Este país tem dos mais belos climas do Mundo, até se come bem, a criminalidade não tem a expressão das ruas de Bagdad ou do Rio de Janeiro, há quem pague impostos, pelo que até nem é um inferno, mas tem coisas deliciosas.
Ontem telefonei para a FCT, e indaguei acerca da comunicação dos resultados relativos aos projectos submetidos no ano passado e referentes aquele concurso que deveria ter terminado numa data que agora já nem me recordo, mas que efectivamente terminou 30 dias depois, por pura incompetência do serviços informáticos da FCT. Decerto se lembrarão porque muitos dos que nele concorreram perderam os seus últimos dias de Agosto (o mês do tão merecido descanso...) a compensar as ursadas desta instituição famigerada que dá pelo nome de Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Lá fui atendido, esperei alguns segundos, e questionei para quando a comunicação dos resultados, visto a avaliação ter sido feita há mais de uma mês. Disseram-me que até já tinham os resultados, mas que precisavam de uma autorização superior. E eu pensei que essa autorização deve ser divina, deve provir exactamente de Deus, pois "superior" na FCT não há nada. Dizem que tem um presidente, chamado João Sentieiro, mas eu creio que é a versão cientifica do Américo Tomáz, corta umas fitas, assina uns despachos e no entretanto alivia os nós das cordas com que o Ministro o manipula, para não ganhar escaras. Não passa de um fantoche.
Pois bem, essa autorização divina não veio, logo o país da ciência pára. Ok, nada de novo, surpresa zero. E para quando, minha senhora, se dignarão Deus e o corta fitas a empunhar a caneta? Fui assim informado que estas coisas demoram, porque Deus por vezes adormece na retrete e quando acorda, apercebe-se que usou inadvertidamente os relatórios como papel higiénico. Pelo menos, é um hábito que o Deus que rege a FCT tem, que é usar os projectos como papel utilitário. Lá para a próxima semana... Segunda feira, talvez.
Farto de esperar, pois feitas as contas perdi noites de sono há quase um ano para nem ver se os meus projectos foram lidos, argumentei que os paíneis de estrangeiros (sim, são todos estrangeiros, que parolice, que ruralidade, que maneira mais bizarra de arranjar isenção, como se todos os avaliadores portugueses tivessem bigode, unhaca do dedo mindinho e um palitinho ao canto da boca 2 horas após a refeição...; são todos estrangeiros, mas nomeados por portugueses, exactamente aqueles que continuam a beneficiar dos benesses, para garantir a tal isenção) são demasiados bem pagos para andar a dormir. E a ruralidade tomou conta da conversa: "sabe, Sr. Professor, os avalidores são muito ocupados, até temos de os lembrar que têm de nos enviar os relatórios..." Pois, devem ser os relatórios das instituições portuguesas, porque tenho as minhas dúvidas se terão o mesmo comportamento na terra deles.
Enfim, estupidez na instituição que financia a busca do conhecimento em Portugal...
Depois questionei para quando o cronograma da abertura de novos concursos, pois sei de fonte segura que o tal corta fitas assumiu publicamente que os mesmos concursos abririam com uma periodicidade anual. Disse à tal funcionária que tinha ouvido o chefe dela dizer isto. Resposta pronta: "Sabe, Sr. Professor, às vezes mais valia que ele estivesse calado..." Pela primeira vez na conversa, que já se entabulava há alguns minutos, concordei com a senhora. Isto é a prova do conceito da universidade do intelecto, por muito burros que sejamos, há-de haver algo em que teremos a mesma compreensão. Neste caso, concordamos que o corta fitas mais devia ter estado calado.
E a dita senhora, funcionária pública (hoje em dia é perigoso para um funcionário público dizer estas coisas) confessou que lá (FCT) não havia comunicação, que eles são os últimos a saber das decisões. Concordei novamente, e provei o conceito da universalidade do intelecto: é que toda gente, tanto dentro como fora da FCT, sabe que ninguém se entende na Ciência. Ninguém comunica em Ciência. Mas talvez este manto de silêncio sirva propósitos obscuros, que não ousei discutir com a minha interlocutora de ocasião, porque imagine-se as repercussões da universalidade do intelecto se ambos concordássemos que, para além de pouco brilhante (eufemismo claro), o corta fitas é mal intencionado? Ou que o Ministro é mal intencionado? Ou que andamos todos a mangar com a malta?
Despedi-me e desliguei com um sorriso nos lábios. Afinal o Sol brilhava e tinha almoçado arroz de marisco. Espero até segunda feira para concordar com mais umas coisitas.
Thursday, June 14, 2007
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2 comments:
Só há uma solução: todos os responsáveis do governo socrático para as Berlengas. Não há mais pachorra!
Gosto muito deste blog.
Continua assim.
Vale a penar expressar as frustrações sobre o sistema de ensino português.
Adorava que as coisas mudassem para voltar e trabalhar aí.
Não gosto de ser emigrante, mas tentar fazer coisas enquanto existir essa cultura não dá. Vai ser bom para me reformar espero.
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