Pois é, e está chegado o tempo de falarmos de soluções. Soluções para lutar contra este estado de coisas. Gostaria assim de congregar, sob um mesmo chapéu, todos os cientistas honestos. Os outros estão nas cátedras... e noutros sítios.
Muitas vezes, no decorrer de discussões mais ou menos acaloradas com os meus colegas docentes e bolseiros, depois de uma sessão em que carpimos todos as mágoas e estabelecemos todas as comparações deste panorama com o fascismo, surge invariavelmente a questão: "mas afinal o que é que nós podemos fazer?"
A primeira coisa é debater estes assuntos. Sem haver a certeza de que isto é generalizado, de que a corrupção se instalou, de que existe falta de qualidade em muitas das nossas vacas sagradas que invariavelmente aparecem na televisão, então nunca poderíamos concluir que temos um problema. Qualquer participante de grupos de discussão de problemas sabe que o primeiro passo para a sua resolução é assumirmos que estamos, de facto, em luta com um problema. Creio ser já ultrapassada essa fase, pois a seriedade da questão do atraso estrutural do nosso país em termos científicos é flagrante.
Depois, o segundo passo consiste, na minha opinião, na denúncia de alguns casos demasiado escandalosos para passarem impunes. E quando falo de denúncias falo ao mais variado nível: quanto tiver acesso a casos documentados de corrupção (e acreditem que é só uma questão de tempo até os termos) farei uma exposição ao Senhor Procurador Geral da Républica, Dr. Pinto Monteiro. Ou isso ou enviarei um envelope cheiinho e gordinho à Polícia Judiciária, e caso fique com a sensação de que não hÁ desenvolvimentos satisfatórios, enviarei cópia à comunicação social. Infelizmente, e aqui falo com experiência própria, a comunicação social em Portugal aprecia escândalos de futebol, de costumes, de sexualidade alegadamente desviante, de corrupção nas obras públicas e problemáticas de fundo de danças de cadeiras parlamentares, como viagens fantasma e afins; já sugeri a vários órgãos de comunicação social que façam investigações sobre a temática da corrupção na ciência, e inclusivamente predispus-me a dar dados que lhes faciliariam o processo, e até hoje nada! Mas não desanimei, naturalmente, pois o objectivo de trazer à barra as malfeitorias de décadas, e as consequências inestimáveis e incalculáveis para este País que daí advieram, são de extrema importância.
Outra resposta assenta na organização de um processo de resistência informado. Se estas dicussões não são tidas, se os alunos que ingressam na investigação não sabem o que se passa, temos aqui terrenos férteis para a instauração de um ditadura subterrânea, de silêncios comprometidos. Obviamente, este último ponto conta com a vontade de as pessoas em serem informadas; conheci muita gente que preferia viver na ignorância do que ter conhecimento e ter de tomar uma atitude. Eu sinceramente acredito que é preferível saber, do que não saber, com eventual sacríficio no nosso bem-estar e do nosso tempo. Mas será que estaremos todos dispostos a perder a face todos os dias, e a sermos vigarizados com os argumentos mais absurdos que visam somente beneficiar sempre os mesmos? Não tenho muita afinidade para fazer figura de parvo...
Torna-se hoje absolutamente necessário criar um movimento de fundo que exija mobilização. Mobilização de docentes, de bolseiros, de investigadores, de técnicos, de todos os que, directa ou indirectamente, estão envolvidos nisto de fazer Ciência de forma honesta. E este movimento de fundo terá de servir para exigir, junto do Estado Português, que audite contas de projectos, que exclua prevaricadores e vigaristas, que faculte critérios de seleccão de paineis de avaliadores, que explicite muito bem quais os mecanismos que permitiram que um dado júri tenha sido responsável por esta ou aquela avaliação. Para por fim à promiscuidade. Depois, temos igualmente de exigir ao Estado Português que tenha a frontalidade e a decência de deixar de patrocinar ad eternum e sem discussão as iniciativas de autopromoção pessoal das vacas sagradas, nomeadamente por intermédio dos órgãos de comunicação social sob a alçada da tutela pública. Quem conseguirá conceber, no seu perfeito juizo, que um físico detenha um espaço de discussão pública, na televisão do Estado, sobre biologia? Por muito respeito que eu queira ter pelas pessoas, não consigo tê-lo quando vejo uma ascensão mediática meteórica por vezes baseada em pouco mais do que uma série bem encadeada de lugares comuns.
Mais sugestões... dou amanhã
Monday, March 31, 2008
Friday, March 28, 2008
O que há de bom
Por vezes, sou questionado se tudo o que existe na Ciência nacional é mau. Respondo invariavelmente que não, embora o que existe de mau seja por vezes péssimo, e quase destrói o frágil equílibrio entre o bem e o mal que é apanágio de todo o universo.
O que há de bom na nossa Ciência são as crianças. É verdade. Com isto estou a incluir nesta definição de "crianças" a enorme quantidade de jovens recém-licenciados que, imbuídos de um espírito de sacrífico enorme, se dedicam a gastar os melhores anos das suas vidas às actividades científicas.
Temos de tudo: os idealistas, que acreditam que a Ciência é o caminho do progresso (sub-categorai na qual sempre incluí), e que o conhecimento matará a fome, resolverá os problemas ambientais, curará todas as doenças e será responsável, em última análise, por uma maior sensação de bem- estar a toda a população humana e ao resto do Mundo. Temos também os acidentais, aqueles que até tiveram experiências positivas (ou não) no mundo do trabalho, mas decidiram correr o risco de se dedicar à Ciência, para viverem mais uma actividade. Há os conformados, que só estão na Ciência porque o País os atraiçoou, ao levá-los a acreditar que a licenciatura pela qual optaram teria uma saíde profissional condigna; por vezes, nem saída profissional tem, quanto mais condigna. Há os carneiros, que fazem Ciência porque os seus colegas também a fazem, e todos juntos constituem a manada que ouviu atentamente os ensinamentos de todos os docentes e chefes e cumpre à risca as instruções de serem eternas virgens, a quem só a Ciência interessa; renegam á família, ao dinheiro, aos prazres da vida, e fazem Ciência, e olha de soslaio e com desdém os outros, os normais. Há os incautos, que até tinham planos de vida, mas de bolsa em bolsa foram esgotando os seus sonhos, e foram passando os anos, até se apanharem enredados numa situação da qual não há escapatória. Há os brilhantes, os que emigram, os que são disputados por todos os grupos; quase invariavelmente, são os mesmos que o País vai buscar anos depois, e com fausto e confetis, lhes paga um laboratório no IGC.
Todos juntos, constituem uma turba de milhares de jovens inteligentes, a quem o País deve muito, regra geral, e nunca reconhece. São mal pagos, trabalham horas a mais, nem sequer têm vínculos, estão desorganizadas como classe, vivem em casa dos pais, alegram-se com pouco (basta uma publicação e são os mais felizes da Terra), não têm direitos nem regalias sociais, são esquecidos ou desprezados pelas estruturas para as quais contribuem gerando Ciência, são a espinha dorsal do Sistema Científco Nacional, dão aulas muitas vezes de borla (são uma das costelas do Ensino Superior Público), sofrem barbaridades atrozes na Segurança Social, vivem sistematicamente a prazo, lutam entre si pela obtenção de uma bolsa de 745€ mensais, e são, acima de tudo, o grande depósito da esperança e da capacidade criativa do nosso panorama científico. Por isso, lhes tiro daqui o meu chapéu; posso discordar com muito do que ouço dos meus bolseiros, mas sou o primeiro a reconhecer-lhes o direito a existisrem com dignidade. Porque são o que de melhor este país tem. Sem sombra de dúvida.
Pelo menos até aos trinta anos, depois a maioria transmuta-se - passam a "chefes".
O que há de bom na nossa Ciência são as crianças. É verdade. Com isto estou a incluir nesta definição de "crianças" a enorme quantidade de jovens recém-licenciados que, imbuídos de um espírito de sacrífico enorme, se dedicam a gastar os melhores anos das suas vidas às actividades científicas.
Temos de tudo: os idealistas, que acreditam que a Ciência é o caminho do progresso (sub-categorai na qual sempre incluí), e que o conhecimento matará a fome, resolverá os problemas ambientais, curará todas as doenças e será responsável, em última análise, por uma maior sensação de bem- estar a toda a população humana e ao resto do Mundo. Temos também os acidentais, aqueles que até tiveram experiências positivas (ou não) no mundo do trabalho, mas decidiram correr o risco de se dedicar à Ciência, para viverem mais uma actividade. Há os conformados, que só estão na Ciência porque o País os atraiçoou, ao levá-los a acreditar que a licenciatura pela qual optaram teria uma saíde profissional condigna; por vezes, nem saída profissional tem, quanto mais condigna. Há os carneiros, que fazem Ciência porque os seus colegas também a fazem, e todos juntos constituem a manada que ouviu atentamente os ensinamentos de todos os docentes e chefes e cumpre à risca as instruções de serem eternas virgens, a quem só a Ciência interessa; renegam á família, ao dinheiro, aos prazres da vida, e fazem Ciência, e olha de soslaio e com desdém os outros, os normais. Há os incautos, que até tinham planos de vida, mas de bolsa em bolsa foram esgotando os seus sonhos, e foram passando os anos, até se apanharem enredados numa situação da qual não há escapatória. Há os brilhantes, os que emigram, os que são disputados por todos os grupos; quase invariavelmente, são os mesmos que o País vai buscar anos depois, e com fausto e confetis, lhes paga um laboratório no IGC.
Todos juntos, constituem uma turba de milhares de jovens inteligentes, a quem o País deve muito, regra geral, e nunca reconhece. São mal pagos, trabalham horas a mais, nem sequer têm vínculos, estão desorganizadas como classe, vivem em casa dos pais, alegram-se com pouco (basta uma publicação e são os mais felizes da Terra), não têm direitos nem regalias sociais, são esquecidos ou desprezados pelas estruturas para as quais contribuem gerando Ciência, são a espinha dorsal do Sistema Científco Nacional, dão aulas muitas vezes de borla (são uma das costelas do Ensino Superior Público), sofrem barbaridades atrozes na Segurança Social, vivem sistematicamente a prazo, lutam entre si pela obtenção de uma bolsa de 745€ mensais, e são, acima de tudo, o grande depósito da esperança e da capacidade criativa do nosso panorama científico. Por isso, lhes tiro daqui o meu chapéu; posso discordar com muito do que ouço dos meus bolseiros, mas sou o primeiro a reconhecer-lhes o direito a existisrem com dignidade. Porque são o que de melhor este país tem. Sem sombra de dúvida.
Pelo menos até aos trinta anos, depois a maioria transmuta-se - passam a "chefes".
Wednesday, March 26, 2008
É estranho ninguém achar estranho
Hoje (26/3/2008), para corroborar as minhas afirmações de que ao Público interessa tudo menos questionar a política científica deste Governo, convido todos os leitores a dar um pulo à página web desta publicação. Por favor, dirijam-se à secção da Ciência, e vejam quantas notícias estão em arquivo. De entre essas, façam por obséquio o exercício académico de ler as notícias. Temos notícias desde 10/1/2008. Nem uma é sobre a situação de atoleiro no qual a nossa ciência vive. Nem uma notícia é comentada de forma mais assertiva. Nenhuma notícia é minimamente discutível, são todas sobre factoes científicos indesmentíveis. Onde está o espaço democrático da imprensa, quando tudo o que gera uma discussão saudável é liminarmente eliminado, para dar sensações falaciosas de unanimismo? Será que está tudo tão bem como o MCTES apregoa, quando as fugas de cérebros e os atentados à democracia nos nossos centros são diários? Onde está o papel de investigação da imprensa, de modo a denunciar as razões fundamentais do estado caótico que os nossos pensadores vivem hoje em Portugal e do atraso estrutural da nossa economia? Será que ninguém considera estranho este comportamento presumivelmente visionário e de fausto contido, respeitoso, de quem se dá ares de muito trabalhar, que acompanha todas as iniciativas deste governo, juntamente com Cãmaras, holofotes, tripés e microfones?
Eu desconfio que se gasta mais em beberetes e jantaradas para divulgar as iniciativas junto de centenas de convidados estrangeiros do que a financiar os projectos inscritos nas próprias iniciativas.
Eu desconfio que se gasta mais em beberetes e jantaradas para divulgar as iniciativas junto de centenas de convidados estrangeiros do que a financiar os projectos inscritos nas próprias iniciativas.
Tuesday, March 25, 2008
Breve exemplo de como o mal compensa
Nos concursos do Compromisso com a Ciência, em que se prevê a contratação de 1000 doutores para os centros científicos nacionais, existe um critério quanto a mim altamente discutível, que é o da mobilidade dos investigadores: premeia-se quem se doutorou e/ou desenvolveu trabalho científico num centro que não aquele para onde se concorre.
Ora vejamos como alguns figurões da nossa praça contratam os seus apaniguados: enviam o seu discípulo para um outro grupo, com o qual mantêm relações previligiadas e íntimas, até. Esse período de estadia é normalmente curto, mas mesmo assim movem-se influências para garantir que é acompanhado de uma bolsa de pós-doc. Findo o período do concurso para investigador auxiliar, que pode ir até alguns meses, o filho pródigo regressa, com "mobilidade" na bagagem. Um investigador móvel é sempre melhor do que um imóvel. E assim fica com o lugar.
Satisfeitos? É que isto é de uma simplicidade atroz, e logo de uma beleza estonteante.
Ora vejamos como alguns figurões da nossa praça contratam os seus apaniguados: enviam o seu discípulo para um outro grupo, com o qual mantêm relações previligiadas e íntimas, até. Esse período de estadia é normalmente curto, mas mesmo assim movem-se influências para garantir que é acompanhado de uma bolsa de pós-doc. Findo o período do concurso para investigador auxiliar, que pode ir até alguns meses, o filho pródigo regressa, com "mobilidade" na bagagem. Um investigador móvel é sempre melhor do que um imóvel. E assim fica com o lugar.
Satisfeitos? É que isto é de uma simplicidade atroz, e logo de uma beleza estonteante.
A avaliação II
Eu conheço grupos de investigação em que lamentavelmente as publicações são encaradas como uma obrigação dos mais novos e um direito dos mais velhos. Conheço grupos em que um dado indíviduo, nos idos do arroz de quinze, obteve verba para adquirir um equipamento, e logo todos os artigos têm de levar o nome dele. Conheço outros grupos em que nem sequer se equaciona que não seja o (ou a) chefe a assinar. Conheço grupos em que mesmo que haja alguém que nada tenha feito pelo artigo, é considerado um direito inalienável colocar lá o seu nome, por pertencer ao grupo. Conheço também as deferências quase estatutárias, em que o chefe tem como seu o direito de assinar sempre, independentemente de nem sequer conhecer o primeiro autor do trabalho. Conheço grupos em que a ordem dos autores é estabelecida por ordem alfabética!!!, quando toda a gente sabe que se ser 1º ou último autor são coisas diferentes. Conheço grupos em que cientistas que tiveram um desempenho de mérito são colocados nos agracedecimentos, por questões de mera lógica política dentro do departamento. Conheço grupos em que o chefe, e o chefe do chefe, e o seu respectivo chefe, e se calhar o chefe deste, têm nome garantido na publicação, somente por serem "chefes". E na função pública. Esta lógica, a ser subvertida e caricaturizada, garantiria ao Presidente da Républica um curriculum vitae invejável, pois é o chefe de todos os chefes. Il capo di tutti capi.
Creio portanto que haja muitas formas de "lavar" a publicação de todas estas ignomínias, e adoptar um sem número de critérios de avaliação objectivos e credíveis, mas se há gente que não tem vergonha na cara para fazer estas coisas, decerto não a terão para mentirem com quantos dentes tenham, e continuarem a tentar ludibriar o sistema. É que há gente capaz de uma inventividade maquiavélica extraordinária. Por isso acredito que só com a instituição de uma lógica de denúncia, em que sejam factualmente comprovados os factos, seja possível pôr termo a esta absoluta loucura. Porque o que está em causa é a verdade, e avaliações que tenham por base critérios tão claramente falseados serão inevitavelmente enganadoras e geradores de conflitos.
Acabei de saber agora que a FCT tem uma base de dados onde são compilados dados sobre os atropelos que alguns investigadores da nossa praça cometem: contra os alunos, contra os editais, contra os regulamentos, contra o Orçamento de Estado, contra o património público, contra as regras de elegibilidade de despesas. E pelos vistos, a coisa funciona, pois este historial de incumprimentos começa a ser utilizado pelos avaliadores dos projectos na hora de conceder verbas. Começa a compensar ser honesto, e acima de tudo a não estar calado.
Creio portanto que haja muitas formas de "lavar" a publicação de todas estas ignomínias, e adoptar um sem número de critérios de avaliação objectivos e credíveis, mas se há gente que não tem vergonha na cara para fazer estas coisas, decerto não a terão para mentirem com quantos dentes tenham, e continuarem a tentar ludibriar o sistema. É que há gente capaz de uma inventividade maquiavélica extraordinária. Por isso acredito que só com a instituição de uma lógica de denúncia, em que sejam factualmente comprovados os factos, seja possível pôr termo a esta absoluta loucura. Porque o que está em causa é a verdade, e avaliações que tenham por base critérios tão claramente falseados serão inevitavelmente enganadoras e geradores de conflitos.
Acabei de saber agora que a FCT tem uma base de dados onde são compilados dados sobre os atropelos que alguns investigadores da nossa praça cometem: contra os alunos, contra os editais, contra os regulamentos, contra o Orçamento de Estado, contra o património público, contra as regras de elegibilidade de despesas. E pelos vistos, a coisa funciona, pois este historial de incumprimentos começa a ser utilizado pelos avaliadores dos projectos na hora de conceder verbas. Começa a compensar ser honesto, e acima de tudo a não estar calado.
Monday, March 24, 2008
A avaliação
A questão das avaliações é de todo pertinente, e talvez seja o assunto mais pertinente que me ocupa presentemente. Sem aferição da qualidade não será nunca possível melhorar, nem estabelecer patamares de justiça, nem distinguir os "enchedores de chouriços" das mentes criativas. E esta é daquelas discussões que creio fazer hoje todo o sentido e cada vez mais, pois a competição e a competitividade fazem com que seja necessário instituir ferramentas objectivas, idóneas e imediatas de conhecer e reconhecer a qualidade de quem faz (ou diz que faz) Ciência.
O critério da publicação é de facto incontornável. Por muito que eu possa objectar, e decerto que muitos objectarão, a questão de sermos reconhecidos pelos nossos pares, permitindo-nos aceder à internacionalização, é dos critérios mais importante no processo da avaliação dos investigadores. É natural que toda a gente conheça os autores da "Ciência a metro", do "muda o bicho e publica o mesmo", dos "chouriços" e de toda essa parafernália de instrumentos de abuso com que alguns vão ludibriando as intenções primárias dos avaliadores. Apesar de eu tender a somente reconhecer publicações em revistas internacionais com avaliação pelos pares e naturalmente indexadas, tenho de reconhecer tacitamente a falha deste sistema. Porque também todos deveremos conhecer exemplos de conversas de corredores em que alguém diz que publica sem dificuldade devido ao facto de ser amiga íntima do editor da revista X ou Y. Mas como não existem sistemas perfeitos, e este apesar de tudo não é totalmente imperfeito, eu vou aceitando-o, na convicção de que a avaliação do desempenho não se faz só por aqui.
Mais parâmetros de avaliação:
O número de alunos em orientação ou co-orientação. O número de citações das publicações, e o seu factor de impacto (normalizado para a área científica em questão). O sucesso ou insucesso das teses de doutoramento, com avaliação das taxas e motivos de desistência (para excluir casos de despotismo que todos ouvimos falar). O tempo que leva, em média, a que alunos de doutoramento obtenham o grau, de modo a evitar aproveitamentos ilegítimos por parte dos orientadores sem qualidade. O número de patentes obtidas. O número de projectos submetidos e financiados a entidades tanto nacionais como estrangeiras. O número de projectos em consórcio com empresas (porque isto de ser cientista não é um mero exercício de vaidade pessoal, há que dar de comer a alguém). A qualidade da tecnologia desenvolvida e transferida, de facto, para o tecido empresarial. O número de actividades de divulgação científica. O número de participações em congressos internacionais. O número de convites para integração de entidades nacionais ou internacionais, para actividades de consultadoria ou expertise. A qualidade das participações em processos de tomada de decisão para o bem público. No fundo, a qualidade da contribuição da ciência produzida que seja útil, para além de boa.
O que eu acho é que não existirá nunca qualquer processo de avaliação credível que funcione sem penalizações para quem infrinja as regras. Não consigo conceber que:
a) não haja um processo de avaliação instalado e a funcionar, em termos nacionais
b) quem não tem qualidade, não seja denunciado pelos seus pares; sabemos que as instituições são avaliadas no seu conjunto, mas expulsões de membros parasitários são raras ou até excepcionais, para não dizer extraordinárias ou inexistentes
c) não haja o afastamento de elementos corruptos e/ou corruptores, com base na assinatura de uma carta de ética, que congregue os valores de uma sociedade minimamente democrática, e leal; os incumprimentos deveriam ser sinónimo de afastamento da possibilidade de usufruir de fundos públicos, por um período a definir
d) continue a haver este espírito corporativo doentio e estático, que beneficia os maus, não prejudicando contudo os bons; só prejudica os excelentes, que vão sendo progressivamente asfixiados por cátedras e conselhos científicos que se opõem, regra geral, à mudança
e) não haja, da parte do Estado, um corte radical neste processo de claro retrocesso, com a instauração de uma prática coerente de costumes; temos fiscalizações quase inaceitáveis da esfera privada, mas aquilo que determina a qualidade da coisa pública nem sequer é objectivamente avaliada.
Para concluir, sem moralização e branqueamento ético nunca haverá qualquer processo de avaliação do desempenho que seja sustentável. E por uma razão simples: as regras mudarão sempre que for conveniente premiar alguém, por muito fraco que seja. Exactamente por isso é que me bato intransigentemente por este objectivo.
O critério da publicação é de facto incontornável. Por muito que eu possa objectar, e decerto que muitos objectarão, a questão de sermos reconhecidos pelos nossos pares, permitindo-nos aceder à internacionalização, é dos critérios mais importante no processo da avaliação dos investigadores. É natural que toda a gente conheça os autores da "Ciência a metro", do "muda o bicho e publica o mesmo", dos "chouriços" e de toda essa parafernália de instrumentos de abuso com que alguns vão ludibriando as intenções primárias dos avaliadores. Apesar de eu tender a somente reconhecer publicações em revistas internacionais com avaliação pelos pares e naturalmente indexadas, tenho de reconhecer tacitamente a falha deste sistema. Porque também todos deveremos conhecer exemplos de conversas de corredores em que alguém diz que publica sem dificuldade devido ao facto de ser amiga íntima do editor da revista X ou Y. Mas como não existem sistemas perfeitos, e este apesar de tudo não é totalmente imperfeito, eu vou aceitando-o, na convicção de que a avaliação do desempenho não se faz só por aqui.
Mais parâmetros de avaliação:
O número de alunos em orientação ou co-orientação. O número de citações das publicações, e o seu factor de impacto (normalizado para a área científica em questão). O sucesso ou insucesso das teses de doutoramento, com avaliação das taxas e motivos de desistência (para excluir casos de despotismo que todos ouvimos falar). O tempo que leva, em média, a que alunos de doutoramento obtenham o grau, de modo a evitar aproveitamentos ilegítimos por parte dos orientadores sem qualidade. O número de patentes obtidas. O número de projectos submetidos e financiados a entidades tanto nacionais como estrangeiras. O número de projectos em consórcio com empresas (porque isto de ser cientista não é um mero exercício de vaidade pessoal, há que dar de comer a alguém). A qualidade da tecnologia desenvolvida e transferida, de facto, para o tecido empresarial. O número de actividades de divulgação científica. O número de participações em congressos internacionais. O número de convites para integração de entidades nacionais ou internacionais, para actividades de consultadoria ou expertise. A qualidade das participações em processos de tomada de decisão para o bem público. No fundo, a qualidade da contribuição da ciência produzida que seja útil, para além de boa.
O que eu acho é que não existirá nunca qualquer processo de avaliação credível que funcione sem penalizações para quem infrinja as regras. Não consigo conceber que:
a) não haja um processo de avaliação instalado e a funcionar, em termos nacionais
b) quem não tem qualidade, não seja denunciado pelos seus pares; sabemos que as instituições são avaliadas no seu conjunto, mas expulsões de membros parasitários são raras ou até excepcionais, para não dizer extraordinárias ou inexistentes
c) não haja o afastamento de elementos corruptos e/ou corruptores, com base na assinatura de uma carta de ética, que congregue os valores de uma sociedade minimamente democrática, e leal; os incumprimentos deveriam ser sinónimo de afastamento da possibilidade de usufruir de fundos públicos, por um período a definir
d) continue a haver este espírito corporativo doentio e estático, que beneficia os maus, não prejudicando contudo os bons; só prejudica os excelentes, que vão sendo progressivamente asfixiados por cátedras e conselhos científicos que se opõem, regra geral, à mudança
e) não haja, da parte do Estado, um corte radical neste processo de claro retrocesso, com a instauração de uma prática coerente de costumes; temos fiscalizações quase inaceitáveis da esfera privada, mas aquilo que determina a qualidade da coisa pública nem sequer é objectivamente avaliada.
Para concluir, sem moralização e branqueamento ético nunca haverá qualquer processo de avaliação do desempenho que seja sustentável. E por uma razão simples: as regras mudarão sempre que for conveniente premiar alguém, por muito fraco que seja. Exactamente por isso é que me bato intransigentemente por este objectivo.
Sunday, March 23, 2008
Bruxas
Hoje falo sobre o papel cumplíce de alguns órgãos de comunicação social que outrara imbuídos de um sentido de missão pioneiro, criaram secções muito meritórias de divulgação científica. De forma simples, simplória até (por vezes), assumiram o importante papel de contar ao mundo o que nós, geeks da ciência, fazíamos nos nossos espaços pouco iluminados, rodeados de gaiolas e de instrumentos complexos que debitam resultados ininteligíveis. E alguns destes órgãos, e refiro-me ao Jornal Público de forma específica, criaram uma área específica dedicada à Ciência, e chegaram ao inusitado ponto de profissionalismo de contactar cientistas que colaborassem com a redacção. Tive o prazer de conhecer um destes indivíduos, e fiquei claramente consciente de que finalmente, a comunicaçõa social tinha dado o passo certo, em boa hora e de modo criterioso. Pois bem, fui dos primeiros a achar que o Público era uma instituição de qualidade, isenta e sem qualquer constrangimento político ou de agenda mediática de qualquer grupo de pressão. Pois bem, enganei-me.
Não só essa colaboração com os tais cientistas findou, como inclusivamente a divulgação científica e a sua qualidade diminuíram a pique, chegando a passar-se semanas sem que haja a adição de uma única e singela notícia nesta secção. Partindo do pressuposto que artigos científicos são publicados em todo o mundo, e diariamente, não será decerto por falta de matéria prima que o Público não publica. E depois os critérios de manutenção de notícias pouco confortáveis para o aparelho do Governo, é no mínimo, tendencioso. O Público, a achar-se democraticamente instalado no seio do 4º poder, institucionalizou uma secção de "comentários". Pois bem, esses comentários tornam-se frquentemente verdadeiros foruns de discussão, muito mais do que de bota-abaixo ou de descasque, da verdadeira voz de quem acham justificadamente que as coisas estão mal. E como estes comentários são notoriamente desagradáveis, pois colocam a nu todas as debilidades do sistema científico nacional, são eliminados - juntamente com a notícia. Pois bem vejamos com um exemplo: até há relativamente pouco tempo (assumindo poucos meses atrás), o Jornal Público mantinha uma notícia sobre adição de esteróides a algo que hoje não consigo precisar (rações de animais, creio). Era uma notícia recente, com cerca de 3 anos... Notícias muito mais recentes e muito mais "interessantes" ou "apimentadas" (como a dos prémios da excelência às competentes mas já sobejamente premiadas Maria Mota e Mónica Betencourt Dias) foram retiradas ao fim de uma semana.
Eu nunca falei de censura, pero que la hay, la hay.
Não só essa colaboração com os tais cientistas findou, como inclusivamente a divulgação científica e a sua qualidade diminuíram a pique, chegando a passar-se semanas sem que haja a adição de uma única e singela notícia nesta secção. Partindo do pressuposto que artigos científicos são publicados em todo o mundo, e diariamente, não será decerto por falta de matéria prima que o Público não publica. E depois os critérios de manutenção de notícias pouco confortáveis para o aparelho do Governo, é no mínimo, tendencioso. O Público, a achar-se democraticamente instalado no seio do 4º poder, institucionalizou uma secção de "comentários". Pois bem, esses comentários tornam-se frquentemente verdadeiros foruns de discussão, muito mais do que de bota-abaixo ou de descasque, da verdadeira voz de quem acham justificadamente que as coisas estão mal. E como estes comentários são notoriamente desagradáveis, pois colocam a nu todas as debilidades do sistema científico nacional, são eliminados - juntamente com a notícia. Pois bem vejamos com um exemplo: até há relativamente pouco tempo (assumindo poucos meses atrás), o Jornal Público mantinha uma notícia sobre adição de esteróides a algo que hoje não consigo precisar (rações de animais, creio). Era uma notícia recente, com cerca de 3 anos... Notícias muito mais recentes e muito mais "interessantes" ou "apimentadas" (como a dos prémios da excelência às competentes mas já sobejamente premiadas Maria Mota e Mónica Betencourt Dias) foram retiradas ao fim de uma semana.
Eu nunca falei de censura, pero que la hay, la hay.
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