Eu devia achar estranho que se façam anúncios numa Universidade deserta... Quando se agendam apresentações de iniciativas verdadeiramente importantes, é conveniente ver se não estamos a meio de um feriado. E foi tão bom ver o deserto que a Universidade de Aveiro foi, na passada 2ª feida (12 de Maio de 2008), em plena Sta Joana, para a apresentação da designada Iniciativa Ciência 2008. Nada foi augurado, e parece que desta vez se ultrapassaram alguns limites que a decência mande que não se ultrapassem.
Vamos por partes.
a) Cátedras Convidadas
Nada contra, excepto os moldes de selecção das propostas, que não foram devidamente clarificados. Parece-me ser uma iniciativa que, a ser subvertida (como as são quase todas) poderá servir mais o propósito de pagamentos de favores e de amiguismo institucional do que trazer de facto gente boa. Parece-me é que o período de permanência de cientistas, como foi definido, é demasiado curto para desenvolver um trabalho de qualidade. Apesar das críticas, aceito.
b) Bolsas de Integração na Investigação
Anedota. Só pode ser anedota. Hilariante. Insano. Desconheço esta meta estatística que tenhamos de cumprir, obrigados pela UE. Será que o Ministro quer dar ares de inusitada inteligência, competência e clarividência, ao contemplar uma medida tão inútil que nem os restantes europeus inventaram já? Eu não sei se já sabem quanto vale cada bolsa destas... Mas eu digo-vos: 140€. Por mês. Para pagar a alunos de licenciatura que deveriam estar é mais preocupados a estudar para as frequências e para o "paradigma de Bolonha". E depois, urge perguntar o que se espera destes bolseiros, coisa que não me parece que esteja muito clara. A acreditar no que é prática corrente na praça, vamos ter técnicos a ganhar 140€ por mês, e a lavar frascos, preparar soluções, enfim, a fazer o que mais ninguém quer fazer. Vão passar a ser os empregados do alunos de doutoramento. E sem que o MCTES controle ou evite estas práticas. E depois, é a massificação da coisa: 5000? Já era péssimo ter alguém a trabalhar por 140€/mês, mas ter 5000 é uma calamidade, uma catástrofe, um holocausto. E a FCT paga o SSV, indexado a este vencimento ou ao salário mínimo nacional? Excelente modo de fomentar a investigação e combater a precariedade na Ciência.
c) Contratação de Doutorados
Isto já começa a ser uma obsessão doentia. Em vez de se definir de uma vez por todas o que se vai fazer com a carreira científica, faz-se exactamente o contrário: massificam-se as contratações, sem saber o que se vai fazer a toda esta gente daqui a 5 anos. O Sr. Ministro tem de pensar muito bem, e muito para além dos limites temporais do seu consulado, o que se espera da Ciência nacional. E tem de fazer uma escolha: manter este proteccionismo retrógrado que permite a que sejam os docentes de carreira a mandar (literalmente) nos Laboratórios Associados ou outros do Sistema Científico Nacional, ou, pelo contrário, dar garantias de manutenção dos cargos de investigador auxiliar (e devidas contrapartidas em termos de organização interna destes espaços, que permitam a assumpção de responsabilidades, direitos e regalias, até mesmo organizacionais). Assim como estamos é que não faz sentido.
d)Concursos de Bolsas Individuais de Doutoramento e Pós-Doutoramento 2008
Teço aqui as mesmas considerações que no ponto imediatamente acima. Não faz sentido aumentar o número de doutores quando não se resolve nada sobre o que se pretende da carreira científica. Poque corremos o risco de ter problemas muito mais pronunciados no futuro. Quanto mais não seja, por uma questão de número.
Pois é...
Wednesday, May 14, 2008
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3 comments:
Você diz "massificam-se as contratações, sem saber o que se vai fazer a toda esta gente daqui a 5 anos" !! Discordo desta sua maneira de ver a situação ! O que é que você sugere ? Que se arranjem "tachos" vitalícios (digo tachos porque em minha opinião tudo o que é vitalício é um tacho) para todos os investigadores ?? Para bem da nossa sociedade é bom que acabem os empregos para toda a vida na função pública ! E para começar seria bom que surgisse um ministro com os "coisos" nos sítio, que tivesse a coragem de pôr no olho da rua todos os maus e mediocres que abundam nos lugares de docência nas universidades portuguesas ! É um absurdo, no mundo actual e num país que se quer desenvolvido e competitivo, que as pessoas estejam preocupadas com o que vai ser daqui a 5 anos !! Depois se verá !! Estou certo que quem fôr realmente bom não terá de se preocupar muito com esse futuro longíncuo.
Caro Filipe,
Quando chegar aos 50 logo vai dizer se não fica preocupado com o que lhe pode acontecer. Acha que as pessoas devem ser apenas consideradas como objectos e números no meio desta trituradora vertigem economicista? Que fazer aos investigadores que já não produzem os tais x número de papers por ano? Será que a solução é correr com eles, como sugere? A capacidade de produzir trabalho válido depende de muitos factores, e não apenas o de ter uma equipa estruturada com projectos, mas também dum estado físico e mental equilibrados. Com a realidade de vida que estamos a construir, acredite que antes dos 50 anos, muitos dos actuais jovens investigadores estarão em condições de desenvolver processos depressivos crónicos. E isto não é ficção. Infelizmente vai ser a dura realidade que muitos vão encontrar. Nessas circunstâncias devemos desumanizar todo processo e enviá-los directamente para o lixo, sem qualquer hipótese de os mesmos poderem continuar a ser úteis em outros níveis do tecido científico e educativo nacionais? Não é através duma filosofia do "vale tudo" e de princípios que estão longe das nossas raízes históricas e sociais que o país e as instituições científicas vão ser melhores e mais competitivas. Antes pelo contrário. A presente política do ministro Gago, não é mais do que um passo decisivo para aproximar toda a estrutura do abismo em que praticamente se encontra a investigação e o ensino superior em Portugal. O que o Prof. Mariano Gago tem estado a fazer na realidade é a política da avestruz e o da fuga para a frente. Estamos a produzir “a todo o vapor” doutorados que não conseguem maioritariamente ser incorporados no tecido industrial e empresarial nacionais, bem como nas universidades e politécnicos. Devemos continuar, assim, a fazer figura de “alunos bem comportados” perante a UE e ter a pretensão, como o ministro tem, de que o país vai obrigatoriamente desenvolver-se economica e tecnologicamente se tivermos mais doutorados por habitante? Será, neste momento, esta a prioridade para o nosso país? Não me parece. Podia dar-lhe muitos exemplos, mas veja quantos doutorados estão a trabalhar em empresas nacionais ou a criar as suas próprias estruturas empresariais? Muito poucos. A maioria vai, infelizmente, ver-se obrigada a emigrar. É nisso que está a resultar esta política científica sem prioridades coerentes e fundamentalmente baseada em medidas avulsas como as que sucederam na última segunda-feira. Por isso é necessário e urgente reavaliar a política dos últimos anos protagonizada pela actual ministro e se necessário (como é) corrigi-la e reconvertê-la à realidade do país. Os projectos com o MIT e outros semelhantes devem ser obrigatoriamente revistos e as verbas que são pagas a essas instituições canalizadas para o desenvolvimento do tecido universitário e científico nacionais. Não podemos ficar dependentes de modelos de desenvolvimento falhados ou criados na mente de muitos dos actuais governantes e que apenas existem no país do “faz de conta” que os senhores políticos discutem nas reuniões semanais do conselho de ministros.
Por fim, acredite, já todos passámos por essa sua fase de alguma intolerância, mas a vida ensina-nos muito e sobretudo a olhar-nos com maior humildade e sobretudo com maior sentido de solidariedade social.
Caro brothero,
O que é que você entende por solidariedade social? Será que para si solidariedade social significa manter os previlégios e benesses dos maus e mediocres em prejuizo dos bons e competentes?? Será que para si solidariedade social significa tratar todos por igual independentemente das maiores ou menores competências de cada um, bem à maneira de um regime comunista ?
É óbvio que os maus e mediocres também devem ter direito a uma vida condigna mas é exactamente para salvaguardar essas situações que existem os subsidios de desemprego !! Isto é, os maus e mediocres devem receber subsidios de desemprego e não salários de professores universitários !! Será que é dificil de entender ??!!
O senhor acha que, por exemplo, docentes universitários (como eu conheço aos molhos) que já bem nos seus 40s e 50s e com um número de publicações cientificas que se podem contar pelos dedos de 1 ou 2 mãos e muitas vezes até em jornais da treta, merecem qualquer tipo de compaixão ??? Pelo amor de Deus !!
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