: em Portugal minam-se as ideias, e reduzem-se os méritos a mesquinhas relações de poder parasitário e contraproducente. A qualidade, principalmente quando emana de um subalterno, é inimiga do estatuto, torna-a um alvo a abater, é motivo de silenciamento e de ostracismo e exclusão. A qualidade é inimiga da "nossa" perfeição, porque o sistema perfeito nacional é aquele em que nada se questiona, nem tão pouco a estupidez.

Pergunta: não haverá gente boa em Portugal? Claro que há. Será que seremos tão provincianos ao ponto de achar que em Portugal, e para se ser bom, temos de arrecadar o conhecimento, o mérito e a reputação lá fora, para depois re-ingressarmos pela porta grande e com tapete vermelho no sistema? Será que embarcamos burros e voltamos génios? Será que ainda não ultrapassamos a síndrome da mala de cartão, em que tudo o que aparenta ser estranjeirado é bom? Será que só nos poderemos assumir na qualidade depois de nos sujeitarmos ao Purgatório do exílio?

Quanto perde o país com este espírito? Imenso, uma quantia avassaladora e inimaginável de know-how. Quem ganha com isto? Os medíocres.

Uma nota curiosa: recebo quase diariamente e-mails a pedir a divulgação de posições de docência de Universidades nos mais variados recantos do Mundo. Nunca recebi uma única para uma posição de docência em Portugal. Porque será? É a tal noção do mérito que ainda não temos, e que não teremos tão cedo.

Sunday, September 2, 2007

Ainda as responsabilidades do Estado

Nem mesmo o mais fiel acólito da ideologia neo-liberal gostaria de ver uma sociedade ocidental totalmente desregulamentada. O papel do Estado é assim fundamental, quanto mais não seja na harmonização e arbitragem das relações entre os cidadãos. Só assim se justifica que existam tentativas de concertação social, em rondas negociais anuais, que visem o estabelecimento de mútuo acordo dos assuntos que dizem respeito ao trabalho. A partir dessas rondas, são adoptadas resoluções e, acima de tudo, há preceitos que ganham força de lei, com o surgimento da imprescindível legislação laboral.

Mais uma vez, na Ciência, não existe nada disto. E até certo ponto, existiu (e chamo a atenção para o tempo verbal - no passado) uma justificação aparente para esta questão. Quando o financiamento da ciência era uma questão absolutamente marginal na nossa sociedade, eu até poderia aceitar que a regulação da sua actividade fosse incipiente. Quando o Estado financiava a actividade de algumas dezenas ou pouquíssimas centenas de indíviduos, e ainda por cima com uma quase garantia de empregabilidade no final do período financiado, o cenário das bolsas era, DE FACTO, transitório. Esta natureza fez com que a necessidade de regulamentação das relações nunca fosse assumida. Mas agora???? O Estado, no que à investigação nacional diz respeito, é o maior empregador nacional, financiando directamente largos milhares de investigadores. Assim, não é de todo aceitável que a instituição Estado se divorcie do seu papel de parceiro social e ignore, de forma sistemática e com o maior dos descabidos descaramentos, esse seu papel. Modernidade, equidade e justiça são conceitos que não se coadunam minimamente com abusos próprio da uma ditadura sul-americana, e que o Estado permite diariamente nas suas próprias instituições de investigação científica. E vejam: apregoando bandeiras como as do choque tecnológico, parcerias com MITs e Carnegie Mellons, acordos com Fraunhofer Institutes...

O trabalhador da ciência nunca é reconhecido como tal, e a própria terminologia "trabalhador"constitui verdadeiro cavalo de batalha há mais de uma década para a nomenklatura científica nacional, e apesar de sérias recomendações da União Europeia no sentido de se considerar estes trabalhadores como detentores dos direitos e garantias de todos os demais. E a estratégia é simpes: é a da avestruz, se o problema não se vê, então é porque não existe; se o investigador não é um trabalhador, então não tem os direitos dos trabalhadores. Simples, e inovocam-se argumentos giríssimos, como o facto de que o investigador científico está "em formação". Se virmos que, hoje em dia, todas as estratégias empresariais e outras, falam de aprendizagem ao longo da vida, posso concluir que o próprio Ministro da Ciência estará em formação - logo, não deve receber um salário, mas antes uma bolsa, e a 12 meses... de 745€ mensais + seguro social voluntário indexado ao salário mínimo...

Mas isto até nem é o mais grave. O mais grave é a total falta de protecção social. E até calha bem que a questão da flexisegurança esteja em discussão quase permanente em Portugal (só para situarmos o conceito), porque na Ciência o que existe é a flexi-insegurança, e por total omissão do Estado. O Estado dá dinheiro para que se investigue, mas não controla minimamente as relações que se estabelecem dentro dos próprios laboratórios. E num país como o nosso, de saudosistas e aspirantes a Salazares, desregulamentar é o mesmo que abrir a porta a todas as formas de exploração e de abuso. É confrangedor observar a situação de algumas instituições de investigação, integral ou parcialmente financiadas pelo Estado (alegadamente para servir "os interesses estratégicos nacionais") em que os chefes são imperadores de algibeira, mandando e desmandando, decidindo arbitrariamente qual o futuro dos seus colaboradores, e sem precisar de dar qualquer justificação para os seus actos. Para despedir um bolseiro do Estado, é tão simples como uma carta dirigida à entidade financiadora do próprio Estado - e está o gajo na rua, limpinho!!! E estas cartas são instrumentalizadas, na base do "ou te portas bem, ou como eu decido a meu bel-prazer, tens de ter cuidado". E ninguém pede contas, ninguém investiga as razões do conflito, ninguém arbitra, ninguém define compensações para a parte que mais vulgarmente sai lesada que, é a do trabalhador da ciência, naturalmente.

Se for ao contrário... O Estado criou uma entidade virtual, que deveria apurar as reais condições em que o conflito existiu. No entanto, atentem por favor nas minhas palavras, pois é uma entidade completamente virtual, nunca regulamenteda, que nunca vi em acção. Agora despedimentos baseados em critérios abusivos e em resultado de abusos de poder discricionário, são mais do que muitos.

No próximo post falarei das péssimas condições em que alguns grupos de trabalho, pagos pelo Estado, trabalham, com óbvio prejuízo da saúde dos investigadores.