Monday, February 18, 2008

A confusão, o caos e as más intenções

O atraso científico estrutural a que nós assistimos em Portugal pode ser combatido de várias formas. E cabe ao Estado criar legislação que permita que se vença esse atraso, principalmente por intermédio de um acréscimo sustentado de autonomia das unidades de investigfação em contratar quem muito bem entendam. Foram assim criadas as posições de investigador auxiliar, pagos pelo centros (e com vencimentos muito apetecíveis, convenhamos; alías, concordo inteiramente, quem quer qualidade, pague-a), mas com contratos assumidos em modalidades interessantes.

A ideia inicial era contratar esta gente a 10 anos. Depois, os cortes orçamentais causaram um movimento de marcha-atrás radical, e os contratos foram equacionados para ser a 5 anos. Depois de mais cortes orçamentais, adoptou-se o último formato, 3+1+1: 3 anos de contrato, e se houver dinheiro, mais um ano; se continuar a haver dinheiro, mais um ano. Final do contrato e rua. Sem mais contemplações, e acreditou-se que se iria resolver o problema premente do emprego científico em Portugal. Uma bolsa encapotada... camuflada para parecer um emprego legítimo com direitos sociais. Incrível a maneira como se vendem ilusões, principalmente que se apregoadas pelos docentes de carreira, que é quem inventa estas asneiras crassas, sob o lema omnipresente de "pimenta no cu dos outros é refresco".

Depois, a questão das expectativas profissionais e das atribuições em termos de responsabilidades. Eu acredito sinceramente que um investigador auxiliar é um indivíduo com uma formação absolutamente brutal e extremamente sólida numa determinada temática científica. Então, estamos aqui perante um paradoxo: os investigadores auxiliares, que são descartáveis, são imensamente melhores que muitos directores de laboratório ou de departamento. O ovo da serpente está a chocar-se.

E depois a questão da sua função: orientam alunos, submetem projectos e depois são despedidos? Como se garante a continuidade destas iniciativas se se corre o risco (e muto sério, já veremos adiante) de muitos destes indivíduos poderem ser dispensados sem qualquer contrapartida?

Há uns anitos, andou a circular um mail de um director senior de um LA que pedia encarecidamente aos doutorados do seu centro que incluíssem obrigatoriamente (o carácter de obrigatoriedade é que é de morte...) investigadores seniores, docentes universitários portanto, nos projectos, para evitar o prolema de alguns destes projectos correrem o risco de ficarem órfãos a meio do percurso. E porquê? Tal recomendação surgiu na ressaca de um pedido de demissão de um destes investigadores, que era estrangeiro, e achou que este país fosse normal; surpreendeu-se, pois deu com uma chefe clássica - e a única solução foi abandonar o centro nacional e deixar o projecto a quem não percebe nada daquilo. Mas não será isto uma subversão do espírito do emprego científico do Estado? Será que o Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior pode sacudir a água do capote, juntamente com o Conselho dos Laboratórios Associados, e achar que não são, no mínimo, co-responsáveis, por mais este abuso?

Pois é, quanto mais se anda mais se vê a fragilidade da Ciência deste país. O caos, a confusão e as más intenções.

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